     Em Seus Passos Que Faria Jesus?

                   Charles M. Sheldon
                    Ttulo do Original: In His Steps
                     Traduo: Rubens Castilho
                         Editora United Press
                        Edio Especial, 1998
                         ISBN 85-243-0020-5
                           Categoria: Fico

                      Digitalizado por: guerreira
                         Revisado por: Lucia




                        Contra-Capa
     O que aconteceria se os cristos de uma igreja em uma certa
cidade se comprometessem durante um ano inteiro a no fazer
nada sem antes perguntar: Que faria Jesus em meu lugar?
      esta a situao apresentada por este livro. Seguir os passos
de Jesus trouxe muita alegria a inmeros cristos, mas tambm
causou incompreenso, conflito e sofrimento para alguns. Afinal,
tal deciso significava uma total dedicao de bens materiais,
talentos e carreiras pelo amor a Cristo.
     Em Seus Passos Que Faria Jesus? desafia os cristos a seguir
os passos de Cristo em toda e qualquer situao. Este livro
proporciona entretenimento, reflexo e desafios raramente
encontrados na literatura crist.


  Mais de 30 milhes de exemplares vendidos no mundo inteiro.
                               UM
         "Porquanto para isto mesmo fostes chamados, pois
        que tambm Cristo sofreu em vosso lugar, deixando-
         vos exemplo para seguirdes os seus passos " (1 Pe
                               2.21).


      Numa sexta-feira de manh o Rev. Henrique Maxwell estava
tentando completar o sermo para o culto matutino de domingo.
Interrompido vrias vezes, comeou a ficar angustiado, pois o
tempo ia passando e ele no havia chegado a um final satisfatrio.
     Depois da ltima interrupo, recomendou  esposa,
enquanto subia os degraus de volta ao escritrio: "Maria, se
algum vier a partir de agora, diga que estou muito ocupado e no
posso atender, a no ser que se trate de alguma coisa excepcional."
     "Est bem, Henrique, mas estou saindo para visitar o Jardim
da Infncia. Voc vai ficar sozinho em casa."
     O pastor entrou em seu escritrio e fechou a porta. Poucos
minutos depois notou que sua esposa saa e logo tudo voltou 
calma. Acomodou-se  mesa com um suspiro de alvio e continuou
a escrever. O texto escolhido fora (1 Pedro 2.21) "Porquanto para
isto mesmo fostes chamados, pois que tambm Cristo sofreu em
vosso lugar, deixando-vos exemplo para seguirdes os seus passos."
     Na primeira parte de sua mensagem, realava Maxwell a obra
expiatria de Cristo, como um sacrifcio pessoal, chamando a
ateno para o fato de o Salvador ter sofrido de vrias formas,
tanto em vida como na morte. Passava ento a considerar a
Expiao como exemplo, apresentando ilustraes da vida e dos
ensinos de Jesus. Seu propsito era mostrar como a f em Cristo
ajudava a salvar vidas, por causa do modelo de carter que Ele
deixou para ser imitado. O pastor havia chegado ao terceiro e
ltimo ponto do sermo -- a necessidade de seguir o sacrifcio e o
exemplo de Jesus.
     Ele anotou "Trs Passos. Quais So?" e se preparava para
coloc-los em ordem lgica quando ouviu o toque estridente da
campainha. Sentado  mesa, Henrique Maxwell franziu
ligeiramente a testa. Permaneceu ali sem responder  campainha.
Mas logo em seguida ela voltou a tocar. Levantou-se ento e
caminhou at a janela que dominava a vista de toda a frente da
casa. Um homem estava de p nos degraus. Era jovem e vestia
roupas esfarrapadas.
      "Parece um mendigo", pensou o pastor. "Acho que vou ter de
descer e..." Mal terminou a frase, foi descendo a escada para abrir
a porta. Houve um momento de silncio quando se olharam frente
a frente, mas o homem em andrajos tomou a iniciativa de falar:
     "Estou desempregado, senhor, e pensei que talvez pudesse
me indicar alguma coisa para fazer."
    "No conheo nenhum emprego disponvel. Est difcil
encontrar trabalho", disse Maxwell, procurando fechar a porta.
     "Eu no sabia disso, mas talvez o senhor pudesse me
recomendar  empresa ferroviria ou ao chefe das oficinas da
estrada de ferro, ou alguma outra coisa", prosseguiu o moo,
enquanto passava o surrado chapu de uma mo para outra,
demonstrando nervosismo.
      "Penso que no adiantaria. Por favor, queira me perdoar,
estou muito atarefado esta manh. Espero que encontre alguma
coisa. Lamento no poder oferecer nada que possa fazer aqui. As
nicas coisas que tenho so um cavalo e uma vaca, mas eu mesmo
trato deles."
     O Rev. Henrique Maxwell fechou a porta ouvindo os passos
do homem descendo a escada. Quando subia ao escritrio viu pela
janela do corredor que o homem descia a rua vagarosamente,
ainda com o chapu entre as mos. Havia algo em sua figura to
abatida, desamparada e angustiada que o pastor ficou hesitante
por um momento ao olhar para ele  distncia. Em seguida voltou
ao seu trabalho e, com um fundo suspiro, retomou suas anotaes.
No houve nenhuma outra interrupo, e duas horas depois,
quando sua esposa voltou, o sermo estava terminado. As pginas
soltas foram reunidas, presas e colocadas sobre a Bblia. Estava
tudo pronto para o culto da manh no domingo.
     "Henrique, uma coisa estranha aconteceu no Jardim da
Infncia esta manh", disse a esposa durante o jantar. Fui visitar a
escola em companhia da sra. Brown. e logo depois das
brincadeiras, quando as crianas estavam sentadas  mesa, a
porta se abriu e um homem jovem entrou segurando um chapu
sujo nas mos. Ele ficou sentado perto da porta e no disse uma
nica palavra. Ele apenas olhava as crianas. Era certamente um
vagabundo, e a srta. Wren e sua assistente srta. Kyle ficaram com
um pouco de medo no comeo, mas ele ficou l sentado e quieto, e
depois de alguns minutos levantou-se e foi embora."
     "Ele devia estar cansado e querendo descansar em algum
lugar. Acho que foi o mesmo homem que esteve aqui. Voc disse
que ele parecia um vagabundo?"
      "Sim, sujo. esfarrapado, com toda a aparncia de um
vagabundo. Eu diria que ele no deve ter mais de trinta ou trinta e
trs anos de idade."
     "O mesmo homem", disse pensativamente o Pastor Maxwell.
     "Voc terminou o sermo. Henrique'7" perguntou ela aps
breve silncio.
     "Sim, est tudo pronto. Foi uma semana muito carregada
para mim. Os dois sermes me custaram um trabalho penoso.
     "Eles sero bem recebidos por um grande pblico no domingo,
 o que espero", acrescentou ela sorrindo. "Sobre o que voc vai
pregar de manh?"
      "'Seguir a Cristo.' Vou iniciar pela Expiao e salientar seu
sacrifcio e exemplo, mostrando a seguir os passos necessrios
para imitar esse sacrifcio e exemplo."
     "Tenho certeza de que ser um bom sermo. Espero que no
chova. Ultimamente tem chovido muito aos domingos."
     " verdade. A freqncia tem sido muito baixa. O povo no
gosta de sair de casa em dia de chuva." Ao dizer isso o Rev.
Maxwell suspirava. Lembrava-se de seu empenho e cuidado na
preparao dos sermes pensando em numerosos ouvintes que
deixavam de comparecer.
     Mas a manh daquele domingo estava esplendorosa na
cidade de Raymond, de fato um desses belos dias que costumam
suceder aos longos perodos de chuva, vento e lama. O ar estava
lmpido e refrescante, a serenidade do cu no dava sinais de
qualquer alterao. Cada um dos membros da igreja se preparava
para participar do culto. Iniciado o servio s onze horas, o templo
estava repleto de pessoas bem vestidas e saudveis, representando
a melhor sociedade de Raymond.
     A Primeira Igreja de Raymond ostentava a melhor msica que
o dinheiro pode proporcionar, e seu quarteto musical naquela
manh era uma fonte de grande deleite para a congregao. Os
hinos eram inspiradores. Todos eles eram apropriados ao tema do
sermo. E um dos hinos era uma adaptao bem elaborada e
moderna do hino:


     " meu Jesus, tomei a minha cruz,
     Deixarei tudo e te seguirei."


    Como preparao espiritual para o sermo, a soprano cantou
um solo de um hino bem conhecido:


     "Seguirei a meu bom Mestre,
     Aonde quer que for irei."


     Raquel Winslow ostentava toda sua beleza naquela manh
quando se levantou por trs do balco de madeira nobre esculpido
com os smbolos da cruz e da coroa. Sua voz era ainda mais
esplndida do que seu rosto, e isso causava um efeito
extraordinrio. Houve um sussurro de expectativa e excitao na
audincia quando ela se levantou. O Rev. Maxwell ajeitava-se
contente atrs do plpito. Os cnticos de Raquel sempre o
ajudavam. Ele geralmente procurava combinar um hino apropriado
antes do sermo, o que lhe dava inspirao para apresentar uma
mensagem mais convincente.
     Os presentes comentavam nunca ter ouvido antes cntico to
belo mesmo na Primeira Igreja. Certamente, fosse outro o ambiente
e no a igreja, seu solo seria aplaudido com entusiasmo Pareceu
mesmo ao ministro que, quando ela se sentou, uma sensao
como o mpeto de aplaudir ou de bater com os ps no cho
perpassou pelo auditrio. Um frio percorreu a espinha de Maxwell.
Ao levantar-se. porm, e colocando seu sermo sobre a Bblia,
imaginou que se havia enganado. Por certo isso no podia
acontecer. Em poucos segundos ele estava absorvido em seu
sermo e tudo o mais foi esquecido graas ao prazer de sua
mensagem.
     Henrique Maxwell nunca foi acusado de ser um pregador
maante. Bem ao contrrio, ele era comumente considerado um
orador excepcional, no especificamente pelo que ele dizia, mas
pela forma como se expressava. Os membros da Primeira Igreja
gostavam do seu jeito. Isso dava ao pregador e aos ouvintes uma
agradvel distino.
      A verdade  que o pastor da Primeira Igreja gostava de pregar.
Raramente ele trocava o plpito com outro orador. Ele ansiava
estar em seu prprio plpito quando chegava o domingo. Eram
trinta minutos deliciosos que desfrutava diante da igreja cheia,
sentindo a presena interessada de um seleto auditrio. Mas ele se
mostrava sensvel ao tamanho da audincia. Sua pregao diante
de um grupo pequeno diminua em contedo e brilho. As prprias
variaes do tempo o afetavam de modo considervel. Sentia-se no
mximo de sua pujana diante de um auditrio como aquele que
ali estava naquela manh. Sua satisfao ia aumentando  medida
que continuava. A igreja era a melhor da cidade. Contava com um
quarteto de alto nvel. Sua congregao era composta de pessoas
importantes, representativas da riqueza, da melhor sociedade e da
elevada cultura de Raymond. Ele tinha pela frente um perodo de
trs meses de frias no vero, e as circunstncias de seu pastorado,
sua influncia e sua posio como pastor da Primeira Igreja da
cidade...
     Parecia estranho que o Rev. Maxwell pudesse pensar nessas
coisas ao mesmo tempo que pregava, mas, quando se aproximava
do final do sermo, ele sabia que em algum ponto de sua
mensagem havia experimentado tais sensaes. Elas penetraram
no ntimo de sua mente; pode ter acontecido em poucos segundos,
mas ele estava cnscio de ter definido sua posio e suas emoes
to bem como se tivesse tido um monlogo, e sua pregao
compartilhou a vibrao de uma profunda satisfao pessoal.
     O sermo era interessante, recheado de frases admirveis. Se
fosse publicado, atrairia a ateno dos leitores. Pronunciado do
plpito com paixo e dramaticidade, com o bom gosto de nunca
melindrar nem demonstrar qualquer sinal de afetao ou
declamao, era uma soberba pea oratria. Se o Rev. Maxwell
estava satisfeito com as condies do seu pastorado naquela
manh, a Primeira Igreja tambm compartilhava esse mesmo
sentimento, contente de ter ao plpito uma pessoa erudita, fina, de
aparncia agradvel, pregando com tanta animao e poder de
persuaso, sem o vcio do maneirismo vulgar, artificial e
desagradvel.
      De repente, no meio daquela perfeita consonncia entre o
pregador e a audincia, ocorreu uma interrupo inteiramente fora
do comum. Seria difcil avaliar o impacto do choque que essa
interrupo causou. Foi to inesperada, to contrria a quaisquer
pensamentos das pessoas presentes que no houve espao naquele
momento para qualquer iniciativa ou reao.
     O sermo j tinha acabado. O Rev. Maxwell tinha fechado a
grande Bblia sobre seus manuscritos e estava prestes a sentar-se
quando o coro tomava posio para entoar o hino de encerramento,


     "Tudo,  Cristo, a ti entrego;
     Tudo, sim, por ti darei'"


      quando toda a congregao foi surpreendida pela voz de um
homem vinda do fundo do templo, ao que parece de um banco sob
a galeria. Em seguida, a figura de um homem surgiu da sombra e
foi caminhando at a metade do corredor. Antes que o auditrio
atnito entendesse o que se passava, o homem foi at o espao
vazio diante do plpito e voltou-se de frente para o pblico.
     "Estive pensando desde que cheguei aqui" -- foi ele repetindo
as palavras que havia dito embaixo da galeria -- "se seria
apropriado dizer algumas palavras no final deste culto. No estou
bbado, no sou louco e sou incapaz de causar mal a qualquer
pessoa; mas, se eu vier a morrer, o que poder acontecer nos
prximos dias, quero sentir a satisfao de ter falado num lugar
como este e diante dessas pessoas."
     Maxwell no chegara a sentar-se. estava ainda de p
apoiando-se no plpito, olhando para o estranho. Era ele o homem
que tinha ido a sua casa na ltima sexta-feira, o mesmo homem
jovem maltrapilho, abatido e desorientado. Estava com o surrado
chapu girando entre as mos, parecendo ser aquele seu gesto
preferido. No tinha feito a barba e seu cabelo estava todo
embaraado. Ningum se lembrava de ter visto uma cena como
aquela na Primeira Igreja, dentro do templo. Estavam todos
acostumados a encontrar pessoas desse tipo nas ruas, nas
proximidades das oficinas da estrada de ferro, perambulando pela
cidade, porm nunca imaginaram que tal incidente fosse acontecer
ali, dentro da igreja.
      No havia nada de ameaador no comportamento e jeito de
falar do homem. Ele no estava excitado e falava em voz baixa mas
compreensvel. Maxwell estava impassvel, mudo, apesar do golpe
que lhe causou estupefao, e lembrava-se ligeiramente de uma
pessoa que vira em sonho caminhando e falando.
      Nenhuma pessoa se mexeu, ningum fez qualquer gesto para
interromper ou fazer calar o estranho. Provavelmente o choque
inicial de sua apario repentina causou tal perplexidade que
inibiu a ao de todos sobre o que deveria ser feito. Em todo caso,
ele continuou a falar normalmente sem preocupar-se com
interrupo ou com o fato incomum de ter ofendido o decoro da
solenidade do culto da Primeira Igreja. E enquanto falava, o
ministro apoiava-se no plpito, seu rosto cada vez mais plido e
triste a cada momento. Contudo, nenhum movimento fez para
interromper a fala do intruso, e o auditrio permanecia calado e
imobilizado. Uma outra face, a de Raquel Winslow no coro, estava
voltada toda plida e chocada para a figura maltrapilha de chapu
desbotado. O rosto de Raquel estava luminoso o tempo todo. Sob a
presso daquele incidente jamais visto, ele estava to
personificadamente inconfundvel como se tivesse sido esculpido a
fogo.
      "No sou um vagabundo comum, muito embora no conhea
qualquer ensino de Jesus que torne uma espcie de vagabundo
menos digna de salvao do que outra. Os senhores conhecem?"
Ele fez a pergunta to naturalmente como se todo o auditrio fosse
uma pequena classe bblica. Fez uma pausa por um momento e
tossiu penosamente. E logo continuou.
     "Perdi meu emprego h dez meses. Minha profisso 
tipgrafo. As novas mquinas linotipo so uma tima inveno,
mas sei de seis tipgrafos que se suicidaram no perodo de um ano,
justamente por causa dessas mquinas.  claro que no vou
censurar os jornais por comprarem essas linotipos. Mas, o que
pode fazer um trabalhador? Nunca aprendi outra coisa, isto  a
nica coisa que sei fazer. Andei por toda a parte neste pas
tentando achar alguma coisa. E h muitos outros na mesma
situao. No estou reclamando, estou? Estou apenas relatando os
acontecimentos. Mas o que estava me intrigando quando me sentei
l atrs embaixo da galeria  saber se o que vocs chamam seguir
a Jesus  a mesma coisa que Ele ensinou. O que Ele quis dizer
com estas palavras -- 'Sigam-me!' O ministro disse", e ento se
voltou para o plpito, "que  necessrio que o discpulo de Jesus
siga os passos dele, e disse quais so esses passos: 'obedincia, f,
amor e imitao.' Porm no o ouvi dizer o que significam esses
passos, especialmente o ltimo. O que os cristos entendem por
'seguir os passos de Jesus'?
      "Andei por toda esta cidade nos ltimos trs dias tentando
arranjar um emprego; e durante todo esse tempo no tive uma
palavra de solidariedade ou conforto, exceto de seu pastor, que
disse estar pesaroso por minha situao e esperava que eu
encontrasse um emprego em algum lugar. Imagino que, por terem
sido enganados por outros mendigos profissionais, vocs perderam
o interesse por qualquer outro tipo de necessitado. No estou
querendo acusar ningum, estou apenas narrando os fatos.
Reconheo que os senhores no podem deixar suas atividades para
conseguir emprego para uma pessoa como eu. No estou pedindo
nada, mas estou confuso a respeito do significado de seguir a
Jesus. O que vocs querem dizer quando cantam: 'Onde quer que
for, eu o seguirei'? Vocs acham que esto sofrendo e negando a si
mesmos, procurando salvar a humanidade perdida e sofredora,
exatamente como fez Jesus? O que vocs querem dizer com isso?
Estou sempre vendo o lado trgico das coisas. Estou sabendo que
h mais de quinhentos homens nas mesmas condies aqui na
cidade. A maioria deles tem famlia. Minha mulher morreu h
quatro meses, e eu estou contente por ela estar livre deste
sofrimento. Minha filhinha mora com a famlia de um impressor
at que eu consiga um emprego. Fico confuso quando vejo tantos
cristos vivendo com todo conforto e cantando -- 'Por Jesus Cristo
deixarei tudo', e fico lembrando como minha mulher morreu com
falta de ar num quartinho apertado em Nova York, pedindo que
Deus levasse tambm nossa filhinha. No espero que vocs
possam impedir que pessoas morram de fome, por falta de
alimento adequado e num lugar arejado, mas o que significa seguir
a Jesus? Sei que muitas pessoas crists so proprietrias de
muitos desses quartinhos infectos. Um membro de igreja era o
dono daquele em que minha mulher morreu, e eu duvido que
seguir a Jesus fosse verdadeiro em seu caso. Ouvi um grupo de
pessoas cantando numa reunio de orao na igreja uma destas
noites:


     'Tudo,  Cristo, a ti entrego;
     Tudo, sim, por ti darei'


      e, sentado do lado de fora, fiquei pensando no sentido
daquelas palavras, e como aquelas pessoas as interpretavam.
Parece-me que muita desgraa deste mundo de algum modo
acabaria se todas as pessoas que cantam esses hinos vivessem de
acordo com eles. Bem, no entendo dessas coisas. Mas, o que faria
Jesus?  isso que vocs entendem por seguir os passos de Jesus?
Observo, s vezes, que as pessoas que vo s grandes igrejas tm
roupas bonitas, belas casas e dinheiro para gastar com luxo, frias
de vero e muitas outras coisas, enquanto os que esto fora das
igrejas, milhares deles, morrem em cubculos srdidos e andam
pelas ruas  procura de trabalho, e nunca tm um piano ou um
quadro na parede, vivendo na misria, na embriaguez e no
pecado."
     O estranho de repente deu uns passos trpegos em direo 
mesa da comunho e se apoiou nela com uma das mos. Seu
chapu caiu sobre o tapete a seus ps. Uma agitao tomou conta
do auditrio. O Dr. West fez meno de levantar-se de seu banco,
mas todos ficaram imveis e em silncio em seus lugares. O
homem passou a outra mo sobre a fronte e, sem uma palavra ou
gemido, caiu pesadamente ao cho de frente, a cabea voltada para
o corredor. Henrique Maxwell falou:
     "Damos por encerrado o culto."
     Em seguida desceu os degraus do plpito e ajoelhou-se ao
lado do estranho. O auditrio levantou-se imediatamente e os
corredores ficaram tomados, mas ningum saiu. O Dr. West disse
que o homem estava vivo, tinha sido um desmaio. "Algum
problema no corao", sussurrou o mdico enquanto ajudava a
carreg-lo at o gabinete pastoral.
                             DOIS
     Henrique Maxwell e um grupo de membros da igreja
permaneceram no gabinete pastoral por algum tempo. O homem
estava estendido num sof e respirava com dificuldade. Quando
surgiu a dvida sobre o que fazer com o estranho, o pastor fez
questo de que ele ficasse em sua prpria casa: ele morava perto e
tinha um quarto disponvel. Raquel Winslow tambm ofereceu seus
prstimos:
     "Mame no tem nenhum hspede atualmente. Estou certo
de que ela gostaria de acomod-lo em casa."
     Ela parecia bastante agitada. Ningum, entretanto, notou
porque estavam todos excitados com o estranho acontecimento, o
mais estranho at ento havido na Primeira Igreja. O ministro,
porm, insistiu em cuidar do homem e, quando chegou a
carruagem, aquela figura inconsciente foi levada para a casa
pastoral; e com a entrada daquele ser no quarto que lhe foi
destinado iniciava-se um novo captulo na vida de Henrique
Maxwell, mas ningum, nem ele mesmo, podia imaginar a
mudana que aquele episdio iria desencadear na vida dos
discpulos cristos de Raymond.
     O acontecimento causou uma grande sensao entre os
membros da Primeira Igreja. No se falava de outra coisa durante a
semana. Houve um consenso geral de que o homem havia entrado
na igreja em condio mental precria por causa de seus
problemas e de sua fraqueza fsica, e que por todo o tempo que l
esteve ele sofreu um delrio febril, falando completamente alheio 
noo do lugar em que se achava. Era a impresso mais piedosa
que se tinha a respeito de seu ato. Havia um ponto de vista comum
tambm de que no houve qualquer amargura ou reprovao em
suas palavras. Do comeo ao fim, ele falou equilibrada e
suavemente, como se fosse um membro da congregao buscando
esclarecimento para um assunto muito difcil.
     Trs dias aps ser levado  casa do pastor, houve alguma
mudana em sua condio. O mdico comentou sobre isso, mas
no deu muita esperana. No sbado pela manh, seu estado era
estacionado, embora tivesse piorado rapidamente no final da
semana. Domingo de madrugada, pouco antes de o relgio marcar
uma hora, ele reagiu e perguntou pela filha, se ela tinha chegado.
Maxwell providenciara a vinda da menina depois de encontrar uma
carta no bolso do enfermo com o endereo onde ela estava. Desde
que tivera o desmaio, poucas foram as vezes em que ele recobrou a
conscincia e falou coerentemente.
     "A menina est vindo para c; deve chegar logo", respondeu
Maxwell ao sentar-se a seu lado, trazendo no rosto as marcas do
abatimento produzido por uma semana de viglia, uma vez que fez
questo de ficar velando todas as noites.
    "Nunca mais verei minha filha neste mundo", sussurrou o
homem, acrescentando com grande esforo: "O senhor foi muito
bom para mim. Sinto que  isto o que Jesus faria."
     Em poucos minutos virou ligeiramente a cabea, e antes que
Maxwell pudesse notar, o mdico disse em voz baixa: "Ele morreu."
A manh que raiou no domingo sobre Raymond foi igualzinha 
manh do domingo anterior. Henrique Maxwell subiu ao plpito e
deparou com uma das maiores audincias at ento reunidas na
Primeira Igreja. Ele estava abatido, parecendo ter sado de uma
longa enfermidade. Sua esposa estava em casa cuidando da
menina que tinha chegado no trem da manh uma hora depois
que seu pai falecera. O cadver estava naquele mesmo quarto. Sua
lutas haviam cessado e Maxwell podia ver-lhe o rosto, enquanto
manuseava a Bblia e colocava em ordem os diversos avisos a
serem dados do plpito, como tinha o hbito de fazer durante dez
anos.
     O servio de culto daquela manh trazia um elemento novo.
      Ningum se recordava de alguma vez que Henrique Maxwell
tenha pregado pela manh sem anotaes. Na realidade ele tinha
feito isso acidentalmente logo no incio de seu pastorado, mas
havia j muito tempo que ele escrevia cuidadosamente cada
palavra de seu sermo matutino, e muitas vezes fazia o mesmo
com o sermo da noite. O sermo desta manh no poderia ser
considerado um pea oratria admirvel, como de costume. Ele
falava com visvel hesitao. Percebia-se que alguma grande idia
se agitava em sua mente na tentativa de ser exposta, mas ela no
se expressava atravs do tema que tinha escolhido para pregar.
Perto do final do sermo ele reuniu as foras que lhe faltaram no
comeo.
     Fechou a Bblia e, deslocando-se para o lado do plpito,
olhou para seu auditrio e comeou a falar sobre a cena incomum
do ltimo domingo.
      "Nosso irmo", e as palavras soavam de um modo estranho,
"faleceu nesta manh. Ainda no tive tempo de conhecer toda a
sua histria. Ele tinha uma irm que vive em Chicago, Escrevi a
ela, mas ainda no tive resposta. Sua filhinha chegou e ficar
conosco por algum tempo."
      Fez uma pausa e encarou a congregao. Constatou nunca
ter visto tantas faces compenetradas durante todo o seu ministrio.
Ele no se sentia capaz de transmitir a seu pblico todas as suas
experincias, as crises ntimas que ainda o oprimiam. Mas algo de
seus sentimentos flua dele para eles, e parecia estar agindo sob
um impulso controlado e consciente para comunicar-lhes alguma
coisa da mensagem que guardava em seu corao.
     E, assim, continuou:
     "A aparncia e as palavras daquele estranho aqui nesta igreja,
no ltimo domingo, causaram em mim uma impresso muito forte.
No sou capaz de esconder de vocs ou de mim mesmo o fato de
que o que ele disse, seguido de sua morte em minha casa, tem-me
compelido a perguntar, como nunca fiz antes, 'o que significa
seguir a Jesus'. No estou em condies de atribuir qualquer culpa
a quem quer que seja nesta igreja ou de condenar seu
comportamento cristo, tanto em relao a esse homem como a
outras pessoas que vivem em idnticas condies neste mundo.
Entretanto, isto no me impede de concordar com as palavras
ditas aqui por aquele homem. Ele tocou numa verdade vital que
devemos encarar e  qual devemos tentar responder, ou ento
aceitar as acusaes e condenaes que nos foram dirigidas ou,
pior ainda, reconhecer que fracassamos como discpulos de Cristo.
O que nos foi dito no ltimo domingo  essencialmente um desafio
ao Cristianismo atualmente praticado em nossas igrejas. Tenho
sentido isto de modo crescente a cada dia que passa.
      "Creio que nunca houve nesta igreja um momento to
apropriado para lhes propor um plano, ou propsito, que se vem
formando em minha mente, como reao positiva a muito do que
foi dito no domingo anterior."
     Henrique Maxwell fez uma nova pausa e olhou fixamente o
pblico. Ali se encontravam homens e mulheres consagrados e de
peso na Primeira Igreja.
      Ele pde ver entre os presentes Eduardo Norman, diretor do
Dirio de Notcias. Ele tinha sido membro da Primeira Igreja por
dez anos. Ningum havia mais respeitado na comunidade do que
ele. L estavam tambm Alexandre Powers, gerente das grandes
oficinas da ferrovia de Raymond. um tpico ferrovirio que tinha
nascido naquela atividade. E tambm Donald Marsh, diretor do
Colgio Lincoln, localizado num subrbio de Raymond. Via Milton
Wright, um dos grandes homens de negcios da cidade, que
empregava em suas lojas no mnimo cem pessoas. Presente estava
tambm o Dr. West, que. embora relativamente moo, era uma
autoridade famosa em casos de cirurgia especial. Havia ainda o
jovem Jasper Chase, autor que tivera um grande sucesso com um
livro e dizia-se que estava preparando um novo romance. L estava
a senhorita Virgnia Page, uma herdeira a quem a morte do pai
havia deixado uma fortuna superior a um milho de dlares, e que
era possuidora tambm de atrativos pessoais e intelectuais. E, no
menos importante do que todos os outros, Raquel Winslow, cuja
beleza se destacava no coro e cujo rosto luminoso nessa manh
parecia ainda mais belo em razo de seu profundo interesse em
toda aquela cena.
     Havia alguma razo, certamente, diante desse patrimnio
superior de mentes e coraes da Primeira Igreja, para que o
Pastor Maxwell se animasse diante de quaisquer novas
empreitadas. O corpo de membros da igreja era efetivamente um
conjunto de fortes caracteres. Mas, ao observar seus rostos nessa
manh, ele se indagava a respeito da reao que teriam diante da
proposio que lhes ia apresentar. Quantos aprovariam e se
envolveriam?     Ele    prosseguiu     lentamente,     escolhendo
cuidadosamente as palavras, dando aos presentes uma impresso
jamais sentida, mesmo quando pregava num estilo fulgurante e
dramtico.
     "O que lhes vou propor neste momento  um plano que no
deve parecer incomum ou de realizao impossvel. Imagino, porm,
que muitos dos membros o considerem irrealizvel. Para que no
haja dvida sobre tal propsito, vou exp-lo da forma mais simples
e direta. Estou convocando pessoas da Primeira Igreja que
voluntariamente se disponham devotada e sinceramente, pelo
perodo de um ano, a no fazer qualquer coisa sem antes
perguntar: 'Que faria Jesus?" E depois de fazer esta pergunta, cada
um seguir a Jesus e proceder exatamente como Ele faria se
estivesse em lugar de cada um de ns, seja qual for o resultado
dessa atitude. Vou tambm associar-me a esse grupo de
voluntrios, certo de que a igreja no ficar surpresa diante de
minha conduta daqui para frente, baseada neste modelo de ao,
nem se opor ao nosso modo de ser e agir de acordo com a vontade
de Cristo. Ficou bem clara a idia? Ao encerrar-se o culto quero
que todas as pessoas desejosas de integrar nosso grupo
permaneam para conhecer os detalhes do plano. Nosso lema ser:
"Que faria Jesus?" Nosso objetivo ser fazer exatamente o que Ele
faria em nosso lugar, sejam quais forem as conseqncias. Em
outras palavras, estamos dispostos a seguir os passos de Jesus to
estritamente e to literalmente do modo como acreditamos que Ele
ensinou aos seus discpulos. E aqueles que se apresentarem
voluntariamente assumiro o compromisso de, durante um ano
inteiro, a partir de hoje, agir desta forma."
      Henrique Maxwell fez outra pausa e olhou firme para a
congregao. No  fcil relatar a sensao que uma proposta to
simples causou naquela gente. Os olhares se cruzavam denotando
surpresa e admirao. O ministro nunca lhes tinha falado dessa
maneira sobre o discipulado cristo. Havia uma evidente confuso
de pensamentos a respeito daquela situao nova. A proposta foi
perfeitamente compreendida, mas havia, aparentemente, grande
diferena de opinies sobre a aplicao do ensino e exemplo de
Jesus.
      O pastor encerrou calmamente o culto com uma breve orao.
O organista tocou o posldio logo aps a bno apostlica e o
povo comeou a levantar-se. Grupos se formaram em todos os
cantos e se puseram a discutir animadamente a proposta do
ministro. Depois de alguns minutos Maxwell pediu a todos os que
resolveram permanecer que se dirigissem  ampla biblioteca, ao
lado do salo de culto. Conversou com vrias pessoas  sada da
igreja e, quando finalmente voltou para o templo, este estava vazio.
Encaminhou-se ento  biblioteca. Ficou surpreso com o nmero
de pessoas que l encontrou. Ele nunca menosprezou a
capacidade de consagrao e responsabilidade de seu rebanho,
mas dificilmente esperava encontrar ali tantas pessoas dispostas a
engajar-se literalmente nesta prova de fidelidade crist. Havia
provavelmente umas cinqenta pessoas na biblioteca, entre elas
Raquel Winslow e Virgnia Page, o sr. Norman, o diretor Marsh,
Alexandre Powers, gerente das oficinas ferrovirias, Milton Wright,
o Dr. West e Jasper Chase.
     Fechou a porta da biblioteca e se colocou diante do grupo.
Seu rosto estava plido e seus lbios tremiam de tanta emoo.
Era uma verdadeira crise em sua vida e na vida de sua
congregao. Ningum sabe at que ponto pode ser conduzido pelo
Esprito divino quando decide mudar o rumo de sua vida -- seus
hbitos, suas convices, suas palavras e seus atos. Ele prprio,
como j foi dito, no sabia at ento tudo o que deveria passar,
mas estava consciente de que passaria por uma comoo no
conceito cristo do discipulado, possudo de um sentimento
profundo de consagrao que no podia medir naquele momento
diante daqueles rostos de homens e mulheres.
      Pareceu-lhe que a palavra mais apropriada a ser dita
inicialmente seria uma palavra de orao. Ento o pastor pediu
que todos orassem com ele. E s primeiras palavras pronunciadas
sentiu-se nitidamente a presena do Esprito naquele lugar. 
medida que a orao prosseguia, aquela presena aumentava em
poder. Todos o sentiram. O lugar e os coraes ficaram de tal modo
tomados pelo poder do Esprito, como se Ele fosse visvel. Quando
terminou a orao houve silncio por algum tempo. Todos tinham
as cabeas inclinadas, o rosto de Maxwell estava banhado de
lgrimas. Se alguma voz audvel descesse do cu naquele instante
para sancionar aquele voto de seguir os passos do Mestre, nenhum
dos presentes se sentiria mais seguro da bno divina que lhes foi
concedida. Iniciou-se assim o movimento mais solene jamais
realizado na Primeira Igreja de Raymond.
     "Todos compreendemos", disse ele, com voz muito calma, "o
que o que nos propusemos fazer. Temos o compromisso de fazer
toda e qualquer coisa em nossas vidas dirias depois de fazer a
pergunta:    'Que   faria   Jesus?'   e   seguir   seu   exemplo
independentemente do que vier a acontecer depois dessa deciso.
Daqui a alguns dias terei condies de contar a vocs a mudana
maravilhosa que aconteceu em minha vida, digamos em uma
semana. Neste momento no posso. Mas a experincia que vivi
desde domingo passado causou-me tal insatisfao com minha
interpretao anterior do que significa ser cristo que me senti
convocado a tomar esta posio. Resolvi no comear sozinho. Sei
que estou sendo guiado pela mo de Deus em tudo isto. E o
mesmo impulso divino deve conduzir vocs tambm.
     "'Ser que todos ns entendemos perfeitamente o que
estamos comeando a fazer?"
     "Quero fazer uma pergunta", disse Raquel Winslow. Todos se
voltaram para ela. Seu rosto tinha uma beleza fulgurante que
nenhum encanto fsico poderia jamais criar.
      "Tenho uma pequena dvida sobre o que exatamente Jesus
faria. Quem vai decidir precisamente o que Ele faria em minha
situao? Vivemos numa poca diferente. H numerosas questes
complexas em nossa vida diria que no esto mencionadas nos
ensinamentos de Cristo. Como eu poderia, em certas
circunstncias, agir como Ele?"
      "No existe outro caminho que eu conhea", respondeu o
pastor, "a no ser atravs do Esprito Santo. Vocs se lembram do
que Jesus disse a seus discpulos sobre o Esprito Santo: 'Quando
vier, porm, o Esprito da verdade, ele vos guiar a toda a verdade;
porque no falar por si mesmo, mas dir tudo o que tiver ouvido e
vos anunciar as coisas que ho de vir. Ele me glorifcar, porque
h de receber do que  meu e vo-lo h de anunciar. Tudo quanto o
Pai tem  meu; por isso  que vos disse que h de receber do que 
meu e vo-lo h de anunciar' (Jo 16.13-15). No tenho
conhecimento de outro meio de saber qual  a vontade de Cristo.
Teremos de decidir como agir como Ele indo a essa fonte de
conhecimento."
     "E se os outros nos disserem, quando fizermos certas coisas,
que Jesus no faria isso?", perguntou Alexandre Powers, gerente
das oficinas ferrovirias.
     "No podemos impedir que isso acontea. Devemos, isto sim,
ser absolutamente honestos conosco mesmos. O modelo cristo
no pode variar na maioria de nossos atos."
      "Ocorre s vezes que um membro da igreja pensa que Jesus
faria alguma coisa, e outro crente se recusa a aceitar tal coisa
como uma atitude que Cristo tomaria. Como uniformizar um
padro de conduta crist, de modo que fosse possvel chegar
sempre s mesmas concluses em todos os casos?" perguntou o
diretor Marsh.
      Maxwell ficou em silncio por um momento e em seguida
replicou: "No. Acredito que no devemos esperar por isso.
Entretanto, quando seguimos os passos de Jesus com toda
sinceridade e iluminados pelo Esprito, no posso acreditar que
haja qualquer confuso em nossas mentes ou no julgamento que
outros faam a nosso respeito. Devemos evitar o fanatismo, de um
lado, e ter muita cautela, de outro lado. Se o exemplo de Jesus 
aquele que o mundo deve imitar, certamente esse exemplo deve ser
praticvel. Mas precisamos nos lembrar deste grande fato: depois
de perguntarmos ao Esprito o que Jesus faria e recebermos a
resposta para isso, devemos agir positivamente, qualquer que seja
o resultado ou conseqncia que recaia sobre ns. Est bem
entendido?'"
     Todos os rostos na biblioteca se voltaram para o ministro
num solene gesto de aceitao. Sua proposta foi perfeitamente
compreendida. O rosto de Henrique Maxwell voltou a tremer
quando notou a presena do presidente da Sociedade do Esforo
Cristo acompanhado de vrios dos seus membros, sentados atrs
dos mais velhos.
      Permaneceram mais alguns minutos trocando idias sobre
detalhes e fazendo-se perguntas, tendo ficado marcada uma
reunio dominical regular para que cada um contasse suas
experincias ao colocar em prtica o plano de seguir a Jesus, como
ficou combinado. O Pastor Maxwell orou novamente. E novamente,
como antes, o Esprito Santo se manifestou. Todos inclinaram suas
cabeas por um longo tempo. Em seguida saram em silncio. A
emoo lhes impedia a fala. Maxwell apertava as mos de todos ao
se despedirem. Em seguida entrou em seu gabinete, atrs do
plpito e ajoelhou-se. Ficou ali sozinho cerca de meia hora.
Quando chegou a casa foi at o quarto onde jazia o corpo morto.
Ao olhar para aquele rosto clamou a Deus por fora e sabedoria.
Entretanto, no pde ento avaliar que se iniciara um movimento
que certamente levaria a uma srie de acontecimentos
extraordinrios que a cidade de Raymond jamais tinha visto.



M.A.R.C.A                             TRS
           "Aquele que diz que permanece nele, esse deve
          tambm andar assim como ele andou" (1 Jo 2.6).
      Eduardo Norman, diretor do Dirio de Notcias de Raymond,
estava sentado em seu escritrio na manh de segunda-feira e
enfrentava um novo mundo de atividades. Ele havia se
comprometido em boa f a fazer toda e qualquer coisa depois de
perguntar "Que faria Jesus?" e, como esperava, preparar-se para
todos os possveis resultados de sua deciso. Enquanto isso, ele
retomava a vida rotineira do Dirio de Notcias num ritmo
vertiginoso naquela nova semana, hesitando diante de sentimentos
muito prximos do medo.
      Chegou bem cedo ao jornal e, por alguns instantes, ficou
totalmente s. Em sua mesa de trabalho, entregue a suas
cogitaes, sentiu crescer dentro de si um desejo to forte quanto
raro. Havia ainda muito que aprender com todos os demais
daquele grupo de cristos voluntrios que o Esprito de vida se
manifestaria com poder em sua vida como nunca acontecera antes.
Levantou-se, fechou a porta e fez o que havia muitos anos no
fazia. Ajoelhou-se junto  mesa e orou invocando a presena e
sabedoria de Deus para ajud-lo.
     Ergueu-se e comeou sua rotina diria, mas agora com sua
promessa bem definida e clara em sua mente. "Muito bem, mos 
obra", parecia ele dizer. Entretanto, seria conduzido pelos
acontecimentos to rapidamente quanto eles surgissem.
     Abriu a porta de sua sala e comeou sua agenda de trabalho.
     O editor responsvel acabara de chegar e estava  mesa de
trabalho na sala vizinha. Um dos reprteres preparava alguma
matria em sua mquina de datilografia. Eduardo Norman
comeou a escrever um editorial. O Dirio de Notcias era um
jornal vespertino, e Norman redigia seu principal editorial
costumeiramente antes das nove horas.
     Tinha escrito durante uns quinze minutos quando o editor
informou:
     '"Aqui est a reportagem da luta de boxe de ontem no ginsio
Resort. Vai ocupar trs colunas e meia. Suponho que vamos
publicar na ntegra."
     Norman era daqueles jornalistas que costumam acompanhar
cada detalhe da edio. O editor responsvel sempre o consultava
sobre matrias de pequena ou grande importncia. Algumas vezes,
como no caso desse evento esportivo, era meramente uma
formalidade.
     "Sim... no! Deixe-me ver.'"
      Ele se deteve a analis-la exatamente como tinha vindo do
correspondente pelo telgrafo e leu at o fim com ateno. Colocou
as folhas sobre a mesa e se ps a pensar maduramente.
     "No vamos publicar isto hoje", disse finalmente.
      O editor responsvel estava em p junto  porta que divide as
duas salas. Ficou abismado com a deciso do chefe, pensando que
talvez tivesse entendido mal.
     "Perdo... o que o senhor disse?"'
     "Deixe esta matria fora. No vamos public-la."
     "Mas...'" O editor estava completamente atordoado. Olhava
para o diretor como se este tivesse enlouquecido.
     "Penso, Clark, que isto no deve ser publicado; vamos dar
este assunto por encerrado", disse Norman fixando os olhos no
editor.
     Dificilmente Clark questionava o chefe nesses assuntos.
Norman tinha sempre a ltima palavra, ponderada e
fundamentada,      raramente  revogando  sua    deciso.   As
circunstncias, porm, pareciam agora to extraordinrias que
Clark resolveu interpel-lo.
     "Isto significa que o jornal vai ser publicado sem uma palavra
sobre a luta de boxe?"
     "Sim,  o que eu desejo."
     "Mas isto nunca aconteceu. Todos os outros jornais vo
publicar a reportagem. Como reagiro nossos assinantes e leitores
avulsos? Isto  simplesmente..."
     Clark no pde continuar, ficando sem saber o que dizer
sobre aquele absurdo.
      Norman olhou para ele pensativamente. O editor responsvel
era membro de uma igreja de uma denominao diferente da de
Norman. Os dois nunca haviam conversado sobre questes
religiosas, apesar de estarem juntos no jornal por vrios anos.
     "Venha c um instante, Clark, e feche a porta", disse Norman.
     Clark aproximou-se e ambos, a ss, ficaram face a face.
Norman silenciou durante um minuto, e em seguida disse
repentinamente:
      "Clark, se Cristo fosse o editor de um jornal dirio, voc acha
honestamente que Ele publicaria trs colunas e meia de uma
notcia de pugilismo?"
     "No, penso que Ele no publicaria."
      "Bem, est  a minha nica razo para impedir que esta
notcia saia em nosso jornal. Tomei a deciso de nada fazer no
Dirio, durante um ano inteiro, que eu honestamente acredite que
Jesus no faria."
     Clark no ficaria mais alarmado se o chefe estivesse sofrendo
de uma doena mental. Alis, ele estava mesmo pensando que
alguma anormalidade tinha acontecido, embora, em seu
julgamento, Eduardo Norman seria a ltima pessoa no mundo a
perder a cabea.
     "Que efeito ter isto sobre o jornal?" perguntou finalmente
Clark numa voz desalentada.
     "Qual  sua opinio?" perguntou Norman com um olhar
indagador.
      "Acho que isto vai simplesmente arruinar o jornal", afirmou
Clark sem hesitao. Ele recomps suas idias confusas e passou
a objetar: "Ora, no  possvel atualmente publicar um jornal
baseado nisto. E um idealismo. O mundo no est preparado para
isso. O prejuzo ser irreparvel. To certo quanto o senhor est
vivo, se eliminarmos esta notcia sobre a luta vamos perder
centenas de assinantes. No  preciso ser profeta para perceber
isso. O melhor pblico da cidade est ansioso para ler esta
reportagem. Ele sabe que a luta se realizou, e quando receber o
jornal espera encontrar pelo menos meia pgina da notcia.
Certamente, o senhor no pode menosprezar os interesses do
pblico desta forma.  um grande erro que est sendo cometido,
em minha opinio."
    Norman nada disse por algum tempo. Depois falou com
calma porm resolutamente.
      "Clark, em sua opinio honesta, qual  a norma perfeita para
determinar nosso comportamento? No  verdade que o nico
padro de conduta para cada pessoa  a provvel atitude que
Jesus Cristo tomaria? Diria voc que a melhor, a mais alta lei para
nossa vida consiste em fazer a pergunta 'Que faria Jesus?' E isto
sem temer as conseqncias? Em outras palavras, voc acredita
que os homens em toda parte devem seguir o exemplo de Jesus to
estritamente como puderem em suas vidas dirias?" O rosto de
Clark ficou vermelho, e ele se mexeu na cadeira desajeitadamente
antes de responder  pergunta do diretor.
     "Bem, acho que sim, supondo que o senhor tome por base o
que os homens devem fazer, no h outro modelo melhor de
conduta. Mas a questo  saber o que  vivel? Isto vai pagar as
despesas do jornal? Para ser vitorioso neste negcio  preciso
adaptar-se aos costumes e mtodos aceitos pela sociedade. No
podemos agir como se estivssemos num mundo ideal."
      "Voc quer dizer que no podemos publicar o jornal
estritamente de acordo com os princpios cristos e fazer dele um
sucesso?"
      "Sim,  exatamente isto que estou querendo dizer. Seu plano
 invivel. Em trinta dias o jornal pra de circular."
    Norman no respondeu imediatamente. Ele ficou bastante
pensativo.
     "Vamos ter de falar sobre isto em outras ocasies, Clark. Por
enquanto, devemos nos entender francamente. Assumi o
compromisso, por um ano, de fazer tudo o que se refira ao jornal
somente depois de responder  pergunta 'Que faria Jesus?' to
honestamente quanto possvel. Vou continuar nesta linha,
acreditando no somente que seremos bem-sucedidos, mas que
poderemos alcanar xito maior do que j conseguimos."
     Clark levantou-se. "Ento a reportagem no vai entrar?"
     "No. H muitas matrias boas para ocupar seu espao, e
voc sabe quais so."
     Clark ficou hesitante. "O senhor pretende dizer alguma coisa
sobre a ausncia da reportagem?"
      "No, deixe que o jornal v ao prelo como se no tivesse
existido essa luta de boxe ontem."
     Clark saiu da sala do diretor em direo  sua escrivaninha
sentindo-se como se lhe faltasse o cho sob os ps. Estava
surpreso, aturdido, excitado e muito irritado. Seu grande respeito
por Norman era desafiado por sua crescente indignao e desgosto,
mas sentia-se principalmente afetado pela dvida da mudana de
orientao acontecida repentinamente e que contrariava a linha de
conduta profissional que o atrara ao Dirio de Notcias e que
agora estava ameaado de ser destrudo, como ele previa
      Antes do meio-dia cada reprter, impressor e empregado do
Dirio de Notcias estava inteirado do fato absurdo: o jornal ia ser
impresso sem uma palavra sequer sobre a famosa luta de domingo.
Os reprteres ficaram simplesmente abismados quando ouviram a
histria. Cada empregado da oficina de composio e montagem
das pginas tinha alguma coisa a dizer sobre a omisso nunca
vista. Duas ou trs vezes durante o dia, quando o senhor Norman
teve ocasio de vistoriar as oficinas de composio e montagem, os
homens paravam o trabalho e olhavam de esguelha para ele com
curiosidade. Ele sabia que estava sendo observado, porm se
manteve calado e alheio aos olhares desconfiados.
     Vrias mudanas menores foram introduzidas no jornal por
sugesto do diretor, mas nenhuma delas relevante. Norman estava
esperando e pensando profundamente a este respeito.
     O diretor sentia que precisava de tempo e bastante
oportunidade para impor seu melhor julgamento em vrios
aspectos antes de responder de forma correta  pergunta-guia
sempre presente em sua mente. Havia muitas coisas a serem
mudadas no jornal, que ele considerava contrrias  vontade de
Cristo, mas ele no agiu imediatamente porque estava
honestamente em dvida com respeito  forma como Jesus faria
em seu lugar.
     Quando o Dirio de Notcias foi distribudo naquela tarde, foi
notria a decepo de seus assinantes e compradores.
     Se a notcia sobre a luta de boxe tivesse sido publicada no
causaria o mesmo efeito de sua omisso. Centenas de homens em
hotis e no centro comercial da cidade, alm dos assinantes
regulares, abriram ansiosos o jornal procurando em todo ele a
reportagem da luta; no a encontrando, foram apressadamente s
bancas de jornais e compraram outros jornais. At mesmo os
jornaleiros no tinham percebido a falta da notcia. Um deles
proclamava: "Olha o Dirio de Notcias! Reportagem completa da
luta de boxe em Resort! Vai jornal, senhor?"
      Um cavalheiro parado na esquina de uma avenida perto das
instalaes do Dirio de Notcias comprou o jornal, passou os
olhos na primeira pgina rapidamente e zangado chamou de volta
o jornaleiro.
     "Volte aqui. rapaz, o que h com o seu jornal? No estou
vendo nenhuma notcia da luta aqui! Como voc pode vender
jornais velhos?"
     "No vendo nenhum jornal velho!", respondeu o rapaz
indignado. "Este jornal  de hoje. O senhor est vendo a data?"
     "Mas aqui no aparece nenhuma reportagem da luta. Veja!"
      O cavalheiro devolveu o jornal ao jornaleiro e este olhou para
ele rapidamente. O garoto comeou ento a assobiar um tanto sem
jeito e cabisbaixo. Vendo outro menino oferecendo seus jornais, ele
o chamou: "Sam, quero ver sua pilha de jornais." Uma verificao
feita s pressas revelou o fato estranho: nenhum dos exemplares
do Dirio de Notcias trazia, a notcia da luta.
     "Venha aqui, me d outro jornal!" gritou o comprador; "um
que tenha a reportagem da luta."
     Pegou e foi andando, enquanto os dois garotos ficaram
comentando o que estaria acontecendo. "Sam, h alguma coisa
errada com o Dirio de Notcias", disse o primeiro menino. Mas,
como no sabia o que havia de errado, correu em direo ao jornal
para saber o que estava se passando.
      Havia vrios outros jornaleiros na seo de expedio, todos
muito excitados e desgostosos. Os protestos contra o encarregado
da seo  frente do comprido balco, usando linguagem de baixo
nvel, levariam qualquer um ao desespero.
     O encarregado da distribuio estava mais ou menos
acostumado com essas presses diariamente. O senhor Norman
estava descendo as escadas a caminho de sua casa e parou na
porta da expedio, olhando para dentro.
     "O que est havendo aqui, George?" perguntou ao funcionrio
ao notar a confuso e o vozerio.
      "Os rapazes esto dizendo que no podem vender nenhum
exemplar do Dirio de Notcias hoje, porque ele no traz a notcia
da luta de boxe, respondeu George, olhando curiosamente para o
diretor como os outros funcionrios j tinham feito durante o dia.
O senhor Norman hesitou por instantes, e em seguida entrou na
seo e confrontou os rapazes.
     "Quantos jornais vocs tm aqui? Rapazes, podem cont-los
que eu comprarei todos hoje."
    Houve uma troca de olhares espantados entre os garotos que
comearam a contar os jornais rapidamente.
     "D a eles o dinheiro, George, e se outros jornaleiros vierem
com a mesma reclamao, compre todos os exemplares. Est bem
assim?" perguntou ele aos jornaleiros que ficaram entre surpresos
e contentes com o ato nunca visto da parte do diretor.
     "Se est bem? Est timo! Mas o senhor vai fazer sempre
assim?"
     Norman sorriu levemente, mas preferiu no responder 
pergunta.
     Deixou o jornal e foi para casa. Caminhando, no pde evitar
a constante indagao: "Jesus teria feito isto?" No era tanto por
causa da sua ltima ao, e sim pela soma de motivos que o
levaram a esta posio desde que assumiu aquele compromisso.
      Os jornaleiros eram inevitavelmente prejudicados pela medida
que ele tomou. Por que razo teriam eles de perder dinheiro com
isso? Eles no deveriam ser censurados. Ele era um homem rico e
poderia colocar um pouco de alegria em suas vidas, se o quisesse.
Em sua caminhada at a casa. ele acreditava que Jesus teria feito
exatamente o que ele fez ou alguma coisa parecida, a fim de sentir-
se livre de qualquer sentimento de injustia.
     Ele no estava decidindo essas questes por qualquer outra
razo que no fosse a sua prpria conduta. No estava em
condies de dogmatizar e sentia que poderia somente responder
com seu prprio julgamento e conscincia  interpretao da
provvel atitude de seu Mestre. A queda da venda do jornal estava
de certo modo prevista. Contudo, ele estava ainda longe de avaliar
toda a extenso dos prejuzos do jornal, se mantivesse sua deciso.
                               QUATRO
     Durante a semana, Eduardo Norman recebeu numerosas
cartas comentando a ausncia no Dirio de Notcias da reportagem
sobre a luta de boxe. Vale a pena transcrever algumas delas.


     Sr. Diretor do "Dirio"
     Prezado Senhor:
      Vinha pensando, h algum tempo, em mudar de jornal.
Prefiro um jornal bem atualizado, progressista e empreendedor,
que atenda aos interesses do pblico em todos os aspectos. A
recente "mancada" de seu jornal recusando-se a publicar a
reportagem da luta em Resort levou-me a tomar a deciso de
finalmente mudar de jornal. Queira cancelar minha assinatura.


     (A carta era assinada por um homem de negcios que tinha
sido assinante por muitos anos.)


     Sr. Eduardo Norman
     Diretor do "Dirio de Notcias", Raymond
     Meu caro Norman:


     Que sensao foi essa que voc causou ao povo dessa cidade?
Que poltica nova voc est tentando introduzir? Espero que no
queira tentar uma "reforma comercial" atravs da imprensa. 
perigoso aventurar-se muito nesta direo. Aceite meu conselho e
procure acompanhar os mtodos modernos e empreendedores que
j tm utilizado com tanto sucesso no "Dirio". O povo quer lutas
de boxe e coisas parecidas. D-lhe o que ele quer e deixe que
outros cuidem do negcio de reforma.


      (O nome que assinava era o de um velho amigo de Norman,
diretor de um dirio numa cidade prxima.)
     Meu caro Norman:
     Apresso-me a escrever-lhe expressando minha apreciao
pelo evidente cumprimento de sua promessa.  um belo comeo e
ningum reconhece o seu valor mais do que eu. Sei quanto isso
pode custar a voc. mas no custar tudo. Seu pastor,
     Henrique Maxwell


     Uma das cartas que ele abriu logo depois de ler a de Maxwell
mostrou-lhe uma parte da perda que possivelmente afetaria seu
negcio.


     Sr. Eduardo Norman
     Diretor do "Dirio de Notcias"
     Prezado Senhor:
      Com o trmino do prazo de publicao de meu anncio,
queira, por gentileza, interromper as inseres que vinham sendo
publicadas. Estou juntando um cheque para pagamento total,
considerando minha conta com seu jornal encerrada a partir desta
data.


     (A assinatura era de um dos maiores negociantes de fumo da
cidade. Ele costumava publicar uma coluna de propaganda, pela
qual pagava grande soma.)


     Norman colocou esta carta sobre a mesa pensativamente e,
aps algum tempo, pegou um exemplar do jornal e percorreu com
os olhos as colunas de anncios. No houve, da parte do
anunciante de fumo, nenhuma referncia implcita em sua carta 
omisso da luta de boxe no noticirio do jornal, mas ele no pde
deixar de associar uma coisa  outra. Soube, porm, mais tarde
que o negociante havia suprimido a propaganda porque tinha
ouvido dizer que o diretor do Dirio de Notcias iria iniciar uma
reforma radical no jornal, que certamente diminuiria seu rol de
assinantes.
     Entretanto, a carta desse anunciante chamou a ateno de
Norman sobre a fase atual da propaganda em seu jornal. Ele no
havia considerado isso antes.
     Examinando as colunas de anncios, ele no pde evitar a
convico de que seu Mestre no poderia permitir alguns deles em
seu jornal.
      Que faria Jesus, por exemplo, diante daquele enorme anncio
de bebidas e charutos? Como membro de uma igreja e cidado
respeitvel, ele no tinha sofrido nenhuma censura por causa dos
anncios de bares em suas colunas. As pessoas viam isso com
naturalidade. Todos eram negcios legtimos. Por que no?
Raymond era uma cidade que gozava de certa liberdade, e os bares,
bilhares e cervejarias compunham o ambiente na civilizao crist.
Ele estava fazendo simplesmente o que todos os homens de
negcios de Raymond faziam. E, alm disso, era uma das melhores
fontes de renda. O que aconteceria ao jornal se todos esses
anncios fossem eliminados? Poderia ele sobreviver? Esta era a
questo. Mas, e quanto  questo bsica, afinal de contas? "Que
faria Jesus?" Esta era a pergunta que ele estava respondendo, ou
tentando responder esta semana. Jesus anunciaria usque e
cigarro em seu jornal?
     Eduardo Norman fez a pergunta honestamente, e aps uma
orao pedindo ajuda e sabedoria pediu a presena de Clark em
seu escritrio.
    Clark foi, sentindo que o jornal estava em crise, e preparado
para o que desse e viesse, desde aquela dura experincia da
manh de segunda-feira. Agora estavam na tera-feira.
      "Clark", disse Norman, falando lenta e cuidadosamente,
"tenho olhado nossas colunas de anncios comerciais e decidi
dispensar alguns, to logo terminem os respectivos contratos.
Queira, por favor, avisar os agentes de publicidade para no
pleitearem a renovao daqueles que esto assinalados.
     Ele entregou o jornal com os lugares assinalados para Clark,
que o recebeu e passou os olhos pelas colunas com o semblante
muito carregado.
     "Isto vai representar uma grande perda para o Dirio de
Notcias. At quando o senhor acha que pode continuar desta
maneira?" Clark estava desnorteado pela atitude do diretor e no
conseguia entender tudo aquilo.
     "Clark, voc acha que se Jesus fosse o diretor e proprietrio
de um jornal dirio em Raymond Ele permitiria que fossem
estampados nele anncios de usque e cigarro?"
    "Bem, no, suponho que Ele no publicaria. Mas, o que isso
tem a ver conosco? No podemos agir como Ele. Os jornais no
podem guiar-se por esse padro."
     "Por que no?" perguntou Norman calmamente.
     "Por que no? Porque perdero mais dinheiro do que podem
receber, esta  a verdade!" Clark falava com uma irritao que
realmente estava sentindo. "Vamos com certeza levar o jornal 
falncia com este tipo de poltica comercial."
    "Voc pensa assim?" perguntou Norman, fazendo a pergunta
sem esperar por resposta, mas como se estivesse falando consigo
mesmo. Depois de uma pausa disse ele:
     "Queira orientar Marcos a fazer como acabei de dizer. Creio
que isto  o que Cristo faria, e, como j lhe informei, Clark, foi isto
que eu prometi tentar fazer por um ano, sem levar em conta as
conseqncias. No posso acreditar que, por uma espcie qualquer
de raciocnio, pudssemos chegar a uma concluso que justificasse
a aprovao de nosso Senhor  propaganda num jornal, em nossa
poca, de usque e cigarro. H ainda alguns outros anncios de
natureza duvidosa que estou examinando. Enquanto isso, sinto
convico quanto a esses que marquei, com os quais no podemos
concordar."
      Clark retornou a sua mesa tendo a sensao de que tinha
estado em presena de uma pessoa muito estranha. No estava
conseguindo entender tudo o que se passava. Estava nervoso e
alarmado. Estava certo de que tal orientao iria arruinar o jornal
logo que se tornasse pblico que o diretor estava tentando fazer
todas as coisas apoiado num padro moral to absurdo. O que
sucederia a um negcio qualquer se este modelo fosse adotado?
Isso iria provocar uma reviravolta nos costumes e criar uma
confuso interminvel. Era realmente uma loucura, uma idiotice
completa. Era assim que Clark pensava, e quando Marcos foi
inteirado do plano de ao, foi solidrio com o editor responsvel
usando expresses enrgicas, como: "O que est havendo com o
chefe? Ficou louco? Est querendo levar todo o negcio 
bancarrota?"
     Entretanto, Norman ainda no tinha enfrentado o problema
mais srio. Quando chegou ao jornal na manh de sexta-feira, teve
de tratar do programa habitual da edio matutina de domingo. O
Dirio de Notcias era um dos poucos jornais vespertinos em
Raymond a editar um nmero especial aos domingos, e por isso
alcanara um xito financeiro considervel. Nessa edio de
domingo havia uma pgina dedicada  leitura e assuntos religiosos
e mais umas trinta ou quarenta pginas de esporte, cinema,
mexericos, moda, sociedade e poltica. Com toda essa variedade de
temas, e pelo tempo ocioso que as famlias desfrutavam aos
domingos, o jornal eram muito bem acolhido por todos os
assinantes, membros da igreja e outros que tiravam o dia para
descansar. Era uma necessidade nos domingos pela manh.
     Eduardo Norman estava agora diante deste fato e punha
diante de si mesmo a pergunta: "Que faria Jesus?" Se Ele fosse o
editor de um jornal, planejaria deliberadamente colocar nos lares
de todos os membros da igreja e dos cristos de Raymond tal
variedade de leitura justamente no dia da semana que deveria ser
dedicado a alguma coisa mais elevada, mais santa? Ele conhecia
bem os argumentos habituais a favor do jornal dominical, a saber,
que o pblico tinha necessidade de alguma coisa do gnero e que
os operrios, especialmente os que de qualquer modo nunca
apareciam na igreja, deveriam ter algum tipo de distrao e
instruo no domingo, nico dia de lazer de que dispunham na
semana. Mas, admitindo que a edio de domingo no desse lucro?
Imaginando que fosse deficitria? At onde o editor ou proprietrio
estaria interessado em satisfazer essa necessidade crtica dos
pobres operrios? Eduardo Norman pensou sincera e
demoradamente na questo.
      Levando tudo isto em conta, a pergunta natural seria esta:
Jesus editaria um jornal aos domingos de manh? No se estava
pensando no problema econmico. A questo no era esta. Na
realidade, o Dirio de Notcias de domingo era to rentvel que sua
suspenso significaria uma perda de milhares de dlares. Afora
isso, os assinantes adquiriram o direito de receber sete jornais por
semana. Teria o jornal o direito de oferecer a eles menos do que
lhes fora proposto e pelo que pagaram antecipadamente ?
      Ele estava realmente atordoado por esse dilema. Eram de tal
monta os problemas envolvidos na suspenso da edio dominical
que pela primeira vez Norman quase chegou a rejeitar a orientao
de seguir a provvel ao a tomar pelo padro de Jesus. Era o
nico proprietrio do jornal, poderia dar-lhe a forma que quisesse.
No tinha nenhum conselho diretor para consultar sobre a poltica
a ser adotada. Cercado do volume habitual de matria para a
edio de domingo, ele j havia definido alguns pontos, entre os
quais de chamar os empregados e expor-lhes francamente seus
motivos e propsitos. Pediu a presena de Clark e de outros
auxiliares do escritrio, incluindo alguns reprteres que se
encontravam no prdio e os chefes de turmas da composio
(ainda era cedo e nem todos haviam chegado) para se reunirem na
seo de expedio. Era um lugar bem espaoso, e os empregados
foram chegando um tanto curiosos e se acomodando sentados nas
mesas e balces. Era uma situao incomum, mas estavam todos
cientes de que o jornal estava seguindo uma nova orientao, por
isso olhavam atentamente para Norman enquanto ele falava.
     "Chamei-os para inform-los dos meus novos planos para o
Dirio de Notcias. Estou propondo certas mudanas que julgo
necessrias. Entendo que algumas providncias que tomei foram
consideradas muito estranhas. Mas desejo esclarecer os motivos
que me levaram a essas decises."
      Exps ento aos presentes o que j havia dito a Clark e, como
este, eles o olhavam muito assustados.
    "Agora, de acordo com este propsito de conduta, cheguei a
uma concluso que, certamente, causar surpresa a todos.
      Tomei a deciso de suspender a edio dominical do Dirio.
No prximo nmero, que ser o ltimo, apresentarei minhas
razes para essa interrupo. E a fim de que os leitores no fiquem
prejudicados e continuem a receber o mesmo volume de matria a
que tm direito, poderemos oferecer-lhes uma edio dupla aos
sbados, como fazem vrios jornais vespertinos que no saem aos
domingos. Estou convencido de que, do ponto de vista cristo, o
jornal de domingo causa mais males do que benefcios aos leitores.
No creio que Jesus seria favorvel a um jornal aos domingos, se
estivesse em meu lugar hoje. Vamos ter alguns problemas para
ajustar com os anunciantes e assinantes em conseqncia desta
mudana. Mas este  um assunto que vou tratar pessoalmente. A
mudana ser, portanto, implantada. At onde posso enxergar, as
perdas que houver sero suportadas por mim. Nem reprteres nem
os demais empregados vo precisar fazer qualquer alterao em
seus planos."
     Norman olhou para todos os presentes e ningum se
manifestou. Pela primeira vez nos anos de atividade do jornal, ele
havia reunido todo o seu pessoal desta maneira. Isto o deixou
pensativo e surpreso. Jesus faria o mesmo? Dirigiria Ele um jornal
como se fossem todos uma s famlia, em que expusessem suas
idias, discutissem, planejassem para realizar o melhor ideal que
abraaram?
      Ele se afastou por momentos da realidade dos sindicatos de
tipgrafos e das associaes de empregados de escritrio e da
organizao dos reprteres e de todos aqueles mtodos comerciais
frios que fazem bem-sucedidos os grandes dirios. Porm a vaga
imagem que lhe veio da seo da expedio ainda estava presente
em sua mente ao retornar ao seu escritrio e enquanto os homens
voltavam para os seus lugares com surpresa em seus olhos e
perguntas de todos os tipos em suas lnguas ao conversarem sobre
a extraordinria medida do diretor.
     Clark entrou na sala de Norman e teve com ele uma conversa
longa e sria. Ele estava completamente transtornado, e seu
protesto o levou a ponto de quase se demitir. Norman conservou
uma postura cautelosa. Cada minuto da entrevista era doloroso
para ele, no obstante sentir mais do que nunca a necessidade de
se conduzir como cristo. Clark era um homem de muito valor.
Seria difcil encontrar algum para o seu lugar. No podia ele,
entretanto, apresentar qualquer justificativa a favor do
prosseguimento da edio de domingo que pudesse responder 
pergunta "Que faria Jesus?" se Ele fosse imprimir essa edio.
     "Chegamos a tal ponto", disse Clark com franqueza, "que o
senhor destruir o jornal em trinta dias. Podemos com certeza
encarar essa realidade."
     "No penso dessa forma. Voc continuar no Dirio at ele
fechar?" perguntou Norman com um sorriso estranho.
     "Senhor Norman, no o estou compreendendo. O senhor
deixou de ser nesta semana o homem que sempre conheci."
     "Nem eu tampouco me reconheo, Clark. H uma fora
superior que se apoderou de mim e est me impulsionando.
Entretanto, nunca estive to seguro do sucesso final e do poder do
jornal. Voc no me respondeu: ficar comigo?"
     Clark esteve hesitante por uns momentos, mas finalmente
respondeu: "Sim." Eles apertaram as mos e Norman voltou  sua
mesa. Clark voltou para sua sala, sacudido por um turbilho de
emoes conflitantes. Ele no tinha lembrana de ter vivido uma
semana to agitada e preocupante. Tinha o sentimento de estar
ligado a uma firma que poderia a qualquer momento sofrer um
colapso financeiro, arruinando sua vida e a de muitos outros.



                            CINCO
      Uma nova manh de domingo raiou sobre Raymond e a igreja
de Henrique Maxwell estava outra vez repleta de fiis. Antes de
comear o culto Eduardo Norman foi o grande alvo da ateno dos
presentes. Ele se dirigiu calmamente ao seu lugar costumeiro, a
trs bancos diante do plpito. A edio do Dirio de Notcias
daquele domingo contendo a notcia da descontinuidade das
futuras edies dominicais foi redigida numa linguagem to
elevada que impressionou os leitores. Nunca antes uma sucesso
de fatos novos havia alterado o ritmo da vida pacata de Raymond.
Os eventos relacionados ao Dirio de Notcias no foram os nicos.
O pblico tambm comentava com excitao as coisas feitas
durante a semana por Alexandre Powers nas oficinas da estrada de
ferro e por Milton Wright em seus estabelecimentos na avenida. O
culto transcorria sob um clima excitante que se fazia sentir em
toda a audincia. Maxwell passeou os olhos por toda a
congregao calmamente, denotando uma fora e um propsito
incomuns. Suas oraes foram muito inspiradoras, mas o sermo
no foi to fcil de descrever. Como um ministro seria capaz de
pregar ao seu pblico ao apresentar-se a ele depois de uma
semana de angustiantes perguntas: "Como pregaria Jesus? Quais
seriam provavelmente suas palavras?" Na verdade, ele no pregou
como nos domingos anteriores. Na ltima tera-feira ele estava ao
lado da sepultura do estranho dizendo as palavras: "Todos
procedem do p, e ao p tornaro", e ainda sob a forte impresso,
revolvendo sua mente na nsia de encontrar a mensagem de Cristo
para seus congregados no domingo.
     Agora, chegado o domingo, ali estava seu pblico para ouvi-lo.
O que o Mestre lhes diria? Ele lutara agonicamente em sua
preparao, sabendo-se incapaz de transmitir uma mensagem que
fosse o reflexo da mensagem de Cristo quando estivesse novamente
em seu plpito. No entanto, ningum na Primeira Igreja se
lembrava de ter ouvido antes um sermo como aquele. Ele se
insurgiu contra o pecado, especialmente a hipocrisia, e havia uma
clara advertncia contra a ambio da riqueza, a ostentao da
moda, coisas que a Primeira Igreja nunca ouvira antes desta forma;
e sobretudo, ao mesmo tempo, havia o amor por seu rebanho que
renovava suas foras  medida que o sermo prosseguia.
Terminada sua prdica, muitos dos presentes pareciam dizer em
seus coraes: "O Esprito inspirou este sermo." E estavam certos
quanto a isso.
      Ento Raquel Winslow levantou-se para cantar, desta vez
depois do sermo, a pedido de Maxwell. O cntico de Raquel no
provocou o mesmo excitamento desta vez. Que sentimento mais
profundo penetrou nos coraes dos presentes, levando-os a um
silncio reverente e  ternura de pensamentos? Raquel estava linda.
Mas agora sua beleza j no se sobrepunha ao contedo da
mensagem musical. Havia ainda certamente poder em seu canto
inspirado, mas prevalecia um sentimento geral de humildade e
pureza que os presentes sentiam profundamente, subjugados pelo
poder do Esprito.
      Antes do encerramento do culto Maxwell convidou aqueles
que tinham ficado na semana passada a permaneceram mais uma
vez por alguns momentos, dirigindo-se  biblioteca, e estendeu seu
apelo aos que desejassem assumir o compromisso. Encerrados os
cumprimentos aos crentes que deixavam o templo, Maxwell foi
imediatamente  biblioteca. Para sua surpresa, ela estava
inteiramente tomada. Desta vez um expressivo nmero de jovens
tinha vindo, incluindo alguns homens de negcios e oficiais da
igreja.
     Como havia feito antes, Maxwell pediu a todos que orassem
com ele. E, como antes, uma sensvel manifestao do Esprito
Santo desceu sobre os presentes. No havia qualquer dvida nas
mentes de quaisquer deles de que o que se propuseram fazer
estava claramente em sintonia com a vontade divina, e uma
bno repousava sobre eles de um modo muito especial.
      Permaneceram ali algum tempo para fazer perguntas e trocar
impresses e experincias. Havia entre eles um sentimento
fraternal jamais visto antes como membros da igreja. As decises
de Eduardo Norman tinham sido compreendidas por todos e ele
respondeu a vrias perguntas.
     "Qual ser a provvel conseqncia da interrupo do jornal
no domingo?" perguntou Alexandre Powers, que estava sentado a
seu lado.
     "Ainda no sei. Pressinto que vai haver uma queda nas
assinaturas e nos anncios. Eu j previa isso."
     "O senhor tem alguma dvida em relao s medidas
tomadas? Quero dizer, arrepende-se de alguma coisa, ou receia
que no seja isso que Jesus faria?" perguntou Maxwell.
     "Nenhuma dvida. Mas gostaria de perguntar, para minha
prpria satisfao: algum dos presentes aqui acha que Jesus
publicaria um jornal aos domingos?"
     Ningum respondeu imediatamente. Ento Jasper Chase
disse: "Parece que pensamos de modo semelhante a este respeito,
mas fiquei vrias vezes confuso durante a semana tentando
exatamente saber o que Ele faria. Nem sempre isto  fcil de
compreender."
       "Senti a mesma dificuldade", disse Virgnia Page. Ela estava
sentada ao lado de Raquel Winslow. Todos os que conheciam
Virgnia Page estavam curiosos em saber como ela conseguiria
cumprir sua promessa. "Penso que talvez seja particularmente
difcil responder a essa pergunta por causa de meu dinheiro. Nosso
Senhor nunca possuiu qualquer propriedade, e no existe nada em
seus exemplos que me orientem no uso do que tenho. Estou
pensando e orando. Vejo claramente como Ele faria em parte, mas
no tudo. O que Ele faria com um milho de dlares? Isto 
realmente o que desejo saber. Confesso que ainda no tenho uma
soluo que me satisfaa."
     "Posso dizer a voc o que poderia ser feito com uma parte do
que possui", disse Raquel, voltando-se para Virgnia.
      "Isto no me preocupa", respondeu Virgnia com um leve
sorriso. "O que estou tentando  descobrir um princpio que me
possibilite chegar o mais perto possvel da forma como Ele agiria, a
fim de que esse princpio influenciasse todo o ritmo da minha vida,
incluindo a riqueza e o uso que devo fazer dela."
     "Isto levar tempo", disse o ministro lentamente. Todos os
presentes estavam pensando profundamente no mesmo sentido.
Milton Wright falou alguma coisa de sua experincia. Ele estava
gradualmente desenvolvendo um plano de relaes comerciais com
seus empregados, o que estava abrindo para eles e para ele novas
perspectivas. Alguns dos jovens relataram suas tentativas de
responder  pergunta. Havia quase um consenso geral sobre o fato
de que a aplicao do esprito de Cristo e a prtica de seu ensino
na vida diria era um assunto srio. Isso requeria um
conhecimento sobre Jesus e suas razes, o que a maioria ainda
no possua.
      Quando finalmente encerraram o encontro aps uma orao
silenciosa que marcou, mais uma vez, a crescente manifestao da
presena divina, foram para suas casas conversando animada e
ardorosamente sobre suas dificuldades e buscando iluminao uns
com os outros.
      Raquel Winslow e Virgnia Page saram juntas. Eduardo
Norman e Milton Wright se envolveram numa conversa to
interessante que foram alm da casa de Norman e tiveram de
voltar. Jasper Chase e o presidente da Sociedade do Esforo
Cristo ficaram em p, num canto da sala, conversando
entusiasticamente. Alexandre Powers e Henrique Maxwell
resolveram ficar mais tempo, depois que todos haviam sado.
     "Gostaria que o senhor fosse amanh s oficinas para
conhecer meus planos e falar aos operrios", disse Powers. "Sinto
que pode aproximar-se deles melhor do que qualquer outra pessoa
neste momento."
      "No estou certo disso, mas estarei l", replicou Maxwell com
uma certa hesitao. Como ele poderia enfrentar duzentos ou
trezentos trabalhadores e entregar-lhes uma mensagem? Num
momento de fraqueza, enquanto fazia a si mesmo esta pergunta,
ficou desapontado por sua indeciso e fez a pergunta correta: "Que
faria Jesus?" Isto punha fim a qualquer dvida.
      Ele foi at l no dia seguinte e encontrou Powers em seu
escritrio. Faltavam poucos minutos para meio-dia e o gerente
disse: "Vamos subir, vou mostrar-lhe o que venho tentando fazer."
     Passaram pela casa das mquinas, subiram um longo lance
de escadas e entraram numa grande sala vazia, que antigamente
tinha sido utilizada pela companhia como armazm.
     "Desde que assumi aquele compromisso h uma semana
tenho "pensado em muitas coisas", disse o gerente, "e entre elas
inclu esta: a companhia me autoriza a usar este espao, que vou
mobiliar com mesas e um balco para caf naquele canto onde
esto os canos de vapor. Minha idia  dispor de um bom lugar
onde os homens possam almoar ao meio-dia, oferecendo a eles a
oportunidade, duas ou trs vezes por semana, de ouvir uma
palestra de quinze minutos sobre algum assunto que seja de real
ajuda para suas vidas.
     Maxwell ficou surpreso e perguntou se os operrios viriam
para esta finalidade.
      "Sim, eles viro. Afinal de contas, eu os conheo muito bem.
Eles esto entre os operrios mais inteligentes do pas atualmente.
Entretanto, esto afastados completamente de qualquer influncia
religiosa. Perguntei 'Que faria Jesus?' e, entre outras coisas,
pareceu-me que Ele comearia a agir de algum modo para
acrescentar s vidas desses homens mais conforto material e
espiritual. Este salo e o que ele representa  uma coisa muito
pequena, mas decidi, no primeiro impulso, fazer a coisa que me
pareceu de bom senso, e quero levar adiante esta idia. Desejo que
o senhor fale aos homens quando eles subirem ao meio-dia. Pedi
que eles viessem ver o lugar e falarei com eles a respeito do que
estamos conversando neste momento."
     Maxwell estava com vergonha de dizer o quanto ele se sentiria
desconfortvel ao ser solicitado a falar umas poucas palavras a um
grupo de operrios. Como poderia ele falar sem anotaes, e
especialmente para aquele grupo de homens? Sentia-se totalmente
deslocado e receoso daquela perspectiva. Estava realmente com
medo de enfrentar aqueles operrios. Estava um tanto indeciso e
inseguro diante dessa perspectiva, que lhe parecia uma verdadeira
provao a de confrontar tal multido, to diferente de suas
audincias dominicais que lhe eram familiares e bem comportadas.
      Havia no local uma dzia de mesas e bancos toscos, e
quando soou a sirena os homens subiram as escadas, vindos nas
oficinas do trreo, sentando-se nas mesas e comeando a comer
seu almoo. Deviam estar presentes uns trezentos deles. Tinham
lido os avisos do gerente espalhados em vrios lugares e
apareceram principalmente por curiosidade.
     Eles ficaram bem impressionados. O salo era grande e
arejado, livre de fumaa e p, e bem aquecido pela tubulao de
vapor. Por volta de vinte minutos para uma hora o sr. Powers disse
aos homens o que tinha em mente. Falou com simplicidade, como
quem conhece bem o tipo da audincia, e em seguida apresentou o
Rev. Henrique Maxwell, da Primeira Igreja, seu pastor, que aceitara
o convite para falar uns poucos minutos.
     Maxwell nunca iria esquecer os sentimentos que o
dominaram quando enfrentou, pela primeira vez, um auditrio de
operrios de caras sujas. Como muitos outros ministros, ele jamais
havia falado a uma assemblia que no fosse composta de pessoas
de sua prpria classe, ou seja, pessoas cuja educao, aparncia e
maneiras lhe eram familiares. Este era para ele um mundo novo,
ao qual jamais falaria antes de sua nova regra de conduta, a qual
tornava possvel e at natural esta mensagem e seus efeitos. Falou
sobre a satisfao de viver, suas causas e suas fontes. Neste
primeiro encontro Maxwell teve o bom senso de no considerar os
operrios uma classe diferente da sua prpria. Ele no usou a
palavra operrio e no disse uma nica palavra que sugerisse
qualquer diferena entre as vidas deles e a sua prpria.
     Os homens ficaram satisfeitos. Um bom nmero dentre eles
apertou-lhe a mo antes de descer para o trabalho. Ao chegar a
casa Maxwell contou tudo  esposa e disse-lhe que jamais em toda
sua vida tinha experimentado o prazer de apertar a mo de um
trabalhador braal. Esse dia ficou marcado como um dos mais
importantes em sua experincia crist, mais importante do que ele
podia imaginar. Era o comeo de um lao de fraternidade entre ele
e o mundo operrio. Era a primeira prancha de uma ponte que se
construa sobre o vazio existente at ento entre a igreja e o
trabalho em Raymond.
     Alexandre Powers voltou para sua mesa naquela tarde muito
contente com seu plano, vendo nele uma excelente oportunidade
de ajudar aquela gente. Soube onde conseguir alguma boas mesas
de um restaurante abandonado em uma das estaes da estrada, e
viu como a providncia do caf poderia ser uma grande atrao. Os
homens haviam correspondido e se comportado de forma ainda
melhor do que se previa e no todo os benefcios para eles no
poderiam ser mais teis e oportunos.
     Reassumiu sua rotina de trabalho com grande satisfao.
Afinal de contas, ele fez o que Jesus teria feito, disse a si mesmo.
     Ao redor de quatro horas, Powers abriu um dos grandes
envelopes da companhia, que imaginava contivessem ordens de
compra de materiais para o almoxarifado. Passou os olhos na
primeira pgina rapidamente, como era seu costume, antes de
perceber que estava diante de um documento que no dizia
respeito  sua rea e, sim, ao gerente do departamento de fretes.
      Folheou o documento mecanicamente, sem a inteno de se
inteirar do que no era de sua alada, quando notou uma frase
que provava, com toda evidncia, que a companhia estava
envolvida numa violao sistemtica das leis comerciais do pas.
Tratava-se de uma transgresso to clara como se algum entrasse
numa casa para roubar os moradores. E no eram apenas as leis
do pas que estavam sendo infringidas, mas os prprios estatutos
da organizao estavam sendo violados intencionalmente. No
havia dvida de que Powers tinha em mos provas suficientes para
acusar a companhia de infrao voluntria e consciente dos seus
prprios estatutos e das leis do estado.
      Atirou tudo aquilo sobre a mesa como se fosse veneno, e
instantaneamente a pergunta "Que faria Jesus?" atravessou sua
mente. Tentou fugir desta pergunta. Procurou raciocinar dizendo a
si mesmo que aquele assunto no era com ele. Tinha certeza de
que todos os encarregados dos setores da companhia supunham
que a alta direo da ferrovia agia sempre de acordo com a lei. Em
sua posio no dispunha de meios de confirmar tal observncia
nem lhe fora atribuda responsabilidade para tanto. Nada disso
dizia respeito a ele. Mas os documentos estavam diante de seus
olhos mostrando a impropriedade do procedimento. Por falha de
endereamento, eles vieram parar em sua mesa. Que tinha ele a
ver com isso? Se ele visse um homem penetrando na casa de seu
vizinho para roubar, no era seu dever avisar a polcia? Este caso
da companhia de estrada de ferro era por acaso diferente? Estava
ela sob diferentes leis de procedimento, de modo que se pudesse
roubar o povo e desafiar as leis, permanecendo impune por ser
uma grande organizao? Que faria Jesus? Veio-lhe ento 
lembrana sua famlia. Certamente, se ele denunciasse a
irregularidade, corria o risco de perder sua posio. Sua esposa e
sua filha sempre desfrutaram uma vida confortvel e tinham um
lugar destacado na sociedade. Se testemunhasse contra essa
fraude, teria de comparecer diante de um tribunal, seus motivos
como acusador poderiam ser mal interpretados e acabariam
complicando sua vida e criando para ele uma situao
insustentvel dentro da companhia. Estava bem claro que o
assunto dos documentos no o afetava. Ele poderia simplesmente
remet-los ao departamento de fretes e ficaria livre e tranqilo.
Que continuassem as irregularidades! Que a lei fosse
desrespeitada! Que tinha ele com isso? Poderia continuar fazendo
sua parte para melhorar as condies do seu setor. Que mais
poderia ser feito numa empresa ferroviria no meio de tanta coisa
errada que torna praticamente impossvel a uma pessoa viver de
acordo com o modelo cristo? Mas, que faria Jesus diante desses
fatos? Esta era a questo que estava diante de Alexandre Powers
quando o dia j comeava a escurecer.
     As luzes da seo foram acesas. O rudo e vibrao da grande
mquina e os sons metlicos das plainas na grande oficina
continuaram at as seis horas. Ento a sirena soou, as mquinas
foram parando, os homens largaram suas ferramentas e saram
correndo em direo ao vestirio.
      Powers ouviu o costumeiro clic, clic, clic dos relgios de ponto,
enquanto os homens em fila passavam pela portaria na sada do
vestirio. Informou seus funcionrios: "No vou sair agora. Tenho
um trabalho extra a terminar." Esperou que o ltimo homem
sasse do prdio. O engenheiro e seus assistentes trabalharam
meia hora mais, porm saram por outra porta.
      s sete horas, se algum olhasse para o escritrio do gerente,
teria visto uma cena comovente. Ele estava ajoelhado, a fronte
entre as mos, inclinando a cabea sobre os papis de sua mesa.
                               SEIS
         "Se algum vem a mim e no aborrece a seu pai, e
         me, e mulher, e filhos, e irmos, e irms e ainda a
           sua prpria vida, no pode ser meu discpulo...
        Assim, pois, todo aquele que dentre vs no renuncia
         a tudo quanto tem no pode ser meu discpulo" (Lc
                             14.26,33).


     Quando Raquel Winslow e Virgnia Page se separaram
domingo depois da reunio na Primeira Igreja, elas combinaram
continuar a conversa no dia seguinte. Virgnia convidou Raquel
para um almoo ao meio-dia em sua casa no dia seguinte, e
Raquel s onze e meia l estava apertando a campainha da
manso dos Page. Virgnia foi pessoalmente receber a amiga e logo
em seguida passaram a conversar com grande interesse.
      "A verdade", dizia Raquel depois de conversarem por algum
tempo, " que no posso conciliar isso com a minha compreenso
do que faria Jesus. No posso dizer a outra pessoa o que ela deve
fazer, mas sinto que no devo aceitar essa oferta."
      "Que vai    fazer   ento?"   perguntou    Virgnia   vivamente
interessada.
     "Ainda no sei, mas j decidi rejeitar a proposta."
      Raquel apanhou uma carta que estava em seu regao e
passou a ler novamente seus dizeres. Era uma carta do diretor de
uma companhia de pera cmica oferecendo-lhe um lugar num
grupo artstico itinerante para uma temporada. O salrio era alto e
a perspectiva apresentada era bastante atraente. Ele tinha ouvido
Raquel cantar no culto matinal em que o estranho havia
interrompido os servios. Ele ficou bem impressionado com o
cntico. Havia riqueza naquela voz e ela devia ser usada na pera
cmica --  o que dizia a carta, e o diretor insistia numa resposta o
mais depressa possvel.
       "No h grande mrito em dizer 'no' a esta proposta quando
tenho a outra", prosseguiu Raquel pensativa. "E uma questo
difcil de resolver. Mas j tomei minha deciso. Para ser franca,
Virgnia, estou inteiramente convicta de que, com referncia a este
caso, Jesus jamais usaria qualquer talento, como uma boa voz, por
exemplo, para ganhar dinheiro. Agora, voltando  oportunidade
desta oferta para concertos, trata-se de uma companhia famosa e
acreditada, programada para viajar com um artista-personagem,
um violinista e um quarteto masculino, todas pessoas de boa
reputao. Fui convidada a integrar a companhia e cantar como
soprano principal. O salrio -- j o mencionei a voc, no 
mesmo? --  compensador e garantido para cada temporada. Mas
no consigo me convencer de que Jesus, em meu lugar, aceitaria
tal proposta. Que acha voc disso?
      "Voc no deve me pedir que decida por voc", respondeu
Virgnia com um sorriso meio forado. "Acho que o Rev. Maxwell
estava certo quando disse que cada um de ns deveria tomar sua
prpria deciso da forma que considerasse mais provvel que
Jesus agiria, de acordo com nosso julgamento. Tenho maiores
dificuldades do que voc, querida, para decidir o que Ele faria em
meu lugar."
      "Sim?", replicou Raquel. Levantou-se em seguida e caminhou
at a janela para olhar l fora. Virgnia levantou-se e ficou ao lado
dela. A rua estava movimentada e cheia de gente e as duas jovens
ficaram observando por alguns momentos. De repente Virgnia se
ps a falar de um modo como Raquel nunca tinha ouvido antes:
      "Raquel, o que significa para voc todo este contraste que
existe quando voc faz a pergunta "Que faria Jesus?" O que me
deixa transtornada  que a sociedade em que fui criada, a mesma
a que ambas dizemos pertencer, se satisfaz ano aps ano em
vestir-se e alimentar-se e divertir-se, gastando seu dinheiro em
casas e em extravagncias, e, de vez em quando, para aliviar a
conscincia, fazem algumas doaes caridosas, sem o menor
sacrifcio pessoal. Fui educada, como voc, numa das escolas mais
caras do pas. Ingressando na sociedade como rica herdeira,
supem muitos que tenho uma posio invejvel. Sinto-me
perfeitamente bem; posso viajar ou ficar em casa. Fao o que me
agrada. Posso satisfazer praticamente quaisquer necessidades ou
desejos, mas, apesar disso, quando procuro honestamente
imaginar Jesus vivendo a vida que tenho vivido e espero viver,
fazendo pelo resto de minha vida o que milhares de outras pessoas
ricas fazem, considero-me uma condenada por ser uma das
criaturas mais mpias, egostas e inteis do mundo. No tenho
olhado por essa janela durante semanas sem um sentimento de
horror para comigo mesma quando observo a multido que passa
diante desta casa."
      Virgnia voltou-se e caminhou de um lado para outro da sala.
Raquel a observava e no pde conter o sentimento que se formava
dentro dela sobre a definio do verdadeiro discipulado. Qual o uso
cristo que poderia fazer do prprio talento musical que recebera?
Seria o melhor para ela vender seu talento por alguma recompensa
monetria mensal, participar de uma companhia lrica itinerante,
vestir-se luxuosamente, usufruir a excitao e o deslumbramento
dos aplausos das platias e obter a consagrao como grande
cantora? Seria isso o que Jesus faria?
     Ela no estava delirando. Estava em perfeita sade, estava
consciente de seu grande potencial como cantora, e sabia que, se
quisesse lanar-se numa carreira pblica, teria um grande
benefcio financeiro e se tornaria famosa. Ela certamente no
estava supervalorizando sua capacidade de realizar todo o seu
potencial artstico. E quanto a Virgnia, o que ela acabara de dizer
mexeu profundamente com Raquel por causa da semelhana de
posies que havia entre as duas.
      Foi anunciado o almoo. Elas passaram para a sala de jantar
e se reuniram  sra. Page, av de Virgnia, uma senhora bonita e
imponente de 65 anos, e ao irmo de Virgnia, Rollin, um jovem
que consumia a maior parte de seu tempo num dos clubes e que
no demonstrava qualquer ambio; de positivo tinha somente
uma crescente admirao por Raquel Winslow, e toda a vez que ela
almoava ou jantava com os Pages, ele dava um jeito de ficar em
casa.
      Estas trs pessoas formavam a famlia Page. O pai de Virgnia
tinha sido um banqueiro e grande negociante de cereais. Sua me
tinha morrido dez anos antes, o pai morrera no ano passado. A av,
uma sulista de nascimento e educao, tinha todas as tradies e
sentimentos que acompanham a posse de riquezas e posio social
nunca perturbadas. Era uma mulher sagaz, cautelosa nos
negcios e de capacidade acima da mdia. As propriedades e a
riqueza da famlia foram investidas, em grande parte, com sua
orientao. A parte que cabia a Virgnia era, sem qualquer
restrio, de sua exclusiva propriedade. Ela foi preparada e
orientada por seu pai a aprender os artifcios do mundo dos
negcios, e a prpria av viu-se forada a reconhecer a capacidade
da jovem para cuidar de seu patrimnio.
      Talvez no poderiam ser encontradas duas pessoas em
qualquer lugar menos capazes de compreender uma jovem como
Virgnia do que a sra. Page e Rollin. Raquel, que conhecia a famlia
desde quando, menina, brincava com Virgnia, no podia deixar de
imaginar o que estava reservado para Virgnia em seu prprio lar
quando ela decidisse pr em prtica honestamente o que Jesus
faria em seu lugar. Durante o almoo, ao lembrar-se do ardor com
que Virgnia falara na sala de estar, ela procurou antever a cena
que qualquer dia seria desencadeada entre a sra. Page e sua neta.
     "Soube que vai apresentar-se no palco, srta. Raquel. Estou
certo de que ser um motivo de prazer para todos", disse Rollin
durante a conversa, que no estava muito animada.
      Raquel ficou corada e sentiu um certo desconforto. "Quem foi
que lhe disse?" perguntou, enquanto Virgnia, que at ento estava
silenciosa e reservada, de repente se animou e parecia disposta a
participar da conversa.
     "Oh! Comenta-se por a. Alm disso, todos viram o empresrio
Crandall na igreja h duas semanas. Ele no vai  igreja para ouvir
a pregao. Para dizer a verdade, conheo outras pessoas que
tambm no vo, nem quando h alguma coisa melhor para ouvir."
     Raquel no corou desta vez, mas respondeu com bastante
calma e segurana: "H um engano. No vou me apresentar no
palco."
     " uma grande pena. Seria um grande sucesso. Todo mundo
est comentando a respeito de seus cnticos."
     Desta vez Raquel ficou realmente furiosa. Antes que ela
dissesse qualquer coisa, Virgnia interveio:
     "Quem voc chama 'todo mundo'?"
      "Quem? Todas as pessoas que ouvem a srta. Winslow aos
domingos? Em que outro lugar podem ouvi-la?  uma grande pena,
digo, que o grande pblico fora de Raymond no possa ouvir sua
voz."
     "Vamos falar de outra coisa", disse Raquel um tanto
asperamente. A sra. Page olhou para ela e disse-lhe cortesmente:
     "Minha querida. Rollin nunca faz um cumprimento indireto.
Ele  como seu pai neste sentido. Mas estamos curiosos em
conhecer seu planos. Reclamamos esse direito em nome de nosso
velho conhecimento e amizade. Virgnia j nos falou sobre a
proposta feita pela companhia artstica a voc."
     "Acreditava-se que j fosse do conhecimento pblico", disse
Virgnia do outro lado da mesa. "Foi publicado ontem no Dirio de
Notcias."
      "Sim, sim", replicou Raquel rapidamente. "Compreendo sua
razo, sra. Page. Bem, Virgnia e eu estivemos conversando sobre
isso. Tomei a deciso de no aceitar, pelo menos neste momento."
     Raquel estava consciente do fato que a conversa vinha, at
este ponto, diminuindo sua hesitao a respeito do convite
recebido, levando-a a tomar uma deciso que satisfizesse
plenamente seu prprio julgamento da provvel atitude que Jesus
tomaria. Entretanto, a ltima coisa que desejava era que tal
deciso fosse definida em qualquer lugar pblico como este. De
certo modo, o que Rollin Page havia dito e seu jeito de dizer
apressaram a deciso desse assunto.
     "Poderia dizer-nos, Raquel, que razes teve para rejeitar essa
proposta? Creio que ela  uma boa oportunidade para uma jovem
como voc. No acha que o grande pblico deveria ouvi-la cantar?
Penso como Rollin neste ponto. Uma voz como a sua pertence a
uma audincia maior do que Raymond e a Primeira Igreja."
      Raquel Winslow era, por natureza, uma moa muito
reservada. Ela se retraa quando seus planos e seus pensamentos
escapavam de seu restrito crculo. Entretanto, podia ela, em
determinadas circunstncias, sob o impacto de uma emoo muito
forte, deixar seu recesso ntimo e expressar seus sentimentos com
franqueza, simplicidade e sinceridade. Assim, num desses raros
momentos de desenvoltura que acrescentava fora e beleza ao seu
carter, ela deu a resposta  sra. Page.
     "No tenho outro motivo alm da convico de que Jesus
Cristo faria a mesma coisa", disse ela com ardor e sinceridade
fixando os olhos diretamente na sra. Page.
     A sra. Page enrubesceu e Rollin arregalou os olhos. Antes que
sua av pudesse dizer qualquer coisa, Virgnia falou. Seu rosto
estava marcado pela emoo. O rosto plido e claro de Virgnia
aparentava sade, mas estava geralmente em marcante contraste
com o tipo de beleza tropical de Raquel.
      "Vov, a senhora est sabendo que prometemos adotar um
padro de conduta durante um ano. A proposta do Pastor Maxwell
foi clara para todos os que o ouviram. No temos podido chegar a
nossas decises muito depressa, porque nossa dificuldade  saber
exatamente o que Jesus faria. Isso tem causado alguma confuso
tanto a Raquel como a mim."
     A sra. Page olhou fixamente para Virgnia antes de responder.
      "Conheo evidentemente a inteno do Rev. Maxwell. Ela 
inteiramente impraticvel. Tenho certeza de que, em pouco tempo,
aqueles que se comprometeram, tero esta experincia: vo
concluir que ela  inexeqvel e a abandonaro por fantasiosa e
absurda. Nada tenho a ver com os negcios da srta. Winslow,
mas..." -- fez uma pausa e prosseguiu com um tom de aspereza
que chocou Raquel -- "espero que voc no tenha idias
estapafrdias a esse respeito, Virgnia."
     "Tenho muitas idias", replicou Virgnia serenamente. "Se elas
so extravagantes ou corretas, vai depender de minha honesta
compreenso do que Jesus faria. To logo eu no tenha mais
dvidas, realizarei aquilo que julgo que Ele faria."
     "Senhoras, queiram desculpar-me", disse Rollin levantando-
se da mesa, "essa conversa est acima de minha compreenso.
Vou fumar na biblioteca."
     Ele deixou a sala de jantar e fez-se silncio por alguns
instantes. A sra. Page esperou que a criada servisse a mesa e
pediu que ela se retirasse. Estava irritada e sua irritao era
grande, embora um tanto reprimida devido  presena de Raquel.
     "Sou muito mais velha do que vocs, senhoritas", disse ela e
seu porte de estilo tradicional parecia elevar-se como uma muralha
de gelo entre ela e toda a sua concepo de Jesus como o sacrifcio
vivo da redeno, "e sei que o que vocs prometeram, num
momento de entusiasmo e emoo,  impossvel realizar, como
suponho."
     "Isto significa, vov, de acordo com sua viso, que no
podemos imitar o exemplo de Jesus, ou se tentssemos,
estaramos ofendendo os costumes e preconceitos da sociedade?"
perguntou Virgnia.
      " que isso no se exige, no  necessrio! Alm disso, como
podem vocs agir com algum..." -- a sra. Page fez uma pausa,
interrompeu sua frase e em seguida voltou-se para Raquel -- "O
que dir sua me de sua deciso? Minha cara amiga, isso no 
uma loucura? Que pensa ento fazer de sua voz?"
      "Ainda no sei o que mame dir", respondeu Raquel,
cautelosa em revelar a provvel resposta da me. Se havia em
Raymond uma mulher com grande ambio para a carreira de sua
filha como cantora, essa mulher era a sra. Winslow.
      "Oh! Certamente voc vai pensar de modo diferente depois de
refletir melhor, minha querida", continuou a sra. Page, levantando-
se. "Viver bastante para se arrepender de no ter aceito o contrato
da companhia de concertos, ou qualquer outra coisa semelhante."
     Raquel disse algo que denunciava um indcio da luta que
ainda se travava dentro dela. E logo depois despediu-se,
imaginando que aps sua sada teria lugar um outro drama:
deveria ocorrer uma conversa muito dolorosa entre Virgnia e sua
av. Passados uns dias, ela soube que Virgnia havia passado por
uma crise terrvel durante a cena com sua av, o que apressou sua
deciso final quanto ao uso de seu dinheiro e de sua posio social.



                              SETE
     Raquel sentia-se contente por ter-se livrado daquela
inquisio e estar agora sozinha. Um plano estava se delineando
lentamente em seu esprito, por isso ela queria ficar isolada e
pensar nele com muito cuidado. Mas, antes de caminhar duas
quadras, ficou aborrecida ao notar a companhia de Rollin Page
andando a seu lado.
     "Perdoe-me por perturbar seus pensamentos, srta. Winslow,
mas aconteceu que seguia na mesma direo e ocorreu-me a idia
de que a senhorita no faria objeo. Alis, faz algum tempo que
estou caminhando a seu lado, sem que a senhorita protestasse."
     "No o vi", respondeu ela.
    "Quem me dera que a senhorita tivesse ao menos algum
pensamento para mim de vez em quando!" disse Rollin de sbito.
Ele deu uma ltima baforada nervosa em seu charuto, atirou-o na
rua e foi caminhando e exibindo um rosto muito plido.
     Raquel estava surpresa, mas no assustada. Conhecia Rollin
desde a infncia, e houve tempo em que ambos se tratavam pelo
primeiro nome sem cerimnia. Com o passar do tempo, porm,
alguma coisa nas maneiras de Raquel foi pondo fim quela
intimidade de tratamento. Ela estava acostumada com seus
cumprimentos e at se divertia com eles. Agora, porm, desejava
honestamente que ele estivesse em qualquer outro lugar.
     "Alguma vez a senhorita pensa em mim?" perguntou Rollin
depois de um intervalo.
     "Oh, sim, com freqncia", disse Raquel com um sorriso.
     "Est pensando em mim agora?"
     "Sim. Isto  -- sim, estou."
     "O qu?"
     "Deseja que eu seja absolutamente sincera?"
     "Certamente."
     "Bem, estava pensando que gostaria que voc no estivesse
aqui."
     Rollin mordeu os lbios e parecia desolado.
      "Agora, olhe aqui, Raquel -- oh, sei que j no posso trat-la
assim com esta familiaridade, mas atrevo-me a usar s vezes esta
liberdade! -- voc sabe como me sinto. O que leva voc a tratar-me
assim? Voc me apreciava um pouco, est lembrada?"
     "Eu? Naturalmente ns nos dvamos muito bem quando
crianas. Agora, porm, crescemos, somos adultos."
     Raquel ainda falava com naturalidade, mas com firmeza,
desde o primeiro instante em que foi importunada. Ela estava um
tanto aflita, preocupada com seu plano que fora perturbado pelo
repentino aparecimento de Rollin.
      Caminharam algum tempo em silncio. A avenida estava
cheia de gente. Entre as pessoas que passavam, viram Jasper
Chase que vinha em sentido contrrio. Ele viu Raquel e Rollin e
inclinou-se cumprimentando-os quando se cruzaram. Rollin tinha
os olhos fixos em Raquel.
    "Gostaria de ser Jasper Chase. Talvez assim eu tivesse
alguma oportunidade", disse ele com certo desalento.
     Raquel corou involuntariamente, sem nada dizer, mas
apressou um pouco o passo. Rollin parecia determinado a dizer
alguma coisa, e Raquel sentia-se impotente para evit-lo. Por fim,
pensou ela, ele ter de saber a verdade mais cedo ou mais tarde.
     "Voc conhece bem, Raquel, meus sentimentos a seu respeito.
H alguma esperana? Posso faz-la feliz. Estou apaixonado por
voc h uns bons anos..."
     "Ora, quantos anos acha que eu tenho? interrompeu Raquel
com uma risada nervosa. Ela j estava perdendo sua postura
natural.
     "Voc sabe o que quero dizer", prosseguiu Rollin com
obstinao. "E no  justo que voc ria de mim porque quero que
se case comigo."
      "No estou rindo de voc, mas  intil continuar insistindo
em falar, Rollin", disse Raquel depois de uma pequena hesitao,
dizendo o nome dele com franqueza natural e simples que ele no
poderia associar com qualquer sentido de familiaridade pelo antigo
conhecimento. " impossvel." Ela ainda estava um pouco agitada
pelo fato de receber uma proposta de casamento em plena avenida.
Mas o rudo da rua e o vozerio na calada tornou a conversa to
privada como se eles estivessem em casa.
     "Eu poderia, isto , voc acha... se me der algum tempo de
espera..."
     "No", respondeu Raquel e falou com convico e firmeza.
Talvez tenha sido rude com ele, pensou depois, ainda que no
pretendesse ser indelicada.
     Seguiram o caminho por algum tempo sem dizerem uma
nica palavra. Estavam se aproximando da casa de Raquel e ela
estava ansiosa para encerrar aquela cena.
     Quando saram da avenida e entraram numa rua mais
sossegada, Rollin falou abruptamente e num tom mais varonil do
que antes. Havia em sua voz uma nota de dignidade, que era nova
para Raquel.
     "Srta. Winslow, pedi para que seja minha esposa. H alguma
esperana de que algum dia terei seu consentimento?"
     "Nenhuma", respondeu ela decididamente.
      "Pode me dizer por qu?" fazendo a pergunta como se tivesse
direito a uma resposta sincera.
    "Porque no sinto por voc o que uma mulher deve sentir pelo
homem com quem ela pretende se casar."
     "Em outras palavras, no me ama?"
     "No. No posso."
    "Por qu?" Era outra pergunta, que surpreendeu ainda mais
Raquel pela insistncia.
     "Porque..."
     Ela hesitava com receio de falar mais do que o devido na
tentativa de dizer a verdade exata.
     "Diga-me por qu. No pode magoar-me mais do que j fez."
     "Bem, no o amo, nem posso amar, porque voc no tem
nenhum propsito na vida. O que voc j fez para melhorar este
mundo? Voc consome seu tempo em clubes, divertindo-se,
viajando, vivendo com luxo. O que h numa vida assim para atrair
uma mulher?"
     "No muita coisa, reconheo", disse Rollin, com um sorriso
amargo. "Apesar disso, no me considero pior do que o resto dos
homens que encontro por a. No sou to mau como alguns. De
qualquer forma, estou satisfeito por conhecer suas razes."
      Parou repentinamente, tirou o chapu, inclinou-se
cavalheirescamente e se afastou. Raquel entrou apressadamente e
dirigiu-se diretamente ao seu dormitrio, muito perturbada em
razo dos acontecimentos na casa dos Page e por esta inesperada e
desagradvel experincia.
     Quando teve tempo de pensar em tudo o que se passara, ela
se condenou intimamente pelo julgamento que havia feito de Rollin
Page. Que propsito tinha ela em sua prpria vida? Havia estudado
msica no exterior com um dos mais famosos professores da
Europa. Retornara a Raymond havia um ano e passou a cantar no
coro da Primeira Igreja. Era bem paga e at duas semanas atrs
sentia-se muito bem em sua vida e em sua posio. Compartilhava
as ambies de sua me e sonhava com grandes e contnuos
triunfes no mundo musical. Que carreira havia diante dela a no
ser a trajetria comum de todo cantor? Ela se questionou outra vez
e, com base na sua argumentao que usou durante a conversa
com Rollin, perguntou a si mesma novamente se teria, ela prpria,
algum grande ideal de vida. Que faria Jesus? Havia uma fortuna
em sua voz. Ela sabia disso, no por uma questo de orgulho
pessoal ou egosmo, mas simplesmente como um fato reconhecido
por todos. E, at duas semanas atrs, via-se forada a reconhecer
que tinha o propsito de usar sua voz para ganhar dinheiro,
admirao e aplausos. Seria este um propsito mais alto, afinal de
contas, do que o vivido por Rollin Page?
     Raquel ficou sentada em seu quarto por um longo tempo e
finalmente resolveu descer para ter uma conversa franca com sua
me com referncia  proposta da companhia artstica e expor-lhe
o novo plano que vinha gradativamente se formando em sua mente.
Tivera anteriormente uma conversa com a me e estava consciente
de que ela esperava sua aceitao da oferta e o incio de uma
brilhante carreira como cantora.
      "Mame", comeou Raquel indo diretamente ao ponto e
prevendo uma desagradvel entrevista, "tomei a deciso de no
aceitar o convite da companhia, e tenho uma boa razo para para
isso."
      A sra. Winslow era uma mulher corpulenta, bonita,
apreciadora da vida em sociedade, ambiciosa de assegurar uma
posio distinta na vida mundana e empenhada, de conformidade
com sua concepo de sucesso,  realizao social e ao progresso
profissional e financeiro de seus filhos. Seu filho caula, Lus, dois
anos mais jovem que Raquel, estava prestes a graduar-se na
academia militar. Ela e Raquel viviam sozinhas naquela casa. O
pai de Raquel, como o de Virgnia, havia morrido quando a famlia
estava no exterior. E como Virgnia, Raquel enfrentava em seu lar o
mesmo antagonismo resultante de sua nova conduta de vida,
baseada na promessa feita na Primeira Igreja. A sra. Winslow
esperou que Raquel continuasse.
     "A senhora j est sabendo do compromisso que assumi h
duas semanas, mame?"
     "A promessa do Pastor Maxwell?"
     "No, a minha promessa. A senhora sabe qual foi, no sabe?"
     "Creio que sim. Naturalmente todos os membros da igreja
pretendem imitar Cristo e seguir os seus ensinamentos com a
mesma fidelidade que for possvel nas atuais condies da poca
em que vivemos. Mas, o que tem isso a ver com sua carreira como
cantora lrica?"
     "Tem muito a ver. Depois de perguntar 'Que faria Jesus?' e de
buscar a fonte de toda a sabedoria, senti-me obrigada a dizer que
achava que Ele no faria tal coisa, ou seja, no usaria sua voz
dessa maneira."
     "Por qu? H alguma coisa errada nessa carreira?"
     "No. No me julgo no direito de dizer isso."
     "Est pretendendo julgar as outras pessoas que viajam e
cantam da mesma forma que voc? Voc considera que elas esto
fazendo o que Cristo no faria?"
     "Mame, quero que me compreenda. No pretendo julgar
ningum. No sou contra qualquer outro cantor profissional. Estou
simplesmente decidindo meu prprio caminho. Pensando em meu
caso, sinto a convico de que Jesus ainda faria uma outra coisa."
      "O que mais?" A sra. Winslow ainda no tinha perdido o
controle. No compreendia a situao, e muito menos Raquel
metida no meio disso tudo. Ela desejava, to-somente, que sua
filha seguisse o caminho natural de uma carreira digna de sua voz,
e esperava que, passada essa excitao religiosa na Primeira Igreja,
Raquel retomaria sua vocao na vida pblica, de acordo com o
desejo da famlia. Ela no estava preparada para ouvir a outra
novidade que Raquel diria.
      "O que mais? Alguma coisa que seja til  humanidade, onde
a presena do canto se faa necessria. Mame, decidi usar minha
voz de um modo a satisfazer minha alma, certa de estar realizando
algo muito acima de deliciar auditrios sofisticados, ou ganhar
dinheiro, ou mesmo cantar unicamente para satisfazer meu
prprio eu. Vou fazer aquilo que me encha o corao quando fizer
a pergunta 'Que faria Jesus?' No me satisfao nem posso sentir
alegria ao imaginar-me cantando como artista de uma companhia
lrica."
     Raquel falava com vigor e convico que surpreenderam sua
me. Mas a sra. Winslow agora estava irada, e ela jamais escondia
seus sentimentos.
     "Isso  simplesmente um absurdo! Raquel, voc           est
fanatizada. O que voc vai conseguir fazer com isso?"
      "O mundo tem sido ajudado por homens e mulheres que tm
devotado a ele os dons e talentos que receberam. Por que no eu,
que fui abenoada com um dom natural? Iria eu mercadejar meu
dom de cantar ganhando todo o dinheiro e fama que pudesse? A
senhora sabe, mame, que me ensinou a pensar numa carreira
musical sempre com interesse no dinheiro e no sucesso social. No
tenho sido capaz, desde que assumi meu compromisso duas
semanas atrs, de imaginar Jesus associando-se a uma
companhia lrica para fazer o que eu faria e viver a vida que eu
viveria se aceitasse essa oferta."
     A sra. Winslow levantou-se e no mesmo instante voltou a
sentar-se. Ela fez um grande esforo para conter seus nervos.
     "O que tenciona fazer ento? Voc no respondeu  minha
pergunta."
     "Pretendo, por enquanto, continuar cantando na igreja.
Tenho um compromisso para cantar l at  primavera. Durante a
semana vou cantar nas reunies da Cruz Branca, l embaixo no
Retngulo."
     "O qu? Raquel Winslow! Voc sabe o que est dizendo? Sabe
por acaso qual  o tipo de gente que vive l?"
     Raquel estremeceu diante dessa exploso de sua me. Por um
instante ela recuou e emudeceu. Depois se recomps e falou com
firmeza:
     "Sei perfeitamente, e  por isso mesmo que vou l. O sr. Gray
e sua esposa esto trabalhando ali h vrias semanas. Fiquei
sabendo somente esta manh que eles esto precisando de
cantores das igrejas para cooperarem nessas reunies. Eles fazem
o trabalho numa tenda. Aquela parte da cidade  a que mais
necessita de um trabalho evangelstico. Vou colocar-me 
disposio deles para ajudar. Mame!", exclamou Raquel de um
modo ardente e voluntarioso como jamais fizera, "quero fazer
alguma coisa que me custe sacrifcio. Bem sei que voc no me
compreende, mas estou desejosa por sofrer por meu prximo em
nome de Jesus! Que temos feito, durante toda a nossa vida, em
favor da gente pecadora e sofredora daquela parte de Raymond?
Quantas vezes renunciamos ao nosso conforto e demos um pouco
do prazer que esbanjamos para beneficiar o lugar em que vivemos
e onde temos sido to abenoados, imitando, com esse gesto, a
vida do Salvador do mundo?  justo continuarmos vivendo como
sociedade egosta, enclausurados em nosso pequeno crculo de
prazeres e entretenimentos, desconhecendo o sofrimento e a
angstia das dificuldades e desesperanas?"
     "Est me pregando um sermo?" perguntou a sra. Winslow
lentamente. Raquel ergueu-se. Ela havia entendido as palavras de
sua me.
      "No. Estou pregando a mim mesma", respondeu a jovem
delicadamente. Esperou um pouco imaginando que sua me iria
dizer mais alguma coisa, e em seguida retirou-se da sala.
Chegando ao seu quarto, pde concluir que, pelo que tinha ouvido
de sua me, no esperava receber dela simpatia nem mesmo uma
justa compreenso de seu ideal.
     Ajoelhou-se. No h exagero em afirmar que nas duas
ltimas semanas, desde que surgira na igreja do Pastor Maxwell o
personagem estranho e maltrapilho com aquele chapu desbotado,
mais membros de sua congregao passaram a dobrar seus joelhos
em orao do que em todo o tempo anterior de seu pastorado.
     Raquel levantou-se. Seu rosto estava banhado de lgrimas.
Sentou-se por algum tempo pensativa e escreveu um bilhete para
Virgnia Page. O bilhete foi levado por um mensageiro e, logo
depois, ela desceu para dizer a sua me que ela iria com Virgnia
ao Retngulo naquela noite para encontrar-se com o casal de
evangelistas, o sr. Gray e sua esposa.
      "O Dr. West, tio de Virgnia, ir conosco. Sugeri a ela por
telefone que o convidasse e ele aceitou. O doutor  amigo do casal
Gray, tendo assistido a vrias reunies no inverno passado."
     A sra. Winslow no disse uma palavra. Mas seu rosto
revelava toda a sua desaprovao ao comportamento de Raquel,
que, por sua vez, podia sentir a silenciosa amargura de sua me.
     Por volta das sete horas o doutor e Virgnia apareceram, e
juntos os trs seguiram at o local das reunies da Cruz Branca.
      O Retngulo era o bairro mais desacreditado de Raymond. Ele
ficava prximo das oficinas da estrada de ferro e dos frigorficos. A
grande favela e as casas de cmodos alugadas do bairro
congregavam seus piores elementos ao redor do Retngulo. Era
uma rea estril utilizada no vero por companhias de circo e
artistas e grupos teatrais ambulantes. O lugar era cheio de
botequins, casas de jogos, hospedadas sujas e baratas e muitas
penses pequenas.
      A Primeira Igreja de Raymond jamais se interessou pelo
problema do Retngulo. O lugar era muito srdido, muito grosseiro,
muito pecaminoso, muito tenebroso para que houvesse uma
aproximao. Sejamos honestos. Tinha havido uma tentativa de
limpar esse lugar indesejvel enviando-se, de vez em quando, um
grupo de cantores, professores da escola dominical e evangelistas
de vrias outras igrejas. Mas a Primeira Igreja de Raymond, como
instituio, jamais tinha feito qualquer coisa em favor do
Retngulo para tentar destruir a fortaleza de Satans que havia
muito tempo se instalara ali.
     Foi bem no corao dessa parte de Raymond atolada em
pecado que o evangelista itinerante e sua pequena mas corajosa
esposa fincaram as estacas para levantar uma tenda de tamanho
adequado para comear as reunies. Era primavera e as noites
comeavam a ficar agradveis. Os evangelistas haviam solicitado
ajuda dos cristos da cidade, tendo recebido mais apoio e nimo
do que de costume. Mas tinham necessidade de mais e melhor
msica. Durante a reunio do ltimo domingo o organista ficou
doente. Os voluntrios da cidade eram poucos e as vozes eram de
qualidade comum.
     "Creio que vamos ter pouca gente esta noite, Joo", disse sua
esposa, ao entrarem na tenda um pouco depois das sete horas, e
passaram a ajeitar as cadeiras e acender os lampies.
     "Sim, este  o meu receio." O sr. Gray era um homem de
pouca estatura, mas decidido, com uma voz agradvel e a tmpera
de um lutador nato. J tinha conquistado alguns amigos na
vizinhana, e um dos convertidos, um homem de semblante sisudo,
entrou naquele momento e se ps a ajudar na disposio das
cadeiras.
      Passava das oito horas quando Alexandre Powers saiu de seu
escritrio e foi para casa. Estava esperando um bonde numa
esquina perto do Retngulo, quando de repente foi atrado por uma
voz que vinha da tenda.
      Era a voz de Raquel Winslow. Ele estava naquela crise moral
que o atingira, ainda inseguro quanto  maneira de resolver o caso
que havia submetido  orientao de Deus. No havia chegado
ainda a nenhuma concluso. Sentia-se torturado pela incerteza.
Toda sua vida de trabalho at ento como homem da companhia
tinha sido marcada por muita dedicao e sacrifcio. E agora
estava sem saber como proceder diante de um caso em que no
estava de fato envolvido, mas que mexia com sua conscincia
crist.
      Oua! O que ela est cantando? Como Raquel Winslow veio
parar aqui? Vrias janelas se abriram na vizinhana. Alguns
homens que discutiam em frente a um botequim pararam para
escutar. Outras pessoas se dirigiam apressadamente ao Retngulo
e  tenda. "Raquel nunca havia cantado assim na Primeira Igreja.
Que voz maravilhosa!" dizia Alexandre Powers a si mesmo,
deliciando-se e refletindo. Ele prestou mais ateno para
identificar o hino que ela entoava:


     "Sempre, sempre seguirei a Cristo;
     Aonde quer que Ele for, eu o seguirei."


     A vida brutal, grosseira e impura do Retngulo agitava-se e
ganhava nova vida  medida que soava o cntico to puro e belo
como eram vis e baixos os tipos que por ali estavam na vizinhana
da tenda. Aquela vibrao sonora penetrava nos botequins,
tavernas e alojamentos imundos. Algum que passava trpego
quase caiu em cima de Alexandre Powers e disse-lhe:
    "A tenda est transbordando de gente hoje. Isso  que 
msica, hem, que tal?"
     O gerente das oficinas da ferrovia caminhou em direo 
tenda, mas, depois de dar alguns passos, parou. Aps um instante
de indeciso, voltou para a esquina e tomou o bonde para casa.
Mas, antes de a voz de Raquel perder-se na distncia e sufocada
pelo rudo do bonde, ele j havia definido como resolver seu
problema de acordo com a vontade de Jesus.
                             OITO
        Se algum quer vir aps mim, a si mesmo se negue,
              tome a sua cruz e siga-me" (Mt 16.24).


      Henrique Maxwell caminhava em seu escritrio de um lado
para outro. Era quarta-feira e ele estava se preparando para o
culto da noite. De uma das janelas de seu escritrio podia avistar
as altas chamins das oficinas da estrada de ferro. O cume da
tenda do evangelista aparecia acima dos telhados das casas do
Retngulo. Sempre que passava diante da janela em suas voltas
pelo escritrio olhava para fora. Poucos minutos depois sentou-se
 mesa e abriu diante de si uma grande folha de papel. Aps
refletir por alguns momentos escreveu com grandes letras o
seguinte:


                 ALGUMAS COISAS QUE JESUS
            PROVAVELMENTE FARIA NESTA CIDADE


      1. Viver de um modo simples, normalmente, sem luxo, de um
lado, e sem um recolhimento ou ascetismo excessivo, de outro lado.
     2. Pregar corajosamente aos hipcritas da congregao, seja
qual for sua importncia ou nvel de riqueza.
      3. Mostrar, de forma prtica, seu amor e simpatia para com
as pessoas em geral, indistintamente, sejam elas simples e
humildes ou finas e educadas, embora estas formem a maioria na
igreja.
    4. Identificar-se com as grandes causas da humanidade de
um modo pessoal que requeira abnegao e sacrifcio.
    5. Pregar contra os bares e outros lugares de vcio e perdio
em Raymond.
     6. Tornar-se conhecido como amigo e companheiro da gente
pecadora e miservel do Retngulo.
    7. Abrir mo da viagem de vero  Europa este ano. (Viajei
duas vezes ao exterior e no estou precisando descansar. Sinto-me
bem e posso perfeitamente renunciar a esse prazer, reservando o
dinheiro para algum que precisa de frias mais do que eu.
Existem provavelmente na cidade muitas pessoas nestas
condies.)


     Ele estava consciente, com uma humildade que j lhe fora
estranha, de que seu perfil da provvel atitude de Jesus era
lamentavelmente desprovida de profundidade e poder. Procurava,
porm, cuidadosamente, moldes concretos em que pudesse fundir
sua idia do modo de proceder de Jesus. Cada ponto que escreveu
representava praticamente uma total reviravolta nos costumes e
hbitos formados no perodo anterior de seu ministrio. Apesar
disso, ele ainda tentava penetrar com mais profundidade nas
fontes do esprito cristo. No procurou escrever mais nada, mas,
sentado diante de sua mesa, concentrado em absorver cada vez
mais a mente de Cristo em sua prpria vida. Ele acabou se
esquecendo do assunto especial para a reunio de orao  noite
na igreja com o qual tinha iniciado seus estudos de manh.
      Estava to absorto em seus pensamentos que no ouviu tocar
a campainha, sendo avisado pelo criado, que anunciou um
visitante que se apresentou como Gray.
     Maxwell caminhou at o patamar da escada e convidou Gray
a subir, e este foi logo expondo a razo de sua visita.
      "Preciso de sua ajuda, Pastor Maxwell. Creio que o senhor
tem ouvido falar da reunio maravilhosa que tivemos segunda-feira
 noite e ontem tambm. A srta. Wnslow, com sua voz
extraordinria, fez mais do que eu com meus sermes. A tenda
ficou pequena para conter toda a multido."
     "Ouvi falar, sim.  a primeira vez que aquela gente a ouve
cantar. No  de admirar que tenham sido atrados e fascinados
por sua voz."
      "Foi uma grande revelao para ns, que deu um novo nimo
ao nosso trabalho. Mas estou aqui para pedir que o senhor pregue
esta noite na tenda. Estou muito resfriado e no posso falar com
toda a fora da voz, como aquele ambiente requer. Sei que estou
pedindo muito a uma pessoa to ocupada, mas, se no puder ir,
diga francamente e tentarei encontrar outra pessoa.
     "Sinto muito, sr. Gray, mas esta noite tenho minha reunio
habitual de culto", comeou Maxwell a dizer, mas de repente
acrescentou: "darei um jeito de ir. Pode contar comigo."
     Gray ficou extremamente agradecido e fez meno de sair.
     "Poderia esperar um instante para orarmos, Gray?"
     "Sim, claro", respondeu simplesmente o evangelista.
      Os dois se ajoelharam no escritrio. Maxwell orou como uma
criana. Gray ficou emocionado, chegando s lgrimas. Havia
alguma coisa comovente na maneira como esse homem, que tinha
vivido sua vida de ministrio numa limitada esfera de ao, rogava
agora por sabedoria e fora para levar uma mensagem ao povo do
Retngulo.
     Gray levantou-se e estendeu-lhe a mo. "Deus o abenoe,
Pastor Maxwell. Tenho certeza de que o Esprito Santo lhe dar
poder esta noite."
     Maxwell no respondeu. Nem sequer expressou essa
esperana. Mas pensava em sua promessa e isso lhe dava um
certo conforto que fazia bem ao seu corao e ao seu esprito.
     Uma surpresa aguardava Maxwell quando a congregao da
Primeira Igreja compareceu naquela noite para ouvir sua exposio.
Um grande e inesperado auditrio o esperava. De umas semanas
para c, desde aquele memorvel domingo, essas reunies de
orao passaram a ser bem freqentadas, um caso indito na
histria da Primeira Igreja. Maxwell foi direto ao ponto, referindo-
se ao contato que tivera com Gray.
      "Sinto que fui chamado a ir ao Retngulo esta noite, e quero
consult-los se iro comigo quele encontro. Penso que o melhor
plano seria talvez levar comigo alguns voluntrios para ajudar,
especialmente depois do encerramento do trabalho, e os demais
ficariam aqui orando para que o poder do Esprito esteja conosco."
     Meia dzia de pessoas acompanhou o pastor. Os demais
presentes se reuniram na biblioteca. Maxwell no pde deixar de
pensar, ao deixar a biblioteca, que em todo o seu corpo de
membros provavelmente no encontraria vinte discpulos que
fossem capazes de realizar um trabalho que levasse os
necessitados e pecadores ao conhecimento de Cristo. Essa idia
no ficou por muito tempo em sua mente para no acabrunh-lo,
mas ela era simplesmente uma parte de toda sua nova concepo
do significado do que  ser discpulo de Jesus Cristo.
      Quando ele e seu pequeno grupo de voluntrios chegaram ao
Retngulo a tenda j estava toda tomada de gente. Tiveram
dificuldade para chegar at  plataforma. L estavam Raquel e
Virgnia; Jasper Chase tambm l estava substituindo o doutor
naquela noite.
      Quando comeou a reunio com um hino em que Raquel
cantava o solo e o povo entoava o coro, no havia um nico espao
de trinta centmetros quadrados na tenda. A noite estava agradvel
e as lonas laterais da tenda foram levantadas, de modo que uma
grande multido, formando uma parede ao redor de toda a tenda,
aumentava consideravelmente o auditrio. Depois do hino e de
uma orao por um dos pastores da cidade que estava presente, o
evangelista Gray explicou o motivo por que no podia falar e, com
sua maneira simples, passou a direo do trabalho ao "irmo
Maxwell, da Primeira Igreja."
      "Quem  esse sujeito?" indagou uma voz fanhosa do lado de
fora da tenda.
     "O pastor da Primeira Igreja. Temos aqui esta noite toda a
gente importante da cidade."
     "Voc disse Primeira Igreja? Eu conheo esse pastor. Meu
senhorio paga por um dos primeiros bancos da igreja", disse outra
voz, e houve risos porque quem estava falando era inquilino do
prdio, onde instalou um bar.
     "As ondas atendem ao meu mandar: Sossegai!" comeou um
bbado a cantar ali por perto, imitando inconscientemente, mas
muito bem, o tom fanhoso de um cantor itinerante que sempre
passava por ali. Um onda de risos e de vivas de aprovao encheu
o ar fora da tenda. As pessoas que se encontravam na tenda
voltaram sua ateno para o rudo incmodo e protestaram: "Fora
com ele! Vamos ver o que a Primeira Igreja tem a dizer!" "Msica!
Queremos msica!" clamavam de todos os lados.
      Henrique Maxwell ergueu-se, e um grande pavor tomou conta
dele. Isto era bem diferente do que pregar ao pblico bem vestido,
respeitvel e bem- educado do centro da cidade. Ele comeou a
falar, mas a confuso aumentava. Gray foi at o meio do auditrio
tentando acalmar os nimos, mas no foi bem-sucedido. Maxwell
levantou seu brao e sua voz. A massa de gente na tenda comeou
a prestar mais ateno, mas o barulho l fora crescia. Em poucos
minutos a audincia estava fora de seu controle. Ele voltou-se para
Raquel com um sorriso triste e pediu-lhe:
     "Cante alguma coisa, srta. Winslow. Eles lhe daro ateno",
disse, e ento sentou-se com a cabea entre as mos.
     Era a oportunidade de Raquel, e ela quis aproveit-la bem.
Virgnia sentara-se ao rgo e Raquel pediu que ela tocasse os
primeiros acordes do hino.


     "Jesus, Senhor, me chego a ti;
     Oh! d-me alvio mesmo aqui!
     O teu favor estende a mim,
     Aceita um pecador!


     Eu venho como estou;
     Eu venho como estou;
     Porque Jesus por mim morreu,
     Eu venho como estou. "


      Raquel ainda no havia terminado a primeira linha e b povo
na tenda estava todo voltado para ela, silencioso e reverente. Antes
de encerrar a primeira estrofe todo o Retngulo estava subjugado e
domado. Ele se apaziguou e caiu a seus ps como uma fera
domada e inofensiva. Ah! Que significavam as audincias levianas,
perfumadas, crticas das salas de concertos comparadas com esta
massa de indivduos sujos, bbados, impuros, estupefatos que
tremiam e choravam estranha e pensativamente sob o toque divino
do ministrio daquela belssima jovem! Quando levantou a cabea
e viu a multido transformada, Maxwell imaginou o que Jesus com
certeza faria com uma voz como a de Raquel Winslow. Jasper
Chase sentou-se com os olhos fixos na cantora, enquanto toda a
sua ambio de romancista se dilua diante do desejo de
conquistar o amor de Raquel. E um tanto distante, mergulhado na
sombra do lado de fora da tenda, encontrava-se a ltima pessoa
que se esperava num encontro evangelstico, na tenda e no
Retngulo! L estava Rollin Page, que, empurrado de todos os
lados por homens e mulheres mal vestidos, no fazia caso algum
dos que o cercavam e olhavam com curiosidade, inteiramente
dominado que estava pela voz de Raquel. Tinha vindo do clube.
Nem Raquel nem Virgnia o viram naquela noite.
      O hino terminou. Maxwell levantou-se novamente. Desta vez
estava mais calmo. Que faria Jesus? Falou de um modo como
jamais imaginara ser capaz de falar. Quem eram aquelas pessoas?
Eram almas imortais. Que era o Cristianismo? Um convite aos
pecadores, no aos justos, para que se arrependam. Como falaria
Jesus? Que lhes diria? No lhe seria possvel dizer tudo o que sua
mensagem abrangeria, mas estava certo de uma parte dela. E
dessa certeza pde ele falar. Nunca antes sentira "compaixo pela
multido". O que fora para ele a multido durante seus dez anos 
frente da Primeira Igreja seno um aspecto indistinto, perigoso,
sujo, turbulento na sociedade, fora do alcance da igreja? A
multido era considerada um elemento que, s vezes, lhe causava
uma pontada na conscincia, um aspecto da vida de Raymond que
era denominada "massas" pela imprensa escrita por religiosos na
tentativa de mostrar por que essas "massas" no estavam sendo
alcanadas. Mas naquela noite ao enfrentar as massas ele se
perguntava se no era exatamente tal multido que se aproximava
de Jesus e da qual Ele se aproximava constantemente. O Mestre
sentia por ela profundo amor e compaixo, o que significava que
um genuno pregador deveria t-lo como exemplo e modelo, pois
"aos pobres foi anunciado o reino de Deus".  fcil amar um
indivduo pecador, especialmente se ele  um personagem
pitoresco ou interessante. Porm, amar uma multido heterognea
de pecadores  uma qualidade caracteristicamente crist.
      Quando terminou a reunio, no houve nenhum interesse
especial demonstrado. Ningum ficou na tenda aps a reunio. O
pblico rapidamente desapareceu e se espalhou, e os bares, que
ficaram quase vazios durante a reunio, voltaram a se agitar com a
presena dos freqentadores habituais. O Retngulo, como se
quisesse recuperar as vendas perdidas, recomeou a plena carga
suas suas noitadas habituais. O pequeno grupo que se dirigia ao
ponto de bonde, incluindo Maxwell, Virgnia, Raquel e Jasper
Chase, passou  frente de vrios bares e tabernas e pde
comprovar esse dolorosa situao.
      "Este lugar  terrvel", disse o ministro enquanto esperavam o
bonde. "Nunca imaginei que Raymond tinha uma chaga to
pestilenta.  inacreditvel que esta seja uma cidade cheia de gente
que se classifica como discpulos de Cristo."
    "O senhor acha que um dia se possa eliminar essa grande
maldio do alcoolismo?" perguntou Jasper Chase.
     'Tenho pensado ultimamente, como nunca fizera antes, sobre
o que o povo cristo poderia fazer para erradicar a maldio dos
botequins. Por que todos ns no agimos conjuntamente contra
isso? Por que os pastores e membros das igrejas de Raymond no
nos unimos como um s homem contra esse comrcio? Que faria
Jesus? Ficaria Ele calado? Votaria Ele em favor da liberdade desse
foco de crimes e mortes que  o alcoolismo?"
      Maxwell falava mais para si mesmo do que para os
companheiros. Lembrava-se de que sempre votara a favor da
concesso de licenas para a venda de bebidas, do mesmo modo
que o faziam quase todos os membros de sua igreja. Jesus teria
feito isso? Poderia Ele responder a essa pergunta? Se o Mestre
vivesse hoje na terra, pregaria e agiria contra a bebida? Como Ele
pregaria e agiria? Suponhamos que no agradasse ao povo em
geral pregar contra o lcool? Admitamos que os cristos
pensassem que, sendo impossvel extirpar o mal, o melhor que
teriam a fazer era receber as rendas de aluguel de um pecado
inevitvel. Ou consideremos a situao dos membros da igreja que
tivessem propriedades onde estariam instaladas vendas de bebidas,
como era sabido em Raymond -- que faria Jesus?
      O Rev. Maxwell subiu ao seu escritrio na manh seguinte
com esta questo parcialmente resolvida. Pensou nisso o dia
inteiro. Refletia ainda sobre o assunto e j havia chegado a
algumas concluses quando sua esposa lhe entregou o Dirio de
Notcias e ficou ali sentada enquanto Maxwell lia o jornal em voz
alta.
     O Dirio de Notcias era, na ocasio, o jornal mais influente
de Raymond, o que significava dizer que estava sendo publicado
num estilo to especial que seus assinantes nunca se viram to
atrados pelo jornal como agora. Inicialmente eles notaram a
ausncia da reportagem sobre a luta de boxe, e pouco a pouco
foram notando que o jornal j no publicava notcias sobre crimes
com descries detalhadas, ou escndalos da vida privada. Em
seguida notaram que os anncios de bebidas e cigarros tinham
sido eliminados, juntamente com alguns outros de carter
duvidoso. A supresso da edio do jornal aos domingos causou
mais comentrios do que todas as outra medidas, e agora era o
estilo dos editoriais que estava criando a maior excitao. Uma
citao da edio de segunda-feira mostrou o que Eduardo
Norman estava fazendo para cumprir sua promessa. O editorial
tinha o seguinte ttulo:


           O LADO MORAL DAS QUESTES POLTICAS



      "A direo do Dirio de Notcias sempre tem defendido os
princpios do grande partido poltico atualmente no poder e,
portanto, tem discutido todas as questes polticas de um ponto de
vista partidrio. De hoje em diante, para ser inteiramente sincera
com seus leitores, a direo apresentar e discutir todas as
questes do ponto de vista do certo e do errado. Em outras
palavras, a primeira pergunta da redao acerca das questes
polticas no ser: ' do interesse do nosso partido?' ou: 'Est de
acordo com os princpios professados pelo nosso partido?' mas sim:
'Esta medida est de acordo com os ensinos e o esprito de Jesus,
o autor do mais elevado ideal apresentado aos homens?' Para ser
perfeitamente claro, o lado moral de todas as questes polticas e
sociais ser considerado o mais importante e ser adotado o
seguinte princpio bsico: as naes, tanto como os indivduos,
esto sob a mesma obrigao, como primeira regra de vida, de
fazer todas as coisas para a glria de Deus.
      "O mesmo princpio ser adotado por nossa redao com
referncia aos candidatos a lugares de responsabilidade e
confiana na Repblica. Sem considerar a poltica partidria, a
direo do Dirio de Notcias far tudo ao seu alcance para levar os
melhores homens ao poder e no apoiar, conscientemente,
qualquer candidato que seja indigno, embora sustentado pelo
partido. A primeira pergunta, tanto a respeito do homem como a
respeito da medida, ser: " ele o homem prprio para o lugar? 
uma boa pessoa e com as habilitaes necessrias?  a medida
justa?'"
      O texto acima abrangia outros aspectos, na mesma linha de
idias, mas citamos o suficiente para mostrar o carter do editorial.
Centenas de homens de Raymond haviam lido e esfregaram os
olhos surpreendidos pelo tom da matria. Uma parte do pblico
leitor escreveu imediatamente ao Dirio de Notcias, solicitando 
diretoria o cancelamento de sua assinatura. Entretanto, o jornal
continuava a ser editado e era ansiosamente lido por toda a cidade.
Ao cabo de uma semana Eduardo Norman notou muito bem que
estava perdendo rapidamente um grande nmero de assinantes.
Ele enfrentou as condies calmamente, embora Clark, o editor
responsvel, inflexivelmente tenha prenunciado a bancarrota do
jornal, mormente por causa do editorial de segunda-feira.
      Nesta noite, quando Maxwell lia para sua esposa, pode
constatar em quase todas as colunas evidncias da obedincia
conscienciosa de Norman ao seu compromisso. No se viam
expresses vulgares nem ttulos sensacionalistas. A matria
exposta no corpo da notcia correspondia perfeitamente ao que
estava expresso no ttulo. Observou ele em duas colunas que os
reprteres estavam assinando seus artigos e havia um progresso
visvel na dignidade e estilo de suas colaboraes.
     "Assim, Norman est comeando a exigir que seus reprteres
assinem seu trabalho. Ele havia falado comigo sobre isso.  uma
boa coisa. Ele atribui a seus autores a responsabilidade por aquilo
que afirmam, alm de melhorar o padro do trabalho realizado.
Uma coisa boa para o pblico e para os escritores."
     De repente Maxwell fez uma pausa. Sua esposa parou o que
estava fazendo e olhou fixamente para ele. "Escute isto, Maria",
disse ele, com oz trmula:


      "Esta manh Alexandre Powers, gerente das oficinas da
estrada de ferro desta cidade, enviou sua demisso  diretoria,
alegando que tinham cado em suas mos certas provas de
violao das leis comerciais e tambm das leis do estado criadas
recentemente para impedir certas fraudes nas estradas de ferro.
     "O gerente diz, em sua renncia, que no pode por mais
tempo e conscienciosamente reter as informaes que possui
contra a estrada e acrescenta que entregou as provas s
autoridades competentes, s quais compete agora agir na forma da
lei.
     "O Dirio de Notcias deseja dar sua opinio sobre este ato do
Sr. Powers. Em primeiro lugar, o funcionrio nada tem a ganhar
com isto. Perdeu um bom emprego, voluntariamente, quando podia
conserv-lo, guardando silncio. Em segundo lugar, cremos que
sua ao deve receber a aprovao de todas as pessoas honestas
que desejam ver a lei obedecida e os transgressores punidos. Num
caso como este,  quase impossvel obter provas contra uma
companhia de estradas de ferro, porque os empregados que
conhecem os fatos criminosos julgam no ser de sua conta
comunic-los s autoridades. O resultado desta negao de
responsabilidade  desmoralizar todos os jovens que se empregam
nas estradas. A direo do Dirio de Notcias lembra-se de uma
declarao feita por um dos diretores da companhia nesta cidade,
proferida h pouco tempo, isto , que quase todos os empregados
de certo departamento da companhia sabiam que grandes somas
de dinheiro eram ganhas por meio de hbeis violaes das leis
comerciais e que esses empregados admiravam-se de tal
sagacidade, afirmando que na mesma posio fariam exatamente a
mesma coisa.
     "Esse estado de coisas  destruidor dos mais nobres e
elevados ideais da vida; e nenhum moo pode viver em tal
atmosfera de ilegalidade e desonestidade, sem corromper o seu
carter.
      "Nossa opinio  que o Sr. Powers fez a nica coisa que um
cristo podia fazer. Prestou um bom e til servio ao estado e ao
pblico em geral. Nem sempre  fcil determinar os deveres do
indivduo para com a sociedade. Nesse caso, no h dvida em
nosso esprito: o passo dado pelo Sr. Powers recomenda-o a todo
homem que cr na lei e nas suas sanes. H ocasies em que o
indivduo deve agir pelo povo, mesmo  custa de grandes
sacrifcios. O Sr. Powers certamente ser mal compreendido e mal
julgado; porm, no h dvida de que seu procedimento ser
aprovado por todos os cidados que desejam ver submetidos  lei
no s o mais fraco dos indivduos, como tambm as maiores
corporaes. O Sr. Powers fez tudo o que um cidado leal e
patriota podia fazer. Agora, as autoridades que cumpram seu
dever."
                                NOVE
        Henrique Maxwell terminou a leitura e colocou o jornal de
lado.
    "Devo conversar com Powers. Este desfecho  o resultado do
cumprimento de sua promessa."
      Levantou-se e caminhou em direo  porta. Sua esposa
interveio:
        "Voc acha, Henrique, que Jesus faria o que o sr. Powers fez?"
     Maxwell ficou pensando. Depois respondeu pausadamente.
"Sim, penso que Ele faria. De qualquer modo, Powers decidiu
assim e cada um de ns que assumiu o compromisso entende que
no est decidindo sobre a provvel conduta de Jesus para outras
pessoas, mas somente para si mesmo."
     "E a famlia? Como a sra. Powers e sua filha Clia vo receber
a notcia?"
    "Da pior forma possvel, sem dvida. Essa ser a cruz de
Powers. Elas no vo aceitar seu motivo."
    Maxwell saiu e andou at a quadra seguinte, onde Powers
morava. Para seu alvio, o prprio Powers veio abrir a porta.
     Apertaram-se as mos silenciosamente, compreendendo
instantaneamente um ao outro sem dizer uma palavra. Nunca
antes tinha havido um lao de unio to forte entre o pastor e sua
ovelha.
     "O que pretende fazer agora?" perguntou Maxwell depois de
conversarem sobre os fatos em questo.
      "O senhor se refere a um outro emprego? No tenho planos
por enquanto. Posso retornar ao meu antigo trabalho como
telegrafista. Minha famlia no sofrer, exceto pelo aspecto social."
      Powers falava com calma mas aparentava tristeza. Henrique
Maxwell no precisou perguntar como se sentiam sua esposa e sua
filha. Sabia muito bem o que ele devia ter passado.
      H um assunto que gostaria que o senhor considerasse",
disse Powers depois de uma pausa. "Trata-se do trabalho iniciado
nas oficinas. Pelo que sei, a companhia no faz nenhuma objeo 
sua continuidade.  uma das contradies do mundo das estradas
de ferro, em que a cooperao e influncia das Associaes Crists
de Moos e outras entidades crists so encorajadas por elas, e, ao
mesmo tempo, os atos mais anticristos e ilegais so cometidos
pela direo. Naturalmente  bom que tenham empregados que
sejam sbrios, honestos e cristos. Por isso, estou certo de que o
chefe da mecnica ter a mesma cortesia mostrada a mim no uso
do salo. Mas, o que desejo que o senhor faa, pastor,  assegurar
que meu plano seja realizado. Posso contar com o senhor? A
primeira impresso deixada entre os homens foi muito favorvel.
V at l, por favor, sempre que puder. Mantenha o Milton Wright
interessado em fornecer alguma coisa para o servio de caf. bem
como livros e jornais para a mesa de leitura. O senhor poder fazer
isso?
     "Sim", respondeu Maxwell. Ele se demorou um pouco mais.
Antes de se despedir, orou em companhia de Powers, e se
separaram com o mesmo silencioso aperto de mo, que parecia um
novo smbolo de fraternidade como discpulos do Mestre.
     O pastor da Primeira Igreja retornou ao lar profundamente
consternado pelos acontecimentos da semana. Gradualmente
transparecia em sua mente que o compromisso de fazer o que
Jesus faria estava desencadeando uma revoluo em sua igreja
que se irradiava por toda a cidade. Cada dia que passava surgiam
conseqncias mais srias resultantes da prtica daquele
compromisso. Maxwell acreditava que veria ainda muitas coisas.
Estavam, de fato, ainda bem no incio dos acontecimentos que se
destinavam a mudar a histria de centenas de famlias no
somente em Raymond, mas por todo o pas. Enquanto pensava em
Norman, Raquel e Powers, e nos frutos de suas respectivas aes,
no podia deixar de sentir um intenso interesse no provvel efeito
que haveria se todas as pessoas da Primeira Igreja que aceitaram o
desafio o mantivessem fielmente. Iriam eles cumprir a promessa ou
alguns retrocederiam quando a cruz se tornasse mais pesada?
     Ele ainda formulava mentalmente esta pergunta na manh
seguinte quando recebeu em seu escritrio a visita do presidente
da Sociedade de Esforo Cristo de sua igreja.
     "No era minha inteno importun-lo com meu caso", disse
o jovem Morris entrando logo no assunto, "mas pensei que o
senhor poderia aconselhar-me um pouco, Rev. Maxwell."
     "Agradeo sua visita. Continue, Frederico." Ele conhecia o
jovem desde o primeiro ano do seu pastorado, gostava dele e
respeitava-o pelos servios eficientes que prestava  igreja.
     "Bem, o caso  que estou desempregado. O senhor sabe que
trabalhei como reprter do matutino SENTINELA desde que me
graduei no ano passado. Acontece que no ltimo sbado o sr. Burr
pediu-me que fosse domingo de manh apurar os pormenores do
assalto a um trem e, em seguida, escrever a notcia para uma
edio extraordinria que sairia segunda-feira de manh,
exatamente para noticiar o fato antes do Dirio de Notcias.
Recusei-me a cumprir essa tarefa e o sr. Burr me demitiu. Estava
de mau humor, se no imagino que no teria feito isso. Ele sempre
me tratou bem. O reverendo acha que Jesus faria o que fiz?
Pergunto porque alguns colegas me disseram que fui um idiota por
no ter feito o trabalho. Penso que um cristo age por motivos que
parecem estranhos para os outros, s vezes, mas no so idiotices.
O que o senhor acha disso?"
     "Penso que cumpriu seu compromisso, Frederico. No posso
acreditar que Jesus faria uma reportagem para um jornal num
domingo, como voc foi solicitado a fazer."
     "Obrigado, irmo Maxwell. Estava me sentindo um tanto
perturbado por causa disso, mas, quanto mais penso, mais
tranqilo me sinto."
     Morris levantou-se para ir embora. Maxwell tambm ergueu-
se da cadeira e colocou a mo amavelmente no ombro do jovem.
     "O que pretende fazer agora, Frederico?"
    "Ainda no sei. Estou pensando em ir para Chicago ou
alguma outra cidade grande."
     "Por que no tenta um trabalho no Dirio de Notcias?
    "Eles no tm vaga disponvel para o meu trabalho. Nem
pensei em procur-los."
     Maxwell ficou pensativo por um instante.
    "Vamos juntos at o Dirio de Notcias. Vamos saber o que
Norman pode dizer a este respeito."
      Alguns minutos depois Eduardo Norman recebia em seu
escritrio o Pastor Maxwell e o jovem Morris, e o pastor foi logo
dizendo a razo da visita.
     "Posso dar-lhe um lugar no Dirio", disse Norman com seu
olhar penetrante suavizado pelo sorriso que se transformava em
simpatia. "Estou precisando de reprteres que no trabalhem aos
domingos. E, alm disso, tenho planos especiais de reportagem,
que acredito possam ser desenvolvidos por um profissional que faz
parte do grupo que assumiu o compromisso com Jesus."
     Atribuiu a Morris uma tarefa definida, e Maxwell retornou a
seu escritrio sentindo aquele tipo de satisfao que a pessoa
sente por ter sido instrumento nas mos de Deus para encontrar
uma atividade ainda melhor para uma pessoa desempregada.
      Ele tinha a inteno de ir diretamente para casa, mas no
trajeto passou por um dos armazns de Milton Wright. Sua idia
era somente cumprimentar seu congregado e desejar-lhe sucesso
nas reformas que estava introduzindo em suas atividades. Ao
entrar no estabelecimento, porm, Milton Wright insistiu em det-
lo para falar de seus novos planos. Maxwell interrogava-se se
aquele era o mesmo Milton Wright que conhecera --
eminentemente prtico, capaz, operando de acordo com os padres
e cdigos comerciais usados nos negcios no mundo inteiro, e
visando, acima de tudo, atingir os alvos financeiros traados para
a obteno dos resultados projetados.
      "No  preciso dizer, reverendo, que fui compelido a
revolucionar todo o mtodo de meus negcios desde que assumi
aquele compromisso. Realizei muitas e grandes coisas durante os
ltimos vinte anos neste negcio que estou certo de que Jesus no
faria. Mas isto  uma pequena parcela do nmero de coisas que
Jesus teria feito em meu lugar. Meus pecados de comisso no
foram tantos como os pecados de omisso em minhas relaes
comerciais."
     "Qual foi sua primeira mudana nesta nova fase?" perguntou
o pastor, que no estava com pressa de voltar ao seu escritrio. 
medida que a conversa com Milton Wright prosseguia, ele reunia
material interessante para um sermo, de modo que o trabalho
que estava desenvolvendo em casa podia esperar.
      "Minha primeira mudana, pensei, era em mim mesmo. Eu
tinha de mudar a maneira de tratar meus empregados. Cheguei
aqui na segunda-feira de manh depois daquele clebre domingo e
perguntei-me: 'Como seriam as relaes de Jesus com estes
escriturrios, contabilistas, office-boys, carregadores, vendedores?
Tentaria Ele estabelecer algum tipo de relao humana com eles
diferente daquela que venho mantendo durante todos estes anos?
Respondi prontamente: 'Sim.' Ento veio-me a segunda pergunta:
'Como seria essa relao e como deveria eu introduzi-la?' No via
uma sada para resolver isso, de modo que decidi convidar todos
eles para uma conversa na tera-feira  noite no almoxarifado.
Muitas coisas boas aconteceram naquela reunio. Seria difcil e
demorado contar tudo o que aconteceu. Procurei falar com eles
como Jesus falaria. Foi difcil para mim, pois no estava
acostumado com esse tipo de contato com meu pessoal, por isso
cometi alguns erros. Mas o reverendo custar a acreditar nos
efeitos resultantes daquela reunio para alguns deles. Antes de
encerrar nossa conversa, pude ver mais de uma dzia deles com
lgrimas escorrendo em suas faces. E continuei perguntando 'Que
faria Jesus?' e quanto mais perguntava mais me sentia prximo e
ntimo e amistoso em relao queles homens que trabalharam
para mim todos estes anos. Cada dia surge uma coisa nova e estou
agora, precisamente, no meio de uma reforma de todo o
estabelecimento. Sou praticamente ignorante de todos os planos de
cooperao e sua aplicao nos negcios, de modo que estou
tentando obter informao de todas as fontes possveis.
Recentemente fiz um estudo especial da vida de Titus Salt,
proprietrio do grande moinho de Bradford, Inglaterra, que depois
construiu aquela cidade-modelo s margens do rio Aire. O estudo
desses planos vai ajudar-me em muitos aspectos, mas ainda no
cheguei a concluses definitivas sobre todos os detalhes. No estou
muito familiarizado com os mtodos de Jesus, mas estou me
preparando. E aqui j tenho um incio."
      Wright procurou avidamente nos escaninhos de              sua
escrivaninha, de onde por fim retirou uma folha de papel.
     "Fiz um esboo de uma espcie de programa que imagino que
Jesus usaria para dirigir um estabelecimento como este. Gostaria
de ter sua opinio sobre ele."
   O QUE JESUS FARIA PROVAVELMENTE SE ESTIVESSE NO
         LUGAR DO COMERCIANTE MILTON WRIGHT


     1. Ele se dedicaria a este negcio acima de tudo com o
propsito de glorificar a Deus, e no com o objetivo principal de
ganhar dinheiro.
     2. Todo o dinheiro resultante do empreendimento no seria
considerado seu prprio, e sim como um fundo a ser usado para o
bem da humanidade.
     3. Suas relaes com seus empregados seriam de grande
afeto e apoio. Ele deveria ver neles almas a serem salvas. Este
propsito estaria sempre acima do desejo de auferir lucros
financeiros.
     4. Nunca praticaria um nico ato desonesto ou duvidoso e
jamais prejudicaria, nem mesmo remotamente, um concorrente do
mesmo ramo com a finalidade de obter qualquer vantagem.
    5. O princpio da generosidade e assistncia ou cooperao na
conduo dos negcios estaria presente em todos os detalhes.
     6. Estes princpios norteariam e moldariam todo o plano de
suas relaes com seus empregados, com o pblico comprador e
com o mundo dos negcios em geral aos quais est ligado.
     Henrique Maxwell leu vagarosamente este plano de ao,
recordando-se de sua prpria tentativa no dia anterior de alinhar
de forma concreta seus pensamentos sobre a provvel atitude de
Jesus. Estava muito pensativo quando levantou os olhos e deu
com o olhar indagador e vido de Milton Wright.
     "Voc acredita que poder continuar ganhando dinheiro com
este plano?"
     "Acredito sim. O senhor no acha que o altrusmo inteligente
deve ser mais sbio do que o egosmo enganoso? Se meus
colaboradores comearem a compartilhar os lucros do negcio e,
mais do que isto, receber da direo demonstraes de carinho,
no se tornaro mais ativos, mais abnegados, mais cuidadosos,
mais diligentes, mais fiis e menos esbanjadores?"
      "Sim, acho que sim. Porm a grande maioria dos
comerciantes no pensa assim, no  verdade? Estou falando de
modo geral. Como voc vai se relacionar com um mundo egosta,
interesseiro, que tenta ganhar dinheiro sem nenhuma tica?"
     "Isto complica meu plano, eu sei."
     "Seu plano inclui o que est se tornando conhecido como
cooperao?" interrompeu Maxwell.
     "Sim, at onde posso enxergar, ela funciona. Como j lhe
disse, estou estudando os detalhes cuidadosamente. Estou
totalmente convencido de que Jesus em meu lugar seria
absolutamente abnegado. Ele amaria todos os seus empregados.
Consideraria que o propsito ltimo de todo o negcio seria uma
cooperao mtua, e dirigiria as coisas de tal modo que o reino de
Deus fosse nitidamente o alvo principal a ser objetivado. Estou
trabalhando nestes princpios gerais, como j adiantei. Ainda vou
precisar de tempo para definir os detalhes."
     Quando     Maxwell    finalmente    se    despediu,    estava
profundamente impressionado com a revoluo que estava em
franca operao naquele empreendimento.  medida que
caminhava dentro do estabelecimento podia perceber sinais do
novo esprito que ali se implantava. No havia dvida de que o
novo estilo de relacionamento de Milton Wright com seus
empregados havia to rapidamente -- em apenas duas semanas --
transformado todo o negcio. E isso podia ser visto na aparncia e
na conduta de seus empregados.
      "Se ele continuar assim ser brevemente um dos pregadores
mais influentes de Raymond", pensou Maxwell ao chegar ao seu
escritrio. Uma dvida, porm, atravessou sua mente ao imaginar
que a continuao desse estilo de administrao poderia levar a
empresa a perder dinheiro, como parecia provvel que acontecesse.
Ento orou para que o Esprito Santo, que se manifestara a ele
mesmo com grande poder na companhia dos discpulos da
Primeira Igreja, permanecesse com eles todos. E com essa prece
em seus lbios e em seu corao comeou a preparar um sermo
que deveria pronunciar no domingo apresentando a seu povo a
questo do alcoolismo em Raymond, como acreditava que Jesus
faria agora. Ele nunca abordara esse tema antes, e sabia que as
coisas que dissesse levariam a srios resultados. Apesar disso,
continuou seu trabalho, e a cada sentena que escrevia ou
esboava era precedida da pergunta "Jesus diria isto?" Como
habitualmente fazia em seu escritrio, Maxwell se ps de joelhos.
Ningum, exceto ele prprio, podia saber o que aquilo significava.
Quando fizera ele isso na preparao de seus sermes antes da
mudana que se operou em seu interior sobre o novo sentido do
discipulado cristo? Ele no mais pensava no tom e nos gestos
dramticos do sermo e seu impacto sobre o auditrio. A grande
questo agora era esta: "Que faria Jesus?"
     A noite de sbado no Retngulo testemunhou algumas das
cenas mais extraordinrias que o evangelista Gray e sua esposa
haviam presenciado. As reunies aumentavam a cada noite,
especialmente por causa dos cnticos entoados por Raquel.
Qualquer estranho que passasse pelo Retngulo durante o dia
ouviria de um modo ou de outro falar das reunies. No se podia
dizer que at aquele sbado  noite tivesse havido qualquer
reduo nas blasfmias, na impureza e nas grandes bebedeiras. O
Retngulo no podia ainda reconhecer-se como um lugar melhor
nem os mesmo com os cnticos que amenizavam seus modos
grosseiros. O lugar era muito orgulhoso de seu estilo "barra
pesada". Mas, a contragosto, ia aos poucos cedendo a um poder
maior, que ele nunca pde avaliar e que no conhecia o bastante
para resistir-lhe.
     Gray havia recuperado a voz e, assim, neste sbado ele
poderia falar. Entretanto, no podia ainda forar sua voz, de modo
que, para ser ouvido por todos os presentes na tenda, era preciso
que se fizesse silncio. Aos poucos o auditrio foi compreendendo
que esse homem lhes estava falando havia j vrias semanas e
devotando seu tempo e suas foras para lhes transmitir um
conhecimento de um Salvador com um amor e abnegao
totalmente desinteressados. Nessa noite a grande multido estava
to comportada como o atencioso auditrio de Henrique Maxwell
costumava ser. Em volta da tenda estava mais congestionado e os
bares ficaram praticamente vazios. O Esprito Santo descera afinal
e Gray sabia que uma das grandes oraes de sua vida estava
sendo agora respondida.
     Raquel, Virgnia e Jasper Chase chegaram novamente juntos
esta noite, desta vez acompanhados do Dr. West, que tinha
dedicado todo o seu tempo disponvel no Retngulo tratando
caridosamente de alguns doentes. O cntico de Raquel era a
melhor parte da reunio, sua voz era to maravilhosa como nunca,
na apreciao de Virgnia e Jasper Chase. Virgnia tocava o rgo,
Jasper sentava-se no banco da frente olhando para Raquel, e o
Retngulo inteiro, como uma s pessoa, no tirava o olhar da
plataforma enquanto ela cantava:


     "Jesus, Senhor, me chego a ti;
     Oh! d-me alvio mesmo aqui!
     O teu favor estende a mim,
     Aceita um pecador!


      Gray disse umas poucas palavras. Estendeu seus braos
num gesto de convite. E pelos dois corredores da tenda homens e
mulheres, pobres criaturas consumidas pelo pecado, dirigiam-se
sfregas e contritas para a frente da plataforma. Uma mulher
cambaleante da rua estava perto do rgo. Virgnia fitou-a e, pela
primeira vez em sua vida, a jovem rica imaginou o que
representava Jesus para aquela mulher pecadora, e este
pensamento veio de repente, levando-a a lembrar-se do novo
nascimento que tornava possvel qualquer transformao. Virgnia
deixou o rgo, foi at ela, olhou-a face a face tomou-lhe as mos.
A mulher, ainda jovem, tremia, e em seguida caiu de joelhos
soluando, com a cabea apoiada atrs de um banco  sua frente e
ainda segurando a mo de Virgnia, que, num momento de
hesitao, ajoelhou-se ao lado dela ambas com as cabeas
inclinadas e encostadas uma na outra.
     Quando o povo se amontoou em duas fileiras em volta da
plataforma, muitos ajoelhados e chorando, um homem bem vestido,
bem diferente dos outros, caminhou por entre os bancos e
ajoelhou-se ao lado do bbado que havia perturbado a reunio em
que o Pastor Maxwell falara. Ele ajoelhou-se a uns dois metros de
Raquel Winslow, que continuava cantando em voz baixa. E quando
ela se voltou por um momento e olhou em sua direo, ficou
admirada de ver Rollin Page. Por um momento tremeu-lhe a voz,
mas prosseguiu:


     Eu venho como estou;
     Eu venho como estou;
     Porque Jesus por mim morreu,
     Eu venho como estou.


   Sua voz era a de um apelo divino, e o Retngulo, naqueles
momentos, era levado em direo ao porto da graa redentora.



                              DEZ
             "Se algum me serve, siga-me" (Jo 12.26).


      Era quase meia-noite quando terminou a reunio no
Retngulo. Gray permaneceu ali durante boa parte da madrugada
de domingo, orando e conversando com um pequeno grupo de
convertidos que, na grande experincia de sua vida nova, se
apegaram ao evangelista com tal sensao de desamparo que ficou
impossvel ao evangelista deix-los. Era como se eles dependessem
dele para ser salvos da morte fsica. Entre os convertidos estava
Rollin Page.
     Virgnia e seu tio tinham deixado a tenda por volta de onze
horas a caminho de casa, e Raquel e Jasper Chase foram com eles
at  altura da avenida em que Virgnia morava. O Dr. West
caminhou mais um pouco at sua casa, enquanto Jasper Chase
acompanhou Raquel at onde ela morava.
      Passava um pouco das onze. Ao bater meia-noite Jasper
Chase estava sentado em seu quarto, olhando seus papis sobre a
escrivaninha, relembrando persistentemente seus ltimos
dolorosos trinta minutos.
      Ele acabara de declarar seu amor a Raquel, e ela no
correspondera. Seria difcil saber o que havia de to forte naquele
impulso que o levou a falar com ela nessa noite. Ele cedera ao seu
sentimento um tanto descontrolado, sem avaliar friamente as
conseqncias, to seguro se sentia da afeio da moa por ele.
Tentava recordar a expresso do rosto dela quando comeou a
falar sobre seus sentimentos.
     Nunca sua beleza e a fora de sua voz o cativaram tanto como
nessa noite. Enquanto ela cantava, ele tinha os olhos e os ouvidos
somente voltados para ela. A tenda estava apinhada de gente
numa grande confuso de rostos, e ele l estava sentado,
espremido por uma massa humana, mas nada disso tinha sentido
para ele. Ele sentiu que chegara naquela noite o momento de
expressar-lhe, de viva voz, seu amor, porm sabia que somente
poderia falar com ela quando estivessem a ss.
      Agora que j tinha falado, sentia que tinha feito um juzo
errneo tanto com referncia a Raquel como em relao 
oportunidade. Ele sabia, ou pensava que sabia, que ela tinha
comeado a se interessar um pouco por ele. No era segredo entre
eles que a herona do primeiro romance de Jasper era o tipo ideal
da prpria Raquel, e o heri da histria era ele mesmo, e ambos se
amaram no livro, mas Raquel nunca fez objeo a isso. Ningum
mais sabia disso. Os nomes dos personagens e as circunstncias
no os identificavam. Raquel somente percebeu quando ele enviou-
lhe um exemplar do livro, insinuando na dedicatria seu amor por
ela. mas Raquel no se zangou. Isto se passara fazia quase um ano.
      Nesta noite ele relembrava a cena entre os dois, cada inflexo
de sua voz e cada movimento que no se apagavam de sua
memria. Recordava-se, por exemplo, que tinha comeado a falar
com ela exatamente naquele ponto da avenida onde, poucos dias
antes, tinha cruzado com Raquel, que estava acompanhada de
Rollin Page. Lembrava-se da curiosidade de saber o que Rollin
estaria dizendo a ela.
     "Raquel", Jasper dissera, e era a primeira vez que a tratava
pelo primeiro nome, "eu no sabia at esta noite o quanto a amo.
Por que ocultar por mais tempo o que voc pode ver em meus olhos?
Voc sabe que a amo como a prpria vida. No conseguiria
esconder isto por mais tempo, mesmo que quisesse."
       O primeiro indcio de recusa que ele teve foi sentir em seu
brao que o brao dela tremeu. Raquel esperou que ele falasse sem
fit-lo nem desviar-lhe o rosto. Ela tinha os olhos fixos num ponto
qualquer  distncia. Sua voz era triste porm firme e calma
quando falou.
     "Por que voc fala nisso agora, depois do que vimos esta
noite?"
     "Bem, o que..." gaguejou o jovem e ficou em silncio.
     "Raquel retirou seu brao do brao de Jasper, mas
continuaram caminhando lado a lado. Ento ele exclamou num
tom confrangedor de algum que comea a perceber uma grande
perda quando esperava uma grande alegria.
    "Raquel! Voc no me ama? No  meu amor to sagrado
como a coisa mais santa nesta vida?"
      Ela deu alguns passos depois do desabafo de Jasper.
Passaram perto de um poste de iluminao. Seu rosto estava
plido e belo. Ele fez um movimento para retomar seu brao, mas
ela se afastou um pouco dele.
      "No", respondeu ela. "Houve um tempo em que talvez fosse
diferente, mas no devia falar nisso hoje."
      Ele tinha sentido a resposta em suas palavras, pois era
bastante sensvel. Outra resposta vazia ou inconvincente no o
satisfaria. Queria tudo, e meias palavras talvez lhe causassem um
mal maior.
      Apesar disso, como uma retirada honrosa, ele ainda
perguntou em voz baixa, que ela parece no ter ouvido: "Algum dia,
quem sabe, quando eu for digno?" Em seguida se separaram. Ela
foi para sua casa e ele se lembrava nitidamente de que nem uma
boa-noite se desejaram.
      Recordando ainda a cena to breve quanto amarga, Jasper
no se perdoava pela louca precipitao. No observara que a
moa estava absorta em outra paixo que foi a grande
demonstrao do Esprito na tenda. Para ela tinha sido um
acontecimento memorvel, acima de qualquer emoo puramente
humana. Na verdade, ele no a conhecia o suficiente para entender
profundamente o motivo de sua recusa. Quando o relgio da
Primeira Igreja soava uma hora ele se achava ainda sentado 
escrivaninha olhando a ltima pgina do manuscrito de seu
romance inacabado.
     Raquel subiu para seu quarto e tambm recordava os eventos
da noite, mas com emoes diferentes e conflitantes. Ela teria
alguma vez amado Jasper Chase? Sim. No. Por um momento ela
considerava que tinha afugentado a felicidade de sua vida em
conseqncia de sua deciso. Em outro momento sentia uma
estranha sensao de alvio por ter agido como agiu. Havia nela
uma profunda emoo: a resposta daquelas criaturas miserveis
na tenda, influenciadas pelo poder maravilhoso do Esprito atravs
do uso de sua voz e dos apelos do evangelista. Aquelas cenas
causaram nela uma profunda e inesquecvel impresso, porque ela
tambm sentiu o poder do Esprito. No momento em que Jasper
tinha citado seu nome e ela percebeu que ele lhe estava falando de
seu amor por ela, sentiu repugnncia por ele. Era seu dever cristo
respeitar    os   eventos    sobrenaturais que      tinham    todos
testemunhado havia pouco tempo. Ela sentia que no era o
momento de absorver-se com qualquer coisa que no fosse a glria
divina agindo naquelas converses. A lembrana de que, enquanto
cantava com grande paixo pelo desejo de arrancar do pecado
aquele povo que lotava a tenda, Jasper a escutava absorvido
somente em seu amor. dando com isso uma prova de irreverncia e
descaso pelas almas perdidas. Raquel no conseguia definir
exatamente seus sentimentos, mas supunha que, se ele no
tivesse falado com ela nesta noite, ela poderia ainda sentir por ele
o mesmo que sempre sentira. Qual era o seu sentimento? O que
ele representava para ela? Teria ela cometido um erro? Foi  sua
estante e tirou o romance que Jasper lhe havia presenteado. Seu
rosto corava quando repassava certas pginas que j havia lido
vrias vezes, sabendo que Jasper tinha escrito para ela. Leu as
mesmas passagens de novo. Na realidade, o livro no tocou
significativamente seu corao. Fechou-o e colocou-o sobre a mesa.
Voltou ento seus pensamentos novamente para a tenda. Aquelas
faces de homens e mulheres tocados pela primeira vez pela glria
do Esprito -- que coisa maravilhosa era a vida nesses momentos!
A regenerao completa revelada no olhar daquela gente antes
desclassificada, vil, embriagada, ajoelhando-se para receber uma
nova vida de propsito e pureza, uma nova vida voltada para a
eternidade, significava realmente uma prova da existncia de algo
superior neste mundo, muito acima de nossa compreenso. E o
rosto de Rollin Page ao lado daquele miservel arrancado do lodo.
     Lembrava-se, como se estivesse vendo outra vez, Virgnia
chorando e abraando seu irmo convertido. Via o evangelista
Gray ajoelhado e aquela moa que Virgnia recebera como irm
enquanto sussurrava algo em seu ouvido antes da sada. Todas
essas imagens desenhadas pelo Esprito Santo das tragdias
humanas elevadas s alturas ali no local mais abandonado de
Raymond, avivavam-se agora na memria de Raquel, uma
lembrana to recente que seu quarto parecia naquele momento
conter todos os personagens dessas cenas e seus movimentos.
      "No! No!" dizia ela em voz alta. "Ele no tinha o direito de
falar daquele jeito! Ele devia ter respeitado o lugar onde nossos
pensamentos deveriam estar. Estou certa de que no o amo -- no
o suficiente para lhe dar minha vida!"
      Jasper Chase era uma pgina virada na vida de Raquel.
Avultava de novo em sua lembrana a extraordinria experincia
da tenda, que ofuscava todas as demais coisas. Aquela
impressionante evidncia da ao do Esprito no Retngulo --
talvez a mais grandiosa demonstrao da fora da evangelizao
em todos os tempos em Raymond --  o que ocupava a mente e o
corao de Raquel. Da a razo principal de seu gesto em relao 
tentativa leviana de Jasper Chase ao pretender conquist-la,
atitude que se amesquinhou diante da glria de um cu aberto aos
pecadores.
     A populao de Raymond despertou na manh de domingo
sentindo ainda os efeitos dos ltimos acontecimentos que
continuaram revolucionando os hbitos conservadores da cidade.
A atitude de Alexandre Powers na questo das fraudes ocorridas
na empresa ferroviria causou sensao no somente em Raymond,
mas em todo o pas. As freqentes mudanas polticas e editoriais
introduzidas no Dirio de Notcias por Eduardo Norman
alarmaram a comunidade e provocaram mais comentrios do que
quaisquer eventos polticos recentes. A notcia de que Raquel
Winslow estava cantando nas reunies do Retngulo alvoroou a
sociedade e excitou a curiosidade de todas as suas amigas.
      A atitude de Virgnia comparecendo todas as noites com
Raquel no Retngulo, deixando em conseqncia de participar dos
eventos mundanos da alta sociedade, forneceu material abundante
para muito mexerico e dvida. Alm desses fatos, que diziam
respeito a esse grupo de pessoas bem conhecidas e relacionadas,
houve por toda a cidade em muitos lares, bem como nos crculos
comerciais e sociais, acontecimentos estranhos. Quase cem
pessoas da igreja de Henrique Maxwell assumiram o compromisso
de fazer seja o que for somente depois de fazer a pergunta "Que
faria Jesus?", resultando, em muitos casos, atitudes inacreditveis.
A cidade estava alvoroada como nunca acontecera antes. E para
encerrar a semana ocorreu uma grande manifestao religiosa no
Retngulo, culminando com a converso de aproximadamente
cinqenta pessoas dentre os piores indivduos da vizinhana.
Converteu-se tambm na mesma noite o jovem Rollin Page,
conhecido freqentador da sociedade e dos clubes.
      Aps a sucesso desses eventos durante a semana era de se
esperar que a Primeira Igreja reunisse no culto matinal numerosas
pessoas predispostas e sensveis a qualquer grande verdade
emanada do plpito. A maior transformao havida na igreja dizia
respeito ao prprio ministro, a partir do dia em que props 
congregao a imitao do exemplo de Jesus em todos os atos e
pensamentos dele e dos fiis. Suas ardentes e dramticas
pregaes j no impressionavam seu auditrio. Aquele estilo
trabalhado, os trejeitos, as feies do rosto, as entonaes da
voz -- que o caracterizaram at poucas semanas antes -- deram
lugar a mensagens candentes, no mais peas oratrias.
Prevaleciam em seus sermes o amor, a paixo, a humildade, a
candura, o anelo, o entusiasmo, o sentimento, que substituam o
orador proeminente. Ele era agora a voz transmitindo o evangelho
vivo de Deus. Suas oraes eram diferentes daquelas que o pblico
se acostumara a ouvir. Eram freqentemente interrompidas, sem o
refinamento da linguagem e at com alguns erros gramaticais.
Quando foi que o pastor se esqueceu de sua oratria impecvel e
de suas oraes irrepreensveis do passado? Ele sempre fora cioso
e orgulhoso de sua correo na oratria e nas oraes. Seria
possvel que agora tenha abandonado o esmero na dico, no
refinamento da frase, na construo das idias, tendo decidido
condenar-se por sua maneira rebuscada e precisa que encantava
os ouvidos?  bem provvel que ele no mais se preocupasse tanto
com tudo isso. A mudana bsica foi o seu novo propsito de
transmitir a mensagem de Deus. Em seu desejo intenso e sincero
de transmitir a verdade ao rebanho levou-o no a esquecer a boa
linguagem, mas a enfatizar a essncia do evangelho. A qualidade
do fraseado dera lugar  qualidade intrnseca da mensagem. Com
ou sem pequenos erros, a verdade  que nunca suas oraes foram
to eficazes como agora.
     H ocasies em que um sermo tem um valor e um poder
devidos s condies da audincia e no a qualquer novidade ou 
eloqncia das palavras proferidas ou dos argumentos
apresentados. Nesta manh havia predisposio dos presentes de
ouvi-lo pregar contra o alcoolismo, conforme deliberao que
tomara na semana anterior. Maxwell no dispunha de qualquer
novidade para falar sobre a influncia nociva da bebida em
Raymond. Que novos fatos teria ele? No tinha ilustraes
surpreendentes do poder dos bares nos negcios e na poltica. O
que poderia ele dizer alm do que j tinham dito tantas vezes os
oradores da Unio Pr-Temperana? O possvel efeito de sua
mensagem nesta manh devia sua fora ao fato incomum de ser
uma pregao contra o alcoolismo, corroborado pela impresso
causada por aqueles acontecimentos que haviam sacudido a
populao de Raymond. Durante todos os dez anos de pastorado
na Primeira Igreja, Maxwell nunca mencionou o alcoolismo como
algo que devia ser visto como um inimigo no somente dos pobres
e tentados, mas como inimigo da atividade comercial e da prpria
igreja. Falava agora com uma liberdade que parecia revelar sua
profunda convico de que Jesus falaria assim. Ao terminar
exortou os presentes a olhar a vida nova que se iniciava no
Retngulo. Estava prxima a eleio das autoridades municipais
para um novo perodo. As licenas concedidas para funcionamento
de bares e afins entrariam no tema da campanha. O que
aconteceria com aquelas pobres criaturas cercadas pelo inferno da
bebida justamente quando comearam a experimentar a alegria da
libertao do pecado? Como evitar a dependncia do lcool vivendo
no meio desses antros? Que posio tomariam os discpulos de
Cristo, os homens de negcio, os cidados honrados a respeito das
licenas para funcionamento do crime e dos estabelecimentos que
produzem essa vergonha? No era dever de todo cristo agir como
cidado responsvel nesta questo, combatendo o alcoolismo nas
urnas, elegendo bons cidados para os postos de direo e
limpando a municipalidade? De que maneira poderiam as oraes
contribuir para melhorar Raymond, uma vez que os votos e as
aes favoreciam o lado dos inimigos de Jesus? Que faria Jesus?
Que discpulos imaginariam que Ele se recusasse a sofrer e
carregar sua cruz nesta empreitada? Quanto tinham sofrido os
membros da Primeira Igreja na tentativa de imitar Jesus?
Consistiria a vida crist to-somente de conscincia, costumes e
tradio? De onde vem o sofrimento? No  necessrio, para andar
nos passos de Jesus, subir ao Calvrio e tambm ao Monte da
Transfigurao?
    Seu apelo era mais forte do que ele imaginava. Naquele
momento, a espiritualidade dos membros da igreja atingiu o ponto
mais alto. A imitao de Jesus iniciada, por inspirao de um
estranho, com alguns voluntrios da igreja estava agindo como um
fermento em toda a comunidade, e Henrique Maxwell se
surpreenderia se no tivesse aquilatado a extenso do desejo de
seu povo em tomar sobre si a cruz. Enquanto falava nessa manh,
e antes de encerrar com um candente apelo para a volta ao
discipulado do Mestre de quase dois mil anos atrs, muitos
homens e mulheres estavam ali repetindo as palavras ditas por
Raquel a sua me: "Quero fazer algo que me custe algum sacrifcio.
Estou ansiosa por sofrer por alguma causa justa." Realmente
Mazzini estava certo ao dizer que nenhum apelo  to poderoso do
que o chamado: "Vinde e sofrei."
      O culto terminou, o grande auditrio foi saindo e se
dispersando, e mais uma vez. como nos dois domingos anteriores,
Maxwell logo estaria diante do grupo reunido na biblioteca. Ele
solicitou que todos os que haviam feito a promessa
permanecessem e convidou outros que quisessem juntar-se ao
grupo. Essa reunio especial tornou-se agora uma necessidade.
Quando entrou e viu ali umas cem pessoas seu corao disparou.
Nunca antes o Esprito tinha se manifestado dessa forma. Notou a
ausncia de Jasper Chase, mas todos os demais ali estavam. Pediu
a Milton Wright que orasse. O prprio ar parecia carregado do
poder de Deus. Quem seria capaz de resistir a tal batismo de poder?
Como puderam eles viver todos esses anos sem Ele?
     Aconselharam-se mutuamente e desencadeou-se uma
seqncia de oraes. Como frutos daqueles encontros Henrique
Maxwell observou alguns dos acontecimentos mais srios que
passaram a fazer parte da histria da Primeira Igreja e da cidade
de Raymond. Quando finalmente retornaram a seus lares, todos
estavam impressionados com a glria emanada do poder do
Esprito Santo.



                            ONZE
    Donald Marsh, diretor do Colgio Lincoln, acompanhou
Maxwell na caminhada at seus lares.
     "Cheguei a uma concluso, Henrique", disse Marsh, falando
tranqilamente. "Encontrei minha cruz, que por sinal  bem
pesada, mas nunca me sentirei satisfeito enquanto no carreg-la
de fato." Maxwell ficou em silncio e o diretor prosseguiu:
      "Seu sermo desta manh deixou claro para mim o que tenho
de longa data sentido ser meu dever. 'Que faria Jesus em meu
lugar?' Tenho repetido esta pergunta desde que assumi o
compromisso. Estou consciente de que Ele agiria como eu nas
atividades do colgio, dando aulas de tica e Filosofia. No posso,
entretanto, deixar de reconhecer que Ele faria alguma coisa mais.
E isso  justamente o que tenho relutado em fazer. Sem dvida
isso me far sofrer. E me deixa atemorizado. Penso que voc 
capaz de imaginar o que seja."
    "Sim, acho que sei. E a minha cruz tambm. Preferiria fazer
com mais prazer qualquer outra coisa."
     Donald Marsh olhou surpreso para Maxwell, e em seguida
sentiu-se aliviado. Falou em seguida com tristeza, mas com grande
convico:
      "Henrique, voc e eu pertencemos a uma classe de cidados
profissionais que temos sempre evitado os deveres da cidadania.
Temos vivido segregados em nosso pequeno mundo da literatura e
da erudio, fazendo aquilo que nos agrada e afastados de muitos
deveres desagradveis que se impem aos cidados. Confesso
envergonhado      que    tenho    evitado     intencionalmente    a
responsabilidade que incumbe pessoalmente a todo cidado.
Reconheo que as autoridades municipais so corruptas, sem
quaisquer princpios, influenciadas em grande parte pelos
controladores do lcool e totalmente egostas no que se refere ao
interesse pblico. No entanto, todos esses anos eu, tanto quanto
quase todos os professores do colgio, estamos acomodados,
permitindo que outros dirijam a municipalidade e estamos vivendo
em nosso pequeno mundo, sem qualquer aproximao com o povo,
que forma o mundo real que nos cerca. 'Que faria Jesus?' Tenho
procurado evitar uma resposta honesta. Mas isso j no  mais
possvel. Meu dever correto  tomar parte pessoalmente na
prxima eleio, procurar os possveis eleitores, formar meu comit,
afiliar-me ao diretrio, usando o peso de minha influncia para
escolhermos homens dignos, e assim mergulhar nesse remoinho
terrvel de fraudes, subornos, conchavos polticos e proteo ou
favorecimento do alcoolismo como existe atualmente em Raymond.
Por meu gosto, preferiria meter-me na boca de um canho do que
me sujar em contato com essa podrido. Seria melhor se eu
pudesse responder: 'No posso crer que Jesus entraria na poltica.'
Entretanto, estou persuadido de que Ele o faria.  dessa idia que
me vem todo meu sofrimento. Talvez preferisse perder minha
posio ou meu lar. Abomino o contato com essa casta de gente do
governo municipal. Gostaria mil vezes continuar fazendo o que
fao, mas esse apelo me veio to evidente e to forte que no
consigo escapar dessa perspectiva. 'Donald Marsh, siga-me.
Cumpra seu dever de cidado de Raymond, ainda que isso lhe seja
penoso. Ajude a limpar essa estrebaria municipal, mesmo que seja
necessrio ofender um pouco seus sentimentos aristocrticos.'
Esta , Henrique, a minha cruz. Devo carreg-la ou negar meu
Senhor." "Voc acaba de falar tambm por mim", afirmou Maxwell
com um sorriso amarelo. "Por que deveria eu, somente pelo fato de
ser ministro, esconder-me atrs de meus sentimentos refinados e
evitar como um covarde o dever de um cidado comum? Estou
alheio e desinformado quanto  prtica poltica desta cidade.
Nunca tive participao ativa na escolha de bons candidatos. E h
centenas de ministros nas mesmas condies.
      Nossa classe no exercita na vida cvica os deveres e
privilgios que prega do plpito. 'Que faria Jesus?' Cheguei a um
ponto em que, como voc, tenho de decidir minha posio. Meu
dever  claro. Cumpre-me sofrer. Todo o meu trabalho na igreja,
todas as minhas provaes e sacrifcios so como nada
comparados como a interrupo do ritmo de minha vida erudita,
intelectual, de meus hbitos reservados, para essa luta aberta,
violenta e pblica para saneamento da vida da cidade. Minha
preferncia, se possvel, seria trabalhar no Retngulo pelo resto da
minha vida e visitar cortios, vivendo com toda a simplicidade. Isto
me seria melhor do que envolver-me na luta srdida pela reforma
desta cidade chafurdada no vcio. Mas, do mesmo modo que voc,
no posso evitar minha responsabilidade. A pergunta 'Que faria
Jesus?' neste caso no me traz paz ao corao, exceto quando
reconheo que  a vontade de Jesus que eu participe da vida
municipal como um cristo patriota. Donald, como voc diz, ns,
homens profissionais, ministros, professores, artistas, escritores,
eruditos, temos sido, quase invariavelmente, polticos covardes.
Temos negligenciado os deveres sagrados de cidados, seja por
ignorncia ou por egosmo. Certamente Jesus em nossa poca no
teria esse comportamento. Nada nos resta fazer seno tomar essa
cruz e segui-lo."
     Os dois caminharam em silncio durante algum tempo.
Finalmente Marsh falou:
      "No precisamos nem devemos agir isoladamente nesta
questo. Com todos os homens e mulheres que assumiram o
compromisso certamente podemos contar com uma companhia
no somente numerosa mas capaz e forte. Vamos arregimentar e
organizar as foras crists de Raymond para a batalha contra o
lcool e a corrupo. Temos de entrar na campanha da eleio com
uma fora que seja capaz de fazer mais do que simplesmente
protestar.  fato notrio que os elementos favorveis ao alcoolismo
agem covarde e medrosamente exatamente por causa de sua
corrupo e falta de princpios. Vamos planejar uma campanha
que represente alguma coisa slida, de peso, precisamente por ser
organizada com base na honestidade e na justia. Jesus usaria
grande sabedoria nesta questo. Ele empregaria meios adequados
e faria grandes planos. Vamos fazer isso. Se temos de carregar esta
cruz, vamos faz-lo com ardor e coragem."
      Eles conversaram demoradamente sobre o assunto e se
encontraram de novo no dia seguinte no escritrio de Maxwell para
desenvolver os planos. A reunio preliminar dos eleitores estava
convocada para sexta-feira. Correram rumores estranhos e de
fonte desconhecida que movimentaram os cidados e as correntes
polticas por toda a cidade a respeito do critrio de escolha dos
candidatos. Porm, como o sistema nominal de voto ainda no
estava em vigor no estado, foi marcada uma reunio pblica no
palcio da justia.
      Os cidados de Raymond jamais se esquecero daquela
assemblia. Foi to diferente de qualquer reunio poltica j
realizada em Raymond, no havendo termo de comparao. Os
cargos eletivos eram para prefeito, chefe de polcia, conselho,
escrivo e tesoureiro municipal.
     O Dirio de Notcias em sua edio vespertina de sbado
publicou uma notcia completa da assemblia e, no editorial do dia,
Eduardo Norman exps seus comentrios com a objetividade,
franqueza e convico que os cristos de Raymond estavam
aprendendo a respeitar profundamente, por se tratar de matria
evidentemente sincera e altrusta. Parte do citado editorial 
tambm uma parte desta histria. Vejamos:
     "Pode-se afirmar que jamais na histria de Raymond houve
uma assemblia semelhante  da ltima noite no palcio da justia.
Foi, antes de tudo, uma grande surpresa para os polticos da
cidade, que estavam habituados a conduzir os negcios da cidade
como se fossem eles os nicos detentores dos cargos, e todos os
demais fossem simplesmente fantoches ou apenas nmeros. Mas o
que surpreendeu grandemente os polticos tradicionais ontem 
noite foi o grande nmero de cidados de Raymond que nunca
haviam participado dos assuntos da municipalidade e que
controlaram a escolha preliminar, nomeando alguns dos melhores
homens para os cargos a serem preenchidos na prxima eleio.
      "Foi uma excepcional lio de maturidade cvica. Donald
Marsh, diretor do Colgio Lincoln, que nunca em sua vida havia
participado da eleio preliminar da cidade, e cuja fisionomia nem
sequer era conhecida da maior parte dos polticos, pronunciou um
dos melhores e mais lcidos discursos j apresentados em
Raymond. Foi confrangedor constatar nos rostos dos homens, que
por muitos anos faziam da cidade o que bem entendiam, quando o
diretor Marsh se levantou para falar. Muitos deles perguntaram:
'Quem  ele?' A cena pattica acentuou-se ao notarem os
costumeiros personagens dirigentes da poltica que estavam em
minoria. O Rev. Henrique Maxwell, da Primeira Igreja, Milton
Wright. Alexandre Powers. professores Brown, Willard e Park, do
Colgio Lincoln, o Dr. West, o Rev. Jorge Maine, da Igreja do
Peregrino, e numerosas outras pessoas, entre elas homens de
negcios e profissionais renomados, muitos deles membros de
igrejas, estavam presentes, no sendo difcil perceber que tinham
ido at l com um propsito definido e imediato de designar os
melhores homens possveis. Muitos deles nunca participaram de
uma escolha preliminar. Eram completamente estranhos aos
prprios polticos. Mas haviam evidentemente se inteirado dos
mtodos polticos e estavam capacitados pelo esforo organizado e
unido a completar toda a chapa de candidatos.
     "To logo se tornou claro que a assemblia primria estava
fora de seu controle, o crculo habitual de polticos retirou-se
desgostoso e formou sua prpria chapa. O Dirio de Notcias
chama a ateno de todos os cidados respeitveis para o fato de
que esta ltima chapa contm os nomes dos indivduos favorveis
ao alcoolismo e  corrupo governamental que vimos sofrendo h
anos, a qual se contrape  primeira chapa, esta constituda de
cidados de mos limpas, honestos, capazes, de viso, que devero
proporcionar uma administrao correta e eficiente, como todo
cidado deve desejar.  necessrio lembrar aos cidados de
Raymond que tal escolha dever ser feita na eleio a ser marcada
e divulgada amplamente. A crise dos negcios e empreendimentos
da cidade atingiu seu ponto mais crtico. A escolha est em nossas
mos. Continuaremos sob a lei do lcool, do suborno e, como se
isto j no bastasse, tambm da incompetncia, ou, como disse o
diretor Marsh em seu nobre discurso, vamos levantar-nos como
bons cidados para iniciar uma nova etapa de nossa cidadania,
varrendo da poltica os nossos piores inimigos e fazendo o que
estiver em nosso poder realizar atravs do voto para purificar
nossa vida cvica?
      "O Dirio de Notcias est positivamente e sem qualquer
restrio ao lado do novo movimento. Daqui por diante faremos
tudo o que for possvel para eliminar o alcoolismo e destruir sua
fora poltica. Defenderemos a eleio dos homens indicados pela
maioria dos cidados reunidos na primeira assemblia e
convocaremos todos os cristos, membros da igreja, e de todos os
que esto a favor do direito, da pureza, da temperana e do lar em
apoio do diretor Marsh e os demais cidados que se propem a
iniciar uma reforma h muito desejada em nossa cidade."
     O diretor Marsh leu este editorial e agradeceu a Deus por
Eduardo Norman. Ao mesmo tempo entendeu claramente que
todos os outros jornais de Raymond estavam com a outra chapa.
Ele nunca subestimou a importncia e seriedade da luta que
apenas havia comeado. No era segredo a ningum que o Dirio
de Notcias havia perdido consideravelmente sua fora desde que
passou a ser dirigido sob o padro "Que faria Jesus?" A pergunta
que cabia fazer agora era: "Os cristos de Raymond apoiariam a
campanha encetada pelo jornal? Tornariam eles possvel que
Norman mantivesse um jornal cristo dirio? Ou dariam
preferncia ao que  geralmente considerado jornal -- preocupado
com narraes de crimes, escndalos e lutas polticas
partidrias -- abandonando o lder de reforma to notvel quanto
corajosa no jornalismo, recusando-lhe o apoio financeiro?" Estas
deveriam ter sido certamente as perguntas que o prprio Eduardo
Norman fez ao escrever aquele editorial de sbado. Ele sabia muito
bem que sofreria antagonismo e represlia de muitos homens de
negcio de Raymond. E no momento em que escrevia aquele
editorial deveria estar perguntando "Que faria Jesus?" Esta
pergunta havia se tornado agora parte preponderante de sua vida.
Nenhuma outra coisa estava acima desse propsito e linha de ao.
      Contudo, pela primeira vez em sua histria Raymond tinha
visto homens de vrias profisses, professores, mdicos e ministros
envolvidos na atividade poltica e colocando-se definitiva e
decisivamente em franca oposio s foras civis que tinham
controlado por tanto tempo a mquina do governo municipal. O
fato em si j era assombroso. O diretor Marsh reconheceu
humildemente que nunca antes havia percebido o que os direitos
cvicos podem realizar. A partir daquela assemblia da ltima
sexta-feira  noite ele estabeleceu como marco inicial para si
mesmo e para a instituio que dirigia uma nova definio da
velha idia "o intelectual na poltica". A educao para ele e para os
que estavam sob sua influncia a partir de ento incluiria uma
parte de sofrimento. O sacrifcio, a partir de agora, deve entrar na
formao como fator de desenvolvimento.
     No Retngulo aquela semana de mar alta na vida espiritual
manteve-se     firme,  sem    demonstrar qualquer sinal de
enfraquecimento. Raquel e Virgnia compareciam todas as noites.
Virgnia chegava rapidamente a uma concluso a respeito de uma
parte substancial de sua fortuna. Havia conversado sobre isso com
Raquel e ambas concordaram com a idia de que, se Jesus
dispusesse de uma grande soma de dinheiro, Ele poderia aplic-lo
de forma semelhante  que Virgnia havia planejado. De qualquer
modo, muito provavelmente Jesus diversificaria a aplicao de
acordo com as necessidade de diferentes pessoas e circunstncias.
No poderia haver um modo fixo e nico de usar o dinheiro. A
regra a seguir neste caso era dispor do dinheiro do modo mais til
e desinteressado possvel.
      O que mais as preocupava, entretanto, era a manifestao da
glria do Esprito Santo experimentada na semana anterior. Noite
aps noite nesta semana foram testemunhados milagres to
grandes quanto caminhar sobre o mar ou alimentar uma multido
com uns poucos pes e peixes. Que milagre maior existe do que a
regenerao de um pecador? A transformao daqueles seres
brutos, animalizados. em vidas arrebatadas e devotas, tendo Jesus
como ideal, sempre enchia Raquel e Virgnia de um sentimento
semelhante ao que testemunharam os discpulos quando Lzaro
saiu do tmulo. Esta nova experincia era para elas uma
experincia profundamente excitante.
      Rollin Page ia a todas as reunies. No havia dvida de que
ele era uma pessoa transformada. Raquel at ento pouco tinha
falado com ele. Rollin estava estupendamente tranqilo e parecia
sempre calmo e pensativo. Inegavelmente ele no era a mesma
pessoa de antes. Conversava mais com o evangelista Gray do que
com qualquer outra pessoa. No evitava encontrar-se com Raquel,
mas, por outro lado, no dava sinais visveis de retomar o
relacionamento com ela. Raquel teve certa dificuldade de expressar
a Rollin seu prazer pela nova vida que comeara para ele. A
impresso era de que Rollin estava esperando ajustar-se melhor 
nova vida, procurando talvez chegar ao nvel espiritual dos crentes
consagrados, da suas freqentes conversas com Gray. Aps a
converso ele entrara no processo da santifcao.
     O fim de semana encontrou o Retngulo em luta feroz entre
duas poderosas foras que se opunham. O Esprito Santo estava
batalhando com toda sua fora sobrenatural contra o demnio do
alcoolismo que se agarrava vida e ciumentamente aos seus
miserveis escravos. Se os cristos de Raymond pudessem
compreender de uma vez por todas a luta que as almas sacudidas
e levantadas para uma vida mais pura tinham de travar para se
manter salvas e afastadas do terrvel mal, no seria possvel que o
resultado das eleies fosse favorvel aos grandes causadores
dessa desgraa. As licenas para funcionamento de bares tinham
de acabar. Mas somente dentro de poucos dias poderiam ter
certeza disso. O pesadelo das tentaes constantes a que estavam
expostos muitos dos convertidos chegava ao conhecimento de
Virgnia e Raquel, que todas as noites voltavam  cidade para suas
belas residncias com os coraes terrivelmente pesados.
     "Muitas dessas criaturas voltaro ao lcool e  desgraa",
dizia Gray com profunda tristeza. "O ambiente tem uma fora
poderosa sobre o carter das pessoas. Como resistir tendo sempre
diante dos olhos e do olfato e das companhias a bebida diablica
que os persegue? O Senhor, at quando os cristos permitiro com
seu silncio e indiferena e com seus votos a pior forma de
escravido conhecida neste pas?"
     Gray fazia a pergunta sem muita esperana de uma resposta
imediata. Houve um raio de esperana na assemblia cvica de
sexta-feira, mas nem sequer ousava arriscar um prognstico. As
foras pr-alcoolismo eram organizadas, ativas, agressivas, e
alvoroadas agora pelos acontecimentos da ltima semana na
tenda e na cidade. As foras crists agiriam unidas contra a bebida?
Ou se dividiriam por causa de seus interesses comerciais e do fato
de no terem o hbito de se arregimentarem, como fazem os
inimigos? S o tempo o diria. Enquanto isso o lcool dominava
todo o Retngulo como uma serpente venenosa silvando e
serpeando. pronta para dar o bote e injetar seu veneno letal em
suas fceis presas.
     Na tarde de sbado, quando Virgnia se preparava para sair e
encontrar-se com Raquel para conversarem sobre seus novos
planos, uma carruagem levando trs de suas amigas da alta
sociedade parou em frente a sua casa. Virgnia caminhou at o
porto para receb-las. No se tratava de uma visita, mas de um
convite para que Virgnia fosse com elas ao parque, onde haveria
apresentao de um concerto por uma banda. O dia estava muito
lindo para ficar dentro de casa.
     "Onde voc tem estado todo esse tempo. Virgnia?"
perguntou-lhe uma das amigas, batendo alegremente no ombro de
Virgnia com uma sombrinha de seda vermelha. "Ouvimos dizer
que voc tem ido a um espetculo. Fale-nos sobre isso."
     Virgnia enrubesceu. mas, depois de alguma hesitao,
contou-lhes francamente alguma coisa da experincia no
Retngulo. As garotas comearam a ficar realmente interessadas.
      "Querem saber de uma coisa, meninas? disse uma delas.
"Vamos at esse lugar com Virgnia nesta tarde, em lugar de irmos
ao concerto da banda. Nunca fui ao Retngulo. Ouvi dizer que 
um lugar muito ruim onde se pode ver muita coisa. Virgnia seria
nossa guia, e assim teremos um passeio -- 'muito divertido' -- ia
ela dizendo, mas ante o olhar de Virgnia ela trocou a expresso --
'mais interessante""
     Virgnia ficou irritada. Essa idia era inconveniente, pensou
ela inicialmente, pelo menos naquelas circunstncias. Mas as
outras duas jovens fizeram coro com sua companheira e insistiram
para que Virgnia as levasse l.
     De repente Virgnia viu nessa curiosidade das amigas uma
oportunidade. Elas nunca tinham visto o pecado e a misria de
Raymond. Por que no lev-las, ainda que seus motivos fossem
banais -- talvez passar a tarde num lugar diferente?
     "Muito   bem, irei com vocs, disse Virgnia. Mas tero de
obedecer s    minhas ordens e me deixaro que as leve aonde
possam ver     de tudo", disse ela, entrando na carruagem e
sentando-se   ao lado da jovem que havia sugerido o passeio ao
Retngulo.



                              DOZE
          "No penseis que vim trazer paz  terra; no vim
        trazer paz, mas espada. Pois vim causar diviso entre
        o homem e seu pai; entre a filha e sua me e entre a
        nora e sua sogra. Assim, os inimigos do homem sero
               os da sua prpria casa" (Mt 10.34, 35).


        "Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados;
         e andai em amor, como tambm Cristo nos amou..."
                              (Ef 5.1,2).


     "Voc no acha conveniente levarmos um policial?" perguntou
uma das jovens com um riso nervoso. "O lugar parece que no 
seguro, vocs sabem."
     "No h perigo algum", respondeu Virgnia secamente.
     "E verdade que seu irmo Rollin se converteu?" quis
confirmar a primeira jovem que falara ao chegar, olhando para
Virgnia com curiosidade. Durante a viagem ao Retngulo ficou a
impresso de que todas as trs amigas olhavam para ela com uma
ateno especial, julgando-a uma pessoa diferente.
     "Sim,  verdade."
     "Ouvi dizer que ele tem ido aos clubes falar com seus velhos
amigos, tentando pregar-lhes o evangelho. No  engraado?" disse
a garota da sombrinha de seda vermelha.
     Virgnia no respondeu, e as trs amigas comearam a ficar
srias e curiosas quando a carruagem entrou na rua que leva ao
Retngulo.  medida que se aproximavam do local elas se sentiam
cada vez mais nervosas. O aspecto, o cheiro, os sons que se
tornaram familiares a Virgnia chocaram os sentidos das refinadas
e delicadas representantes da alta sociedade de Raymond. Aquilo
para elas era um espetculo horrvel. Quando chegaram ao centro
do bairro, todo o Retngulo s tinha olhos para contemplar aquela
bela carruagem e aqueles manequins ostentando o seu fascnio
sobre aqueles miserveis. O cenrio era chocante pela disparidade
das duas imagens -- a opulncia de um lado, a podrido de outro.
Nunca antes na histria de Raymond esses contrastes se
encontraram. As jovens que foram conhecer o Retngulo eram os
objetos de curiosidade. Elas estavam assustadas e enojadas.
     "Vamos voltar, j vimos o suficiente", disse a moa sentada ao
lado de Virgnia.
     Estavam naquele momento exatamente em frente a uma das
maiores casas de jogos e bebidas. A rua era estreita e as caladas
estavam cheias de gente. De repente saiu do bar uma jovem
cambaleante. Estava cantando com a voz entrecortada de soluos,
aparentando indicar que conhecia sua lastimvel condio: "Eu
venho como estou, eu venho como estou" -- e ao passar por ela a
carruagem Virgnia pde ver seu rosto. Era a moa que se
ajoelhara soluando naquela noite em que Virgnia se ajoelhou ao
lado dela e orou por ela.
      "Pare!" gritou Virgnia dirigindo-se ao cocheiro que estava
observando o ambiente. A carruagem parou, ela desceu e foi logo
em direo  moa segurando-lhe o brao. "Loreen!" disse ela, e
isso foi tudo. A moa olhou para seu rosto com uma expresso de
horror. As jovens na carruagem estavam atnitas e totalmente
confusas. O proprietrio do bar veio at  porta do bar e ficou
olhando a cena com as mos nos quadris. E o Retngulo, das
janelas, dos terraos, das caladas imundas, das sarjetas, dos
becos, olhavam com indisfarvel admirao as duas jovens. Sobre
a cena o morno sol da primavera derramava sua luz dourada. E
uma brisa leve trazia em ondas os longnquos sons da msica que
vinha do parque. O concerto havia comeado, e a alta sociedade e
a riqueza de Raymond estava l se exibindo.
      Quando Virgnia desceu da carruagem e foi at Loreen ela
no tinha qualquer idia sobre o que fazer ou como aquela cena
terminaria. Ela simplesmente viu uma alma que tinha provado a
alegria de uma vida melhor escorregando de novo para dentro do
seu inferno de vergonha e morte. E antes que ela segurasse o
brao da jovem bbada havia feito uma nica pergunta -- "Que
faria Jesus?" Esta pergunta tornou-se para ela, como para muitos
outros, um hbito de vida.
     Ela olhou ao redor quando estava amparando Loreen e toda a
cena lhe era cruelmente dolorosa. Ela pensou primeiro nas jovens
da carruagem.
     "Podem ir, no esperem por mim. Vou levar minha amiga
para casa" disse com bastante calma.
     A jovem com a sombrinha vermelha ficou paralisada quando
ouviu a palavra "amiga", mas ficou calada. As outras duas jovens
estavam aturdidas.
      "Podem ir, eu no posso ir com vocs", insistiu Virgnia. O
cocheiro comeou a tocar os cavalos lentamente. Uma das jovens
inclinou-se um pouco para fora da carruagem.
     "Podemos, isto , voc precisa do nosso auxlio? Voc no
gostaria..."
    "No, no!" exclamou Virgnia. "Vocs no podem me ajudar
em nada."
     A carruagem se foi. Virgnia ficou sozinha com sua
responsabilidade. Ela olhou para cima e ao redor. Muitos rostos da
multido se mostravam compadecidos. Nem todos eram cruis ou
brutais. O Esprito Santo abrandou os coraes de uma boa parte
do Retngulo.
     "Onde ela mora?" perguntou Virgnia.
      Ningum respondeu. Depois desse episdio, ocorreu a
Virgnia, quando teve tempo para pensar nisso tudo, que o
Retngulo mostrou uma postura com seu triste e respeitoso
silncio que serviria de exemplo para o bairro aristocrtico. Pela
primeira vez passou-lhe pela mente que aquele ser imortal, jogado
como um nufrago nas praias deste inferno terrestre chamado
lcool, no tinha um canto que pudesse chamar de lar. A jovem
desvencilhou-se de Virgnia puxando o brao da mo que a
segurava com tal violncia que quase a derrubou.
      "Voc no ponha a mo em mim! Me deixe! Me deixe ir pro
inferno!  l o meu lugar! O Diabo est me esperando! Olha ele
ali!" -- exclamou ela com voz rouca. Voltou-se e apontou o dedo
trmulo para o dono do bar. A multido riu. Virgnia aproximou-se
dela e passou-lhe o brao pela cintura.
     "Loreen", disse ela com firmeza, "venha comigo. Voc no
pertence ao inferno. Voc pertence a Jesus e Ele vai salvar voc.
Venha"
     De repente a pobre moa comeou a chorar. Ela ficou
parcialmente lcida e ficou chocada ao encontrar Virgnia.
     Virgnia olhou novamente a sua volta. "Onde mora o sr.
Gray?" perguntou aos que estavam mais perto. Sabia que o
evangelista morava numa penso perto da tenda. Vrias pessoas
indicaram-lhe o lugar.
     "Venha, Loreen, quero que voc venha comigo  casa do sr.
Gray", disse ela ainda segurando a criatura cambaleante e trmula,
gemendo, soluando e agora agarrando-se firmemente a Virgnia,
que havia pouco repelira.
      Assim as duas atravessaram o Retngulo, em direo  casa
do sr. Gray. A cena parecia impressionar seriamente os
circunstantes. O espetculo de uma mulher embriagada
geralmente no impressionava a ningum, mas agora era diferente.
O fato de uma das moas mais ricas e mais bem vestidas de toda
Raymond estar cuidando de uma das figuras mais conhecidas e
mais desprezveis do Retngulo, que vivia cambaleando sob a
influncia do lcool, era um fato que dava importncia e uma certa
dignidade  prpria Loreen. Quando ela costumava caminhar
trpega e cair na sarjeta completamente embriagada sempre era
motivo de risos e zombaria. Porm Loreen cambaleante ao lado de
uma jovem dama dos crculos sociais da aristocracia amparando-a
no meio da rua era outra coisa. O Retngulo viu aquela cena com
sisudez e com uma ponta de admirao respeitosa.
     Quando finalmente chegaram  moradia do sr. Gray, a
mulher que atendeu quando Virgnia bateu  porta, informou que
tanto o sr. Gray como sua esposa estavam fora e no voltariam
antes das seis horas.
     Virgnia nada havia planejado alm de fazer um apelo ao
casal Gray para tomar conta de Loreen por algum tempo ou
encontrar um lugar seguro para aloj-la at voltar a ficar sbria.
Agora estava parada ali diante do porto sem saber o que fazer.
Loreen caiu nos degraus um tanto estonteada e mergulhou a
cabea entre os braos. Virgnia olhava para aquela figura
miservel da moa que demonstrava um sentimento de medo que
poderia converter-se em averso.
      Finalmente passou-lhe pela mente uma idia a que no podia
resistir. O que a impediria de levar Loreen para sua casa? Por que
essa criatura desprotegida e desgraada, cheirando ainda a lcool,
no poderia ser tratada em sua casa, em vez de ser confiada a
estranhos em algum hospital ou abrigo de mendigos? Virgnia, na
verdade, muito pouco sabia a respeito de qualquer abrigo. Mas,
provavelmente, havia duas ou trs instituies desse gnero em
Raymond, mas era duvidoso que qualquer delas aceitasse Loreen
nas condies em que se encontrava. Mas no era essa a questo.
"Que faria Jesus com Loreen?" Este era o aspecto que Virgnia
enfrentava, a que ela finalmente respondeu segurando novamente
a moa.
    "Venha, Loreen. Voc vai comigo para minha casa. Vamos
tomar o bonde ali na esquina."
      Loreen cambaleou um pouco e, para surpresa de Virgnia,
no causou nenhum problema. Esperava-se alguma resistncia ou
teimosia em recusar-se a andar. Quando chegaram  esquina logo
tomaram o bonde que estava quase lotado de passageiros que se
dirigiam ao centro da cidade. Virgnia sentiu a dolorosa experincia
de atrair para si e Loreen as atenes de quase todos os
passageiros desde o momento em que entraram no bonde. Mas
seus pensamentos estavam concentrados mais e mais na cena
seguinte com sua av. Qual seria a reao dela?
      Loreen esta agora quase sbria. Mas entrou num estado de
letargia. Virgnia via-se forada a segurar firme seu brao. De vez
em quando ela pendia a cabea pesadamente para o lado de
Virgnia, apoiando-se em seu ombro, e depois, quando ambas
caminhavam em direo  casa de Virgnia, as pessoas assim
chamadas civilizadas se voltavam para observar com espanto.
Quando ela subiu os degraus de sua casa. Virgnia respirou com
alvio, mesmo diante da perspectiva do encontro com sua av, e
quando fechou a porta atrs de si e se viu no amplo salo com sua
protegida sem lar, estava pronta para o que pudesse acontecer.
     A sra. Page estava na biblioteca. Ouvindo que Virgnia
chegava, dirigiu-se  sala para encontr-la. Virgnia estava
segurando Loreen tentando acomod-la, enquanto esta arregalava
os olhos diante da magnificncia do ambiente.
     "Vov", Virgnia foi dizendo sem hesitao e com muita
clareza, "trouxe aqui uma de minhas amigas do Retngulo. Ela
est em dificuldade e no tem casa. Vou cuidar dela aqui por
algum tempo."
     A sra. Page olhava espantada ora para Virgnia ora para
Loreen.
     "Voc disse que era uma de suas amigas?" perguntou com
uma voz seca e sarcstica que magoou Virgnia mais do que
qualquer outra coisa que j tinha passado naquele dia.
     "Sim, foi o que eu disse." O rosto de Virgnia parecia em brasa,
mas ela se lembrou do versculo mencionado pelo sr. Gray num de
seus ltimos sermes: "Amigo de publicanos e pecadores." Com
certeza, Jesus faria isso que ela estava fazendo.
      "Voc sabe quem  essa mulher?" sussurrou asperamente a
sra. Page perto do ouvido da neta.
      "Sei muito bem.  uma rejeitada. Voc no precisa me dizer,
vov. Sei isso melhor que a senhora. Ela est bbada neste
momento. Mas  tambm uma filha de Deus. Eu a vi de joelhos,
arrependida e chorando. Vi tambm as garras horrveis de Satans
agarr-la de novo. E pela graa de Cristo sinto que o mnimo que
posso fazer  salv-la desse perigo. Vov, chamamos a ns mesmos
cristos. Aqui est uma pobre criatura humana, perdida, sem um
lar, resvalando quase certamente para a perdio eterna, e ns
temos mais do que o necessrio para socorr-la. Trouxe-a aqui e
aqui ela ficar."
      A sra. Page fulminou Virgnia com um olhar e cerrou os
punhos. Tudo isso era contrrio ao seu cdigo de comportamento
social. Como a sociedade aceitaria a convivncia com a escria das
ruas? Esse gesto significaria expor ao ridculo a famlia, sofrer
crticas impiedosas, perder a posio na sociedade, e toda a lista
de relacionamentos importantes que as pessoas de riqueza e
posio devem ostentar para ser lderes na sociedade. Para a sra.
Page a sociedade representava mais do que a igreja ou qualquer
outra instituio. Era um poder a ser temido e obedecido. A perda
desse patrimnio social era uma perda mais apavorante do que
qualquer outra coisa, exceto a prpria riqueza.
    Ela se manteve ali, firme e austera, confrontando Virgnia
com determinao. Virgnia ps seu brao em volta de Loreen e
calmamente olhava sua av diretamente na face.
     "Voc no far isso, Virgnia! Pode mand-la para um asilo de
mulheres desamparadas. Podemos pagar todas as despesas. No
podemos permitir-nos, por amor  nossa reputao, abrigar tal
pessoa."
     "Vov, no desejo fazer qualquer coisa que a desagrade, mas
vou manter Loreen aqui esta noite e por mais tempo, se for
necessrio."
      "Ento voc responder pelas conseqncias! Eu no fico na
mesma casa com uma miservel..." A sra. Page se descontrolara
totalmente. Virgnia a interrompeu antes que ela completasse a
frase.
     "Vov, est casa  minha.  sua tambm por todo o tempo
que lhe convier morar aqui. Mas nesta questo devo agir porque
creio firmemente que Jesus faria isso em meu lugar. Estou
disposta a suportar tudo o que a sociedade possa dizer ou fazer. A
sociedade no  meu Deus. Ao lado desta pobre alma considero a
opinio da sociedade sem qualquer valor."
     "Pois bem, ento no vou ficar aqui", disse a sra. Page.
Voltou-se de repente e caminhou at o fim da sala; depois voltou
at Virgnia falou com uma nfase que denotava sua forte
excitao:
     "Voc vai sempre se lembrar que forou sua av a sair de sua
casa por causa de uma mulher bbada." Em seguida, sem esperar
resposta de Virgnia, voltou novamente para o fundo da casa e
subiu as escadas. Virgnia chamou uma criada, e logo passaram a
cuidar de Loreen, cujo estado era ainda precrio e inspirava
compaixo. Durante a cena na sala. ela se agarrou com tal fora ao
ombro de Virgnia que ela ficou machucada pelas unhas afiadas da
moa.
     Virgnia no sabia se sua av deixaria ou no a casa. Ela
possua abundantes recursos prprios, estava perfeitamente bem,
vigorosa, capaz de cuidar de si mesma. Ela tinha irms e irmos
que viviam no sul e tinha o hbito de passar com eles vrias
semanas todos os anos. Neste sentido, portanto, Virgnia no
estava nem um pouco preocupada com o bem-estar de sua av.
Entretanto, a entrevista foi penosa para ela. Lembrando-se disso
tudo em seu quarto antes de descer para o ch, no sentia
nenhum peso na conscincia. "Que faria Jesus?" No havia dvida
em sua mente de que havia feito a coisa certa. Se tinha errado em
alguma coisa, foi erro de julgamento, no de inteno e corao.



                            TREZE
     Quando soou a campainha para o ch Virgnia desceu, mas
sua av no apareceu na sala. Mandou que uma criada fosse ao
seu quarto, mas a sra. Page no estava l. Instantes depois Rollin
entrou em casa com a notcia de que a vov tinha viajado de trem
para o sul. Foi at  estao para se despedir de alguns amigos e,
por acaso, encontrou a vov quando chegava  estao. Ela
contou-lhe a razo por que ia viajar.
     Virgnia e Rollin confortaram-se mutuamente. Durante o ch
trocaram-se olhares tristes e nada comentaram  mesa.
     "Rollin", disse Virgnia -- e pela primeira vez desde a
converso dele percebia o que significava para ela a maravilhosa
transformao de seu irmo -- "voc reprova o que fiz? Acha que
estou errada?"
     "No, querida, no penso que voc tenha errado. Esta
situao  muito penosa para ns, mas, se pensarmos que esta
pobre criatura deve sua segurana e salvao ao seu gesto pessoal,
era a nica coisa que voc podia fazer. Virgnia, pensar que
durante todos estes anos temos desfrutado nossa bela casa e todo
este conforto egoisticamente, esquecidos das multides de pessoas
como esta mulher! Com certeza Jesus em nosso lugar faria o que
voc fez."
      Assim, Rollin confortou a irm e conversou com ela naquela
tarde. De todas as maravilhas que Virgnia havia testemunhado at
ento desde que assumira seu compromisso na Primeira Igreja,
nada a sensibilizou com tamanho poder como a converso de
Rollin. Verdadeiramente, ele era uma nova criatura em Cristo.
     As coisas velhas se passaram. Eis que tudo se fez novo.
     O Dr. West chegou em seguida atendendo ao pedido de
Virgnia e providenciou tudo o que era necessrio para Loreen. Ela
se embriagara quase at ao delrio. A recomendao era para que a
doente tivesse bastante repouso, ficasse sob estrita observao e
recebesse cuidado vigilante e afetuoso. Assim, num quarto amplo e
confortvel, com um quadro a leo pendurado na parede  sua
frente mostrando a figura de Cristo caminhando  beira-mar, l
estava Loreen acomodada, sem saber como tinha chegado quele
porto acolhedor. De seu lado, Virgnia estava cada vez mais perto
do Mestre do que nunca,  medida que seu corao se abria quela
nufraga que as vagas do mar tempestuoso arremessaram
dilacerada aos seus ps.
      Enquanto isso o Retngulo aguardava com desusado
interesse as eleies. Gray e sua esposa lastimavam por causa das
pobres criaturas que, depois de uma luta terrvel contra a tentao
da bebida que a cercavam, freqentemente se entregavam ao poder
do mal e, como Loreen, deixavam-se cair de corpo e alma no
abismo de sua condio anterior.
     Na Primeira Igreja, a reunio aps o culto j se tornara
regular. Henrique Maxwell entrou na biblioteca no domingo que
sucedeu  semana da assemblia preliminar para as eleies e foi
saudado com tal entusiasmo que o fez estremecer pela sinceridade
e amor daquele grupo. Notou novamente a ausncia de Jasper
Chase, mas todos os demais ali estavam presentes. Era visvel o
sentimento de unidade e fraternidade que se expressava de um
modo espontneo e recproco. Sentia-se ali que o esprito de Jesus
era de plena abertura dos coraes nas confisses e nos relatos
das experincias vividas. Em decorrncia desse clima de confiana,
era para Eduardo Norman a coisa mais natural deste mundo
narrar aos demais do grupo os acontecimentos em seu jornal.
      "O fato  que perdi uma aprecivel soma de dinheiro durante
os ltimos trs meses. No posso ainda avaliar quanto, mas
diariamente estou perdendo muitos assinantes."
     "Quais so as alegaes dos assinantes para suspender as
assinaturas?" perguntou Maxwell. Os demais acompanhavam com
curiosidade.
     "H muitas razes diferentes. Alguns dizem que desejam um
jornal que publique todas as notcias, querendo, com isso, referir-
se aos crimes, lutas de boxe, escndalos e fatos escabrosos de
vrios tipos. Outros alegam como motivo a suspenso da edio de
domingo. Perdi muitos assinantes por causa disso, porm fiz
acertos satisfatrios com muitos dos antigos assinantes dando-
lhes uma edio extra bem mais alentada aos sbados do que
recebiam aos domingos. Minha maior perda, porm, vem
resultando da queda dos anncios e da posio que assumi diante
das questes polticas. Esta ltima posio que tomei com respeito
s eleies foi mais danosa do que qualquer outra. A maior parte
dos nossos assinantes est muito ligada  poltica. Atrevo-me a
ponderar com toda franqueza que, a continuar este plano
proposto -- que acredito honestamente que Jesus apoiaria -- sobre
a questo dos temas polticos e seu tratamento de um ponto de
vista moralista e no-partidrio, o Dirio de Notcias no ter
condies de honrar seus compromissos financeiros, a menos que
venha a depender de um novo fator em Raymond."
     Norman fez uma pausa. Um silncio absoluto reinava entre
os presentes. Virgnia parecia especialmente interessada. Seu rosto
se iluminara ante a perspectiva de ouvir o que estava em sua
mente. Era como se uma pessoa estivesse pensando seriamente a
mesma coisa que Eduardo Norman pretendia agora mencionar.
      "Esse fator", prosseguiu Norman, " o elemento cristo de
Raymond. Disse-lhes que o Dirio de Notcias tem sofrido pesadas
perdas de arrecadao pelo descaso de pessoas que no se
interessam por um dirio cristo, e de outros que simplesmente
vem no jornal um provedor de todo tipo de matria que os divirta
e lhes interesse. Haver em Raymond um nmero suficientemente
grande de pessoas crists genunas que se unam para dar suporte
a um jornal que Jesus provavelmente publicaria? ou ser que os
hbitos das pessoas da igreja esto de tal forma arraigados em sua
preferncia por um tipo secular de jornalismo que seja desprovido
totalmente do propsito cristo e moral?
     Devo tambm confidenciar aos irmos aqui presentes que,
devido s recentes complicaes em meus negcios comerciais fora
do jornal, tenho sido obrigado a perder uma parte pondervel de
minha fortuna. Tenho, tambm neste caso, aplicado a mesma
regra da provvel conduta de Jesus em certas transaes com
outros homens que no adotam a mesma conduta, e o resultado
tem sido a perda de uma grande quantia de dinheiro. Como
entendo a promessa que fizemos, no devemos fazer qualquer
pergunta a respeito de 'Vale a pena?' ou 'Isto  lucrativo?' mas
todas as nossas aes baseiam-se numa nica pergunta, 'Que faria
Jesus?' Agir de acordo com esta regra de conduta tem significado
para mim a perda de quase todo o dinheiro que ganhei com meu
jornal. No  preciso descer a particularidades. No tenho dvida,
neste momento, depois das trs semanas em que vivi esta
experincia, que muitos outros homens perderiam grandes somas
de dinheiro sob o atual sistema de negcios, se esta regra de Jesus
fosse aplicada honestamente. Menciono aqui meus prejuzos por
estar plenamente convicto e cheio de f no final bem-sucedido de
um jornal conduzido pela linha que tracei recentemente,
planejando colocar nisso todos os meus recursos financeiros para
alcanar a vitria final. Neste momento, porm, a menos que, como
disse, os cristos de Raymond, os membros da igreja e os que
professam a f em Jesus apiem o jornal com assinaturas e
anncios, no poderei continuar sua publicao na presente base."
    Virgnia, que seguia a exposio de Norman e sua confisso
com o mximo interesse, perguntou-lhe:
     "O senhor quer dizer que um dirio cristo precisa da
concesso de uma soma vultosa para se manter, como se fosse,
por exemplo, uma escola crist?"
     "Foi exatamente o que eu quis dizer. Planejei introduzir no
Dirio de Notcias uma tal variedade de matria numa forma to
atraente e convincente que compensaria com eficcia qualquer
matria anticrist porventura ausente de suas pginas. Porm esse
plano exigiria um grande investimento financeiro. Estou confiante
de que um dirio cristo nos moldes que Jesus aprovaria,
contendo somente o que Ele publicaria, pode ser feito com sucesso
financeiro se for planejado de acordo com as diretrizes
corretamente traadas."
     "De quanto seria, em sua estimativa, o montante necessrio?"
perguntou calmamente Virgnia.
      Eduardo Norman olhou-a fixamente e em seu rosto
transparecia uma certa excitao ao notar o interesse de Virgnia
de fazer uma possvel proposta. Ele a conhecia desde menina na
escola dominical e havia mantido relaes comerciais com o pai
dela.
      "Eu diria que meio milho de dlares numa cidade como
Raymond poderia ser bem aplicado na formao de um jornal
dirio como o que tenho em mente", respondeu Norman. Sua voz
tremia um pouco. Seu olhar penetrante no rosto j um tanto
enrugado iluminou-se revelando sua esperana, refreada porm
totalmente otimista, antevendo grandes realizaes no mundo
jornalstico diante da perspectiva que se lhe abria naquele
momento.
     "Ento", disse Virgnia, falando como se j tivesse
considerado e amadurecido plenamente a idia, "estou pronta a
colocar esse valor em dinheiro no jornal sob a nica condio,
naturalmente, de que ele se mantenha na linha j comeada."
     "Graas a Deus!" disse Maxwell emocionado em voz baixa.
Norman estava plido. Os demais presentes olhavam para Virgnia,
que tinha mais alguma coisa a dizer.
      "Queridos amigos", continuou ela, e havia em sua voz uma
tristeza que causou profunda impresso em todos, "no quero que
nenhum de vocs julgue este ato como uma grande generosidade.
Nos ltimos dias conclu, um pouco tardiamente, que o dinheiro
que tenho considerado meu no me pertence, mas sim a Deus. Se,
como sua despenseira. eu vir alguma forma sbia de empregar este
bem que o Senhor me confiou, no tomarei isso como vanglria
nem deverei receber aplausos e louvores de quem quer que seja,
apenas por ter administrado bem aquilo que Ele me concedeu para
ser usado para sua glria. Tenho pensado, vrias vezes, neste
mesmo plano, aqui apresentado pelo sr. Norman. O fato, queridos
irmos,  que em nossa prxima luta -- que est apenas
comeando -- contra o alcoolismo em Raymond, vamos precisar do
Dirio de Notcias para ser um ferrenho combatente ao lado dos
cristos. Todos vocs sabem que os demais jornais defendem o
vcio. Enquanto existirem fontes alimentadoras do lcool, a obra de
resgatar e restaurar as almas que esto se definhando no
Retngulo estar terrivelmente em desvantagem. O que pode o
evangelista Gray fazer com suas reunies quando metade dos seus
convertidos so viciados, tentados e arrastados diariamente pelos
botequins que esto em cada esquina? Permitir que o Dirio de
Notcias fracasse  abrir caminho para o inimigo. Tenho grande
confiana na capacidade do sr. Norman. No conheo seus planos,
porm tenho a mesma confiana que ele demonstra, se for dada ao
jornal a fora necessria para que o sucesso seja alcanado. No
acredito que a inteligncia do cristo no jornalismo seja inferior 
inteligncia de um no-cristo, mesmo quando a questo for
resultado financeiro. Por isso, aqui est minha razo para investir
este dinheiro -- de Deus, no meu -- num agente poderoso para
fazer o que Jesus faria. Se pudermos manter esse jornal por um
ano, ficarei satisfeita de ver essa soma de dinheiro usada nessa
experincia. No me agradeam. No considerem meu gesto uma
coisa maravilhosa. O que tenho feito com o dinheiro de Deus todos
estes anos seno satisfazer meus prprios desejos egostas? O que
posso fazer com o resto do dinheiro seno tentar compensar de
alguma forma aquilo que roubei de Deus? Esta  a maneira como
vejo as coisas agora. Creio que  isto que Jesus faria."
      Na biblioteca uma onda invisvel mas distintamente sentida
pairava sobre todos. Era a presena divina. Ningum falou por
alguns momentos. O Rev. Maxwell, sentindo as faces todas
olhando para ele, experimentou uma sensao estranha --
parecia-lhe que o sculo atual tinha se transportado  metade do
primeiro sculo, quando os discpulos tinham tudo em comum e
reinava entre eles o mesmo sentimento. Tal era o ambiente na
biblioteca da Primeira Igreja de Raymond naquele momento.
Quando o rol de membros dessa igreja tinha experimentado essa
fraternidade em interesses dirios antes que o pequeno grupo ali
reunido comeou a fazer o que acreditava que Jesus faria?
      Ele sentia um certo constrangimento ao pensar na situao
dos cristos de nossa poca. Este era, alis, o pensamento de
todos. Havia entre eles uma tcita camaradagem que jamais
tinham sentido antes. Ela se manifestou enquanto Virgnia estava
falando e durante o silncio que se seguiu. Se algum tentasse
definir aquele sentimento, provavelmente as palavras seriam estas:
'"Se, durante  tempo de minha obedincia  minha promessa, eu
tiver alguma perda ou problema no mundo, poderei contar com a
genuna e pronta solidariedade de todos os cristos presentes
nesta sala, os quais, como eu. assumiram o compromisso de fazer
toda e qualquer coisa de acordo com a regra 'Que faria Jesus?'"
     A presena do Esprito continuava sensvel naquele ambiente.
Era como se estivesse operando ali o efeito do milagre que marcou
o encontro dos primeiros discpulos, dando-lhes o sentimento de
confiana no Senhor que lhes permitia enfrentar perdas e o prprio
martrio com coragem e mesmo com alegria.
     Antes de se dispersarem, desta vez houve vrias confidncias
como a de Eduardo Norman. Alguns jovens disseram que tinham
perdido o emprego em razo de sua estrita observncia da
promessa. Alexandre Powers falou rapidamente informando que a
comisso que estudava o caso por ele denunciado tinha preparado
a ao para condenar a companhia, o que se daria brevemente.
     Ele estava trabalhando no telgrafo. Era notrio o fato que,
desde que renunciou  sua posio, nem sua esposa nem a filha
apareciam em pblico. Ningum mais do que ele sabia a amargura
que a incompreenso de sua famlia lhe causava. Muitos outros
dentre os presentes  reunio tinham igualmente fardos
semelhantes. Tratava-se de problemas que no podiam ser
comentados. Henrique Maxwell, conhecendo bem as pessoas de
sua igreja, sabia que a obedincia ao compromisso provocaria em
numerosos lares separaes, inimizade e averso. Verdadeiramente,
os inimigos de um homem so os seus prprios familiares quando
a regra de Jesus  obedecida por alguns e desobedecida por outros.
Jesus  um grande fator de diviso no lar e fora do lar. O
verdadeiro cristo segue Jesus passo a passo e a seu lado.



                         QUATORZE
      A caracterstica mais notvel neste ltimo encontro foi o
esprito de solidariedade mtua e plena de todos os participantes.
Maxwell observou isso muito bem e, no sem um certo tremor,
imaginou o momento em que essa identificao e solidariedade
chegasse ao ponto mais alto. Quando se daria isso? Aonde ela os
levaria? Ele no sabia quando nem como, mas no estava
alarmado. Ele somente observava com crescente admirao os
resultados que aquela simples promessa estava produzindo
naquelas vidas. Alguns resultados j estavam sendo sentidos em
toda a cidade. Quem poderia prever a influncia que haveria at o
fim de um ano?
     Uma forma prtica e concreta dessa solidariedade foi
mostrada nas promessas de apoio e auxlio que Eduardo Norman
recebeu de todos os presentes. Ele foi cercado pelo grupo no
encerramento da reunio, e seu apelo por ajuda dos crentes de
Raymond foi perfeitamente compreendido por todos. O valor de um
jornal como o Dirio de Notcias nos lares e para o aperfeioamento
da cidadania, especialmente na crise atual em que a cidade se
encontrava, no podia ser avaliado. Ainda estava para ser visto o
que poderia ser feito a partir de agora, em razo da doao
oferecida com tanta liberalidade. Mas era tambm verdade, como
acentuou Norman, que somente o dinheiro no pode construir o
poder de um jornal. Ele deve merecer o apoio e a simpatia dos
cristos de Raymond antes de ser considerado uma das grandes
foras da cidade.
      A semana que se seguiu a essa reunio no domingo foi uma
das mais agitadas de Raymond. Era a semana da eleio. O diretor
Marsh, fiel  sua promessa, tomou sua cruz e carregou-a com
varonilidade, mas no sem estremecimento, gemidos e at lgrimas.
Ele foi tocado no seu mais profundo conceito de valor pessoal,
espiritual e intelectual, tendo de deixar seu sacrrio -- que era sua
vida no colgio por muitos anos -- para sair  rua e lanar-se a
uma luta que o repugnava, mas que teria de enfrentar como
seguidor de Cristo. Estavam com ele uns poucos professores do
colgio que tambm fizeram a promessa na Primeira Igreja. A
experincia e os sofrimentos deles eram como os dele. Seu
isolamento dos deveres como cidados tinha sido igual ao dele. O
mesmo seja dito de Henrique Maxwell, que mergulhou no horror
dessa luta contra o alcoolismo e seus aliados com um desgosto
doentio a cada dia que passava. Nunca em sua carreira havia ele
carregado uma cruz to pesada. Ele vacilava sob esse peso. e em
rpidos intervalos, quando entrava no aconchego silencioso de seu
escritrio para descansar, o suor descia-lhe pela testa, e ele era
tomado de um terror indescritvel, como o de algum que caminha
nas trevas ao encontro do desconhecido. Ele no se acovardava,
porm, mas sentia o calafrio de qualquer homem em sua condio
e com seus hbitos quando repentinamente confrontado com o
dever cvico que no lhe era familiar, com os detalhes de certas
coisas que lhe eram desconhecidas e o enchiam de vergonha e
humilhao.
      Quando chegou o sbado, dia da eleio, o excitamento
chegou ao ponto culminante. Fez-se uma tentativa de fechar todas
as casas de bebidas, mas o sucesso foi apenas parcial. Bebeu-se
muito acima do normal durante todo o dia. O Retngulo
regurgitava, fervia, blasfemava e exibia sua pior ndole de olhos
fixos na cidade. Gray havia continuado suas reunies durante a
semana, e os resultados foram melhores do que se podia esperar.
Quando chegou o sbado, ele sentiu que a crise tinha chegado ao
seu ponto culminante. O Esprito Santo e Satans estavam
preparados para um conflito encarniado. Quanto maior interesse
havia nas reunies, maior era a ferocidade da vileza do lado de fora.
Os donos dos bares nunca esconderam seus sentimentos.
Ameaas abertas de violncia eram feitas. Uma vez, durante a
semana, Gray e seu pequeno grupo de assessores foram atacados
com objetos de vrios tipos quando deixavam a tenda tarde da
noite. A polcia enviou uma fora especial, e Virgnia e Raquel
ficaram sempre sob a proteo de Rollin ou do Dr. West. O poder
do canto de Raquel no havia diminudo. Antes, a cada noite,
parecia aumentar em intensidade e realidade a presena do
Esprito.
     Gray tinha, em princpio, hesitado em realizar uma reunio
naquela noite. Mas ele tinha uma nica e simples regra de ao,
pela qual sempre se guiava. O Esprito parecia gui-lo no sentido
de continuar a reunio, e assim a noite de sbado correu como de
costume.
      A excitao na cidade atingiu seu apogeu quando os locais de
votao encerraram s seis horas. Nunca houvera antes uma
disputa to renhida em Raymond. O ponto-chave da campanha --
pr-licena e contra a licena para a venda de bebidas -- nunca
antes fora objeto de discusso to ferrenha como agora, sendo
diferentes as circunstncias nesta eleio. Nunca na histria da
cidade grupos opositores se organizaram para essa disputa
eleitoral. Nunca se ouvira que o diretor do Colgio Lincoln, o pastor
da Primeira Igreja, o deo da Catedral, os profissionais que viviam
em suas ricas casas na avenida, tiveram de comparecer
pessoalmente aos postos de votao, representando com sua
presena e seu exemplo a conscincia crist da cidade. Os polticos
tradicionais estavam abismados diante do que viam... Mas esse
espanto no impediu, em qualquer momento, o exerccio da
cidadania pelo voto. A luta foi ardente de ambos os lados, de
momento a momento, e quando chegou o fim s seis horas,
nenhum dos lados fora capaz de anunciar antecipadamente o
resultado. Os participantes concordaram que nunca antes tinha
havido uma eleio como aquela em Raymond, e ambos os
partidos esperavam a proclamao do resultado com o maior
interesse.
     A reunio da tenda encerrou-se depois das dez horas. Por
vrias razes, a reunio foi extraordinria. Maxwell esteve l
novamente a pedido de Gray. O pastor estava completamente
exaurido em virtude dos trabalhos do dia, mas o apelo de Gray veio
a ele de tal forma que no pde resistir. O diretor Donald Marsh
tambm estava presente. Ele nunca tinha ido ao Retngulo, e seu
interesse pelo trabalho foi motivado pelas referncias que ouvira
sobre a influncia do evangelista na pior parte da cidade. O Dr.
West e Rollin tinham chegado com Raquel e Virgnia. E Loreen, que
ainda estava hospedada na casa de Virgnia, estava presente junto
ao rgo, perfeitamente normal, sbria, com humildade e receosa
de sua prpria fraqueza, mantendo-se perto de Virgnia como um
co fiel. Durante todo o culto ela permaneceu sentada, cabisbaixa,
chorando parte do tempo, soluando quando Raquel cantou 'Eu
era uma ovelha desgarrada', agarrando-se de forma quase visvel,
ansiosa,  nica esperana que tinha encontrado, ouvindo a
orao, o apelo e a confisso, como uma verdadeira convertida,
uma crist nova.
     A tenda esteve completamente cheia. Numa ou noutra
ocasio, havia l fora alguma perturbao. O alvoroo comeou a
crescer  medida que a noite avanava e Gray achou prudente no
prolongar a reunio.
      De momento a momento ouviam-se gritos e algazarras de
uma grande massa, que perturbavam a reunio. Os resultados das
eleies tinham comeado a chegar ao Retngulo, atraindo para as
ruas as pessoas que estavam nas hospedarias, albergues, tabernas,
cortios, etc.
     A despeito dessa algazarra o canto de Raquel mantinha a
multido dentro da tenda. Houve umas doze ou mais converses.
Finalmente o povo ficou irrequieto e Gray encerrou o trabalho,
ficando um pouco de tempo com os convertidos.
     Raquel, Virgnia. Loreen. Rollin, o Dr. West, o diretor Marsh e
Maxwell saram juntos com a inteno de se dirigirem diretamente
ao lugar onde costumavam tomar o bonde. Ao sarem da tenda
notaram que o Retngulo estava em tamanha turbulncia que se
podia esperar algum srio problema, como um tumulto provocado
pela bebedeira, e enquanto avanavam no meio da multido
naquelas ruas estreitas comearam a perceber que eram, eles
mesmos, objetos de grande ateno.
     "Ali est ele -- o sujeito de chapu alto! Ele  o lder!" gritou
uma voz rouca. O diretor Marsh, com sua figura ereta, imponente,
se destacava no pequeno grupo.
     "Como vo indo as eleies? No sei,  ainda um pouco cedo
para saber o resultado, no  mesmo?" Ele falou em voz alta e um
homem respondeu:
      "Dizem que o segundo e o terceiro distritos votaram quase em
peso contra o alcoolismo. Se for verdade, os homens da 'cachaa'
ficaram por baixo.
     "Graas a Deus! Tomara que seja verdade!" exclamou Maxwell.
"Marsh, estamos em perigo aqui. Voc percebe nossa situao? 
preciso levar estas moas a um lugar seguro."
     "Tem razo", disse Marsh preocupado. Naquele momento uma
chuva de pedras e outros objetos foram arremessados contra eles.
A rua estreita e a calada em frente deles estavam totalmente
cobertas dos piores elementos do Retngulo.
      "Isto  muito srio", disse Maxwell. Com Marsh, Rollin e o Dr.
West ele avanou abrindo caminho no meio da turba, Virgnia,
Raquel e Loreen seguiam de perto protegidas, pelos homens, que
estavam conscientes do perigo que corriam. O Retngulo estava
todo embriagado e revoltado. Ele via em Marsh e Maxwell dois dos
lderes na disputa da eleio, que provavelmente o havia privado
da bebida bem-amada.
     "Abaixo os aristocratas!" gritou uma voz fina, aparentemente
de mulher. Seguiu-se uma chuva de lama e pedras. Raquel
lembrou-se mais tarde que Rollin saltou  sua frente e recebeu em
sua cabea e em seu peito alguns golpes que certamente a
atingiriam, se ele no a tivesse escudado.
      E precisamente ento, antes de a polcia se aproximar, Loreen
num movimento rpido saltou sobre Virgnia empurrando-a para o
lado, olhando para cima e gritando. Foi to repentino que ningum
teve tempo de fixar o rosto de quem atirou o objeto. Mas da janela
de um quarto, sobre o mesmo bar de onde Loreen tinha sado uma
semana antes, algum havia lanado uma pesada garrafa. Virgnia
voltou-se para ela e num instante ajoelhou-se a seu lado. Os
policiais chegaram em seguida junto ao grupo.
     O diretor Marsh levantou o brao e exclamou bem alto, para
se sobrepor aos urros daquela horda selvagem.
    "Parem! Vocs mataram uma mulher!" A notcia acalmou um
pouco a multido.
     " verdade?" perguntou Maxwell, quando o Dr. West se
ajoelhou do outro lado de Loreen, mantendo sua cabea levantada.
     "Ela est morrendo!" disse o Dr. West brevemente.
     Loreen entreabriu os olhos e sorriu para Virgnia, que
removia o sangue do rosto da infeliz e se curvava para beij-la.
Loreen sorriu novamente e. no minuto seguinte, sua alma entrou
no Paraso.
      Entretanto, Loreen era mais uma das mulheres entre
milhares morta pelo demnio do lcool. Afastem-se agora homens e
mulheres do pecado nesta rua imunda! Deixem passar seu cadver.
Permitam que ela saia deste antro, onde no pde viver
dignamente! Ela era uma de suas filhas. O Retngulo imprimiu
nela o sinal da besta! Bendito Aquele que morreu pelos pecadores e
por cujo poder uma nova alma brilha agora, livre do corpo que
volta  terra. Afastem-se e que ela tenha uma morada segura!
Deixem-na passar com reverncia, seguida e rodeada do pequeno
grupo de cristos aterrorizados e chorosos, que foram seus nicos
amigos verdadeiros. Vocs a mataram, bbados assassinos! At
quando, at quando,  Amrica crist?! Quem matou esta mulher?
Afastem-se! Quem era Loreen? Uma filha das ruas, pobre bbada,
vil pecadora! O Senhor Deus, at quando, at quando? A bebida a
matou, isto . mataram-na os partidrios que permitem a venda
livre do lcool. O Dia do Juzo revelar quem foi o assassino de
Loreen.



                           QUINZE
         "Quem me segue no andar nas trevas" (Jo 8.12).


     O corpo de Loreen ficou exposto na casa dos Page, na avenida,
domingo pela manh. Era um dia claro de primavera e soprava um
ar fresco e perfumado sobre a cidade, vindo dos campos e dos
bosques, entrando pelas janelas, atravessando a sala e
perpassando sobre o esquife da infausta jovem. Os sinos da igreja
badalavam e as pessoas caminhando pela avenida para assistir ao
culto olhavam curiosamente, com olhares inquiridores para a
grande casa, e continuavam em direo  igreja, conversando
sobre os acontecimentos recentes que ocorreram de modo estranho
e passaram a compor a histria da cidade.
      Na Primeira Igreja, Maxwell, mostrando em seu rosto as
marcas do infortnio da vspera, estava diante de uma enorme
congregao, fato que lhe deu a oportunidade de falar com a
paixo, dramaticidade e poder de antes, motivados agora
naturalmente pelas profundas experincias do dia anterior, o que
levou seu pblico a sentir o ardor espiritual que sua prdica lhes
infundia. Sua atitude e seus arroubos no eram, porm, os
mesmos. Em seu apaixonado apelo nesta manh havia um tom de
tristeza, reprovao e severa condenao que fez muitos dos
membros empalidecer de tristeza e indignao.
     A Raymond crist e responsvel despertara naquela manh
diante da dura fatalidade: Os partidrios do alcoolismo venceram
as eleies. A informao divulgada na vspera no Retngulo a
respeito do segundo e do terceiro distritos era falsa.
      verdade que a vitria foi apertada. Poucos votos separaram
os vencedores dos vencidos, mas, infelizmente, o que importava era
a perda da disputa. Raymond estava autorizada por mais um ano a
continuar espalhando o vcio por todos os cantos. Os cristos de
Raymond foram condenados pelo resultado. Mais de cem cristos
professos deixaram de comparecer aos postos de votao, e um
nmero maior deles votou a favor dos fomentadores do vcio. Se
todos os membros das igrejas de Raymond tivessem votado contra
o lcool, este ficaria fora da lei, ao invs de manter-se como
mandatrio da municipalidade. Era essa de fato a situao em
Raymond. O lcool venceu e essa realidade ningum poderia negar
durante um ano. Que faria Jesus? E essa mulher que foi
brutalmente martirizada pelas mos daqueles que contriburam
para sua desgraa? Que dizer dessa pobre alma? No era isso
acaso a seqncia lgica de todo esse terrvel sistema de licena
para venda de lcool, e que, por mais um ano, continuaria sendo o
algoz da cidade? Agora, o mesmo sistema responsvel pela
degradao de Loreen, no mesmo local em que ela conheceu a
podrido e o esfacelamento de sua vida, ela, que estava morrendo
pouco a pouco, acabou sendo morta repentinamente por seus
prprios algozes por meio de outra arma assassina, justamente
quando comea a dar os primeiros passos no caminho da
reabilitao. De qualquer forma, talvez ela estivesse sentenciada 
morte por fora da lei que os crentes de Raymond tinham ajudado
a manter. Quantas centenas de Loreens tero um ou outro fim at
se completar um ano do novo governo eleito legitimamente pelo
voto?
      Tudo isso, dito com voz trmula e nervosa, no raro
entrecortada de soluos angustiosos causados pelo resultado
inesperado, levou Maxwell a derramar sua alma diante da
congregao naquela manh de domingo. No faltaram lgrimas
em todo o auditrio. A dor foi muito grande. Pela nobre face de
Donald Marsh deslizavam grossas lgrimas, esquecido de sua
habitual postura imperturbvel, elegante, ereta e altaneira. Poucas
vezes ele levantou a cabea para no expor sua profunda tristeza.
Perto dele, Eduardo Norman era tambm a imagem do desalento,
triste, plido, lbios trmulos, as mos nervosamente agarradas no
encosto do banco da frente. Ningum se empenhou tanto, ningum
sofreu tanto para influenciar a opinio pblica com sua pena
vigorosa. Ele estava tambm corrodo pela dvida: teria sido a
conscincia crist despertado muito tarde ou fracamente? Quem
poderia dizer o que teria acontecido se desde longo tempo ele
tivesse feito o que Jesus faria? Quanto teramos avanado at este
momento? E l em cima, Raquel Winslow, com o rosto curvado
entre as mos apoiadas no parapeito da galeria do coro, estava
totalmente dominada por forte emoo e, findo o culto, quando
tentou cantar o ltimo solo, sua voz titubeou e silenciou abafada
por um soluo. Pela primeira vez, ela se viu obrigada a sentar-se
chorando copiosamente. Nunca tantas lgrimas foram vertidas na
Primeira Igreja.
     Depois desta cena estranha, nunca antes presenciada, os
soluos e o choro aumentaram. Desde quando a Primeira Igreja
experimentara esse batismo de lgrimas? Onde estava o aparato, o
formalismo, o estilo convencional, a ordem impecvel, o silncio
jamais perturbados por emoes e excitaes descontroladas? 
que os valores mais preciosos e as convices mais ntimas
daqueles crentes foram pisoteados. Estavam h tanto tempo
acostumados aos sentimentos superficiais e passageiros que quase
esqueceram as fontes profundas da vida e das vicissitudes da
peregrinao crist. Agora que a superfcie foi agitada, eles
entenderam melhor o sentido do discipulado.
     O Pastor Maxwell no fez o convite habitual, nessa manh,
aos voluntrios a participar do grupo que j havia prometido fazer
o que Jesus faria. Mas, quando a congregao se desfez e se foi
para seus lares, ao entrar na biblioteca um nico relance de olhos
deu-lhe a certeza de que o grupo de seguidores havia crescido
consideravelmente. O encontro foi tranqilo, mas sentia-se desde
logo a presena do Esprito. Havia uma forte determinao de
deflagrar uma luta sem trguas contra o poder do alcoolismo em
Raymond at destru-lo em definitivo. Desde o primeiro domingo
dessa srie de encontros, estes vinham sendo caracterizados por
diferentes impulsos e impresses. Hoje toda a fora do grupo
parecia dirigida para esse grande propsito. Foi uma reunio de
oraes de confisses de faltas, de contrio, de um forte desejo de
uma vida nova e melhor para a cidade. E havia um clamor geral
unssono em favor da eliminao do lcool e de suas terrveis
conseqncias.
      Mas, se a Primeira Igreja estava profundamente excitada em
razo dos acontecimentos da ltima semana, o Retngulo tambm
se sentia estranhamente abalado. A morte de Loreen no
aparentava ser, em si mesma, um fato preponderante. Mas o lado
superficial  o que prevalecia na mente de todos. Sabiam que o
corpo de Loreen estava naquele momento na manso da famlia
Page, na avenida. Informaes fantasiosas mencionavam a
magnificncia do esquife. o que lhes proporcionava matria para
mexericos. O Retngulo estava curioso para saber os detalhes do
funeral. Seria pblico? O que a srta. Page pretendia fazer? O
Retngulo nunca tivera relaes, ainda que distantes, com a
aristocracia. Gray e sua esposa foram assediados por curiosos e
supostas amigas e conhecidos de Loreen pretendendo saber como
poderiam prestar-lhe suas ltimas homenagens, pois suas amigas
eram numerosas e entre elas estavam vrias convertidas.
     Resolveu-se ento, por solicitao de Gray a Virgnia e
Maxwell, que o corpo de Loreen seria transferido para o Retngulo,
ficando exposto na tenda. A cerimnia seria segunda-feira  tarde,
quando numeroso pblico l compareceu espremendo-se dentro e
derramando-se para fora da tenda, cujas lonas laterais foram
levantadas.
      "Fui sempre contrrio a grandes funerais pblicos", disse
Gray, cuja simplicidade era uma de suas principais caractersticas,
"mas o pedido das pobres criaturas que conheciam Loreen foi to
insistente que no sabia como satisfazer ao desejo que
manifestaram de v-la e dar-lhe uma despedida condigna. Que
pensa o irmo Maxwell? Gostaria de seguir sua disposio e a da
srta. Page, certo de que faro o que for mais conveniente."
     "Penso do mesmo modo", respondeu Maxwell. "Nestas
circunstncias  prefervel evitar qualquer ostentao, mas este 
um caso especial. O povo do Retngulo no viria aqui para as
cerimnias. Creio que a atitude mais crist  realizar o ato na
tenda. Que lhe parece, srta. Page?
      "Sim, estou de acordo com o senhor", disse Virgnia. "Pobre
criatura! Fiquei sabendo depois que ela deu sua vida por mim!
Embora no queiramos aproveitar a ocasio para uma ostentao
vulgar, penso que no devemos recusar a essa gente humilde essa
justa pretenso. No vejo nisso nenhum inconveniente. Considero,
alis, muito apropriado e cristo."
      Assim, foram tomadas as providncias, com alguma
dificuldade, para que a cerimnia se realizasse na tenda. Para l
seguiram Virgnia com seu tio e Rollin, acompanhados por Maxwell,
Raquel e Donald Marsh, alm do quarteto da Primeira Igreja. Foi
uma experincia nova e estranha para todos.
      Achava-se presente um reprter que acidentalmente estava
no Retngulo a servio de seu jornal. Tendo ouvido falar do enterro
e das circunstncias que o precederam, e que lhe pareceram
inusitados em certo sentido, foi at l para assistir s cerimnias,
por curiosidade e por dever de ofcio. A narrativa que fez do
acontecimento num estilo vigoroso chamou a ateno de muitos
leitores no dia seguinte. Um trecho dessa narrativa passa a
pertencer  histria de Raymond:
     "Realizou-se aqui uma cerimnia fnebre nica e at certo
ponto estranha, ontem  tarde na tenda de um evangelista
chamado Joo Gray, num bairro de m fama conhecido como
Retngulo. Tratava-se de um enterro de uma mulher que foi
assassinada durante um conflito por ocasio das eleies no
ltimo sbado. Ao que consta, ela tinha sido recentemente
convertida durante as reunies do evangelista, tendo sido morta
quanto retornava da reunio em companhia de outros convertidos
e de algumas amigas. Ela era uma mulher comum da rua, quase
sempre embriagada, mas, apesar disso, os servios realizados na
tenda foram to impressionantes como jamais testemunhei,
mesmo numa catedral, em honra dos cidados mais ilustres.
      "Em primeiro lugar, estranhei ouvir naquela barraca um
canto maravilhoso entoado por um coro bem ensaiado, semelhante
talvez ao que poderamos ouvir nas grandes igrejas ou salas de
concerto. Mais extraordinrio ainda foi um solo apresentado por
uma jovem belssima, srta. Winslow, que, se bem me lembro,  a
jovem cantora convidada por Crandall, o dirigente da pera
Nacional, e que por alguma razo se recusou a aceitar sua
proposta para se apresentar no palco. Ela tem um modo de cantar
realmente admirvel, e todos j estavam comovidos antes de ela
dizer uma dzia de palavras. Na realidade, isso no  to estranho,
mas acredito que entre mil vozes no se encontram duas como
aquela. Soube que a srta. Winslow canta na Primeira Igreja de
Raymond e poderia, se quisesse, ganhar vultosa soma de dinheiro
como cantora lrica. Provavelmente ouviremos ainda falar dela
como grande artista. Uma voz como aquela ser aplaudida onde
quer que ela se apresente.
      "Afora a msica de primeira qualidade, a cerimnia foi
notvel. O evangelista, um homem de aparncia singela e
linguagem simples, pronunciou algumas palavras, e estava
acompanhado por um senhor de boa aparncia, o Rev. Henrique
Maxwell, pastor da Primeira Igreja de Raymond. O Rev. Maxwell
afirmou que aquela mulher estava preparada para morrer, tendo
aceitado a salvao de modo inequvoco, porm insistiu com
veemncia sobre os efeitos danosos do lcool na vida de homens e
mulheres como aquela. Sendo uma cidade ferroviria e centro
comercial importante da regio, Raymond possui muitos pontos de
venda de bebidas alcolicas. Percebi, pelas palavras do pastor, que
ele havia apenas recentemente mudado sua opinio a respeito da
licena concedida para funcionamento desses bares. Seu sermo
foi nitidamente contra o alcoolismo, mas tinha sua razo de ser
dadas as circunstncias que levaram quele velrio.
     "O que aconteceu a seguir foi talvez a parte mais fantstica
da cerimnia. As mulheres presentes na tenda, ou pelo menos uma
boa parte delas, agrupadas junto ao caixo, comearam a cantar,
com uma voz triste e lamentosa um hino que continha a frase 'Fui
uma ovelha desgarrada'. Em seguida, enquanto prosseguia o
cntico, uma fila de mulheres se levantou e comeou a passar
lentamente ao lado do caixo, e enquanto caminhavam, cada uma
delas colocava uma flor sobre o corpo do cadver. Depois
sentaram-se, e uma outra fileira passou junto ao caixo deixando
suas flores. Durante todo esse tempo o cntico continuava
suavemente como uma leve chuva caindo sobre a tenda quando
sopra um vento suave. Foi uma das cenas mais singelas porm
mais tocantes a que assisti em toda minha vida. As lonas laterais
da tenda estavam erguidas, de modo que podiam ser vistas
centenas de pessoas que no conseguiram entrar, tendo
acompanhado tudo do lado de fora, mas expressando dali sua
tristeza e solene respeito, coisa admirvel em pessoas desse nvel.
Havia centenas dessas mulheres, e fui informado de que muitas
delas tinham se convertido nas ltimas reunies do evangelista.
Faltam-me palavras para descrever o efeito daquele cntico.
Nenhum homem cantou. Ouviam-se somente vozes femininas, to
suaves e ao mesmo to ntidas que o efeito era comovente.
     "A cerimnia encerrou-se com um cntico da srta. Winslow --
'Noventa e nove ovelhas h', seguido das palavras do evangelista
que pediu a todos que baixassem suas cabeas para a orao de
despedida. Vi-me forado, para no perder o trem, a deixar a tenda
durante a orao, mas ainda pude ver do trem o povo saindo da
barraca e formando alas silenciosas, enquanto o caixo era
conduzido por seis mulheres. H muito tempo no via semelhante
quadro em nossa Repblica to desprovida de poesia."
     Se o funeral de Loreen impressionou tanto um estranho de
passagem, no  difcil imaginar os profundos sentimentos
daqueles que estiveram ligados a ela em sua vida e em sua morte.
Nenhuma emoo mais forte havia at ento ocorrido no Retngulo
do que aquela causada pela viso do corpo de Loreen naquele
caixo. E o Esprito Santo parecia abenoar com um poder especial
o uso daquele corpo inerte, porquanto, naquela mesma noite, na
tenda, Ele soprou sobre dezenas de pessoas, especialmente
mulheres, que foram atradas para o aprisco do Bom Pastor.
     Comentou-se que as previses do Pastor Maxwell foram
confirmadas em relao ao botequim de onde partiu a garrafa que
matou Loreen. A polcia fechou o estabelecimento por dois dias, e o
proprietrio acusado de assassinato foi preso, mas nada pde ser
provado contra ele nem contra qualquer outra pessoa do local.
Naquela mesma semana o botequim voltou a funcionar
normalmente como antes. Ningum ser punido por tribunais
terrenos pela morte de Loreen.
                         DEZESSEIS
     Nenhuma outra pessoa em toda Raymond, incluindo a gente
do Retngulo, sentiu mais agudamente a morte de Loreen do que
Virgnia. Foi para ela como a perda de um familiar. Naquela breve
semana, enquanto a jovem estava em sua casa, o corao de
Virgnia abriu-se para uma nova vida. Ela falava disso com Raquel
um dia depois do funeral. Conversavam ambas no salo da casa
dos Page.
     "Quero aplicar uma parte do meu dinheiro para ajudar
aquelas mulheres a ter uma vida melhor." Ela voltou os olhos para
o fundo do salo onde, no dia anterior, estivera o corpo de Loreen.
"Parece-me um bom plano. J conversei com Rollin a este respeito.
Ele tambm vai usar uma boa parcela do seu dinheiro no mesmo
empreendimento."
     "Virgnia, de quanto dinheiro voc dispe para investir nesse
empreendimento?", perguntou Raquel. Nunca antes ela teria feito
semelhante pergunta de carter pessoal. Agora, porm, parecia-lhe
natural falar francamente sobre dinheiro como, de resto, sobre
qualquer outro assunto que pertencesse a Deus.
      "Posso dispor atualmente de pelo menos 450 mil dlares.
Rollin tem muito mais. Um dos maiores arrependimentos dele  o
de ter dissipado com extravagncia, antes de sua converso,
metade da fortuna que papai lhe deixou. Ambos queremos
ansiosamente fazer agora aquilo que deixamos de fazer e que esteja
ao nosso alcance, como uma espcie de reparao que devemos.
'Que faria Jesus com este dinheiro?' Queremos responder honesta
e sabiamente a esta pergunta. Estou confiante de que o dinheiro
que investi no Dirio de Notcias vai produzir um resultado
extraordinrio, de acordo com a vontade de Deus.  importante
que tenhamos um jornal dirio cristo em Raymond, mormente
agora que devemos enfrentar a influncia do lcool. A meu ver, o
jornal  to importante quanto uma igreja ou um colgio. Estou
esperanosa de que o sr. Norman saber usar bem os 500 mil
dlares para converter-se num poderoso fator de influncia em
Raymond para fazer o que Jesus faria.
     "Com respeito ao outro plano, Raquel, desejo que voc
trabalhe comigo. Rollin e eu vamos adquirir uma ampla
propriedade no Retngulo. A rea em que se encontra a tenda
atualmente est em litgio h muitos anos. Temos inteno de ficar
com todo o terreno logo que os tribunais decidirem a questo. Faz
algum tempo que venho estudando a possibilidade de estabelecer
escolas e mtodos de edificao de prdios de instituies
beneficentes da igreja no centro dos bairros carentes das grandes
cidades. No sei ainda exatamente como definir a forma mais
prtica e eficaz de trabalho que pode ser feito em Raymond. Minha
idia  usar meu dinheiro -- isto , o dinheiro que Deus deseja que
eu use -- na construo de alojamentos, abrigos para mulheres
pobres, asilos para moas desamparadas, segurana para muitas e
muitas mulheres perdidas como Loreen. Mas no quero ser
simplesmente uma despenseira dos recursos financeiros. Quero
participar dos problemas, e que Deus me ajude que eu consiga.
Voc sabe, Raquel, que por mais ilimitados que sejam os recursos
e todos os sacrifcios pessoais mais abnegados que possamos fazer,
na realidade no sero capazes de amenizar muito a terrvel
condio no Retngulo, enquanto o lcool for legalmente vendido l.
Penso que este  o mesmo problema que existe nas grandes
cidades. O lcool compensar com vantagem e mais rapidamente
todo o esforo cristo de resgatar os viciados.  uma luta
desigual."
      De repente Virgnia levantou-se e comeou a caminhar pela
sala. Raquel respondeu com certo desalento, mas com um tom de
esperana na voz:
      "Tudo isso  verdade, Virgnia, mas quantas coisas
maravilhosas podem ser feitas com esses recursos! E o alcoolismo
no pode permanecer sempre aqui. Tempo vir em que as foras
crists da cidade triunfaro."
     Virgnia parou perto de Raquel, e seu rosto plido e
preocupado iluminou-se.
      "Eu tambm acredito nisso. O nmero dos que tm prometido
fazer o que Jesus faria est aumentando. Se chegarmos a ter,
digamos, quinhentos desses discpulos em Raymond, o alcoolismo
ser destrudo. Mas agora, querida, quero falar da parte que
caberia a voc neste plano para dominar e resgatar o Retngulo.
Sua voz  um grande poder. Tenho tido muitas idias ultimamente.
Uma delas  a seguinte: Voc poderia organizar entre as moas um
instituto musical, proporcionando-lhes o benefcio de seu talento e
educao musical. H vozes maravilhosas entre elas. Voc j ouviu
alguma coisa semelhante quele coral que elas formaram ontem?
Raquel, que oportunidade magnfica temos em mos! Voc ter o
melhor em instrumentos musicais, como rgos, instrumentos de
cordas e de sopro que o dinheiro pode prover. O que a msica no
 capaz de fazer para ganhar almas para Cristo e elev-las a
alturas jamais imaginadas?"
     Antes de Virgnia parar de falar o rosto de Raquel parecia
transfigurado ante a perspectiva de um trabalho de interesse vital
para a salvao dos pecadores. A alegria transbordava em seu
corao brotando atravs dos olhos em lgrimas irreprimveis. Era
exatamente o que ela sonhava fazer: usar o talento recebido de
Deus numa causa nobre.
     "Sim, Virgnia", disse ela levantando-se e envolvendo a amiga
com seus braos, e enquanto extravasavam seu contentamento
caminhavam abraadas pela sala. "Sim. ficarei felicssima em
poder dedicar minha vida a tal empreendimento. Creio que Jesus
deseja que eu use minha vida nessa obra. Virgnia, que maravilhas
poderiam ser feitas em favor da humanidade se tivssemos uma
alavanca to poderosa como o dinheiro colocado a servio de Deus
e sob a orientao dele!"
     "Acrescente a isso o entusiasmo pessoal como o seu, e  certo
que grandes coisas sero feitas em nome do Senhor", disse Virgnia
exultante. E antes que Raquel pudesse responder Rollin entrou.
      Ele se mostrou hesitante, tencionando passar da sala para a
biblioteca quando Virgnia o chamou e lhe fez algumas perguntas
relativas ao seu projeto.
      Rollin voltou e sentou-se, e juntos os trs discutiram seus
planos futuros. Rollin estava na aparncia inteiramente  vontade
na presena de Raquel devido  companhia da irm, apenas a
maneira de dirigir-se a ela era no exatamente fria, mas
cerimoniosa. O passado parecia completamente ofuscado pela sua
maravilhosa converso. Ele evidentemente no a esquecera, mas
estava totalmente subjugado pelos seus novos propsitos de vida.
Pouco depois algum o chamou e Raquel e Virgnia comearam a
falar de outras coisas.
     "A propsito, o que aconteceu com Jasper Chase?" perguntou
Virgnia inocentemente, mas, notando que Raquel ficou corada.
Virgnia, um tanto sem jeito, acrescentou com um sorriso:
"Suponho que est escrevendo outro livro. Ser que ele vai colocar
voc tambm nesse novo romance? Sabe que eu sempre desconfiei
que ele se referia a voc nos traos da herona do primeiro
romance?"
     "Virgnia", disse Raquel com a franqueza que sempre existiu
entre ambas, "Jasper Chase disse-me uma noite que... de fato ele
pediu... ou gostaria que..."
     Raquel parou  sentou-se com as mos entrelaadas sobre o
regao, e seus olhos verteram lgrimas.
     "Virgnia, eu acreditava am-lo h algum tempo, como ele
disse que me ama. Mas quando ele falou, meu corao o repeliu e
respondi-lhe como ele merecia. Eu lhe disse no, e desde a nunca
mais nos vimos. Foi naquela noite das primeiras converses no
Retngulo."
     "Fico feliz por voc" disse Virgnia calmamente.
     "Por qu?" perguntou Raquel um tanto espantada.
      "Porque nunca apreciei realmente Jasper Chase. Ele  muito
frio e -- no pretendia julg-lo, mas sempre desconfiei de sua
sinceridade em tomar o compromisso conosco na igreja."
     Raquel olhou pensativa para Virgnia.
     "Na verdade, jamais lhe dei meu corao, estou certa disso.
      Ele mexeu com minhas emoes e eu admirava seu talento
como escritor. s vezes pensava muito nele. Imagino que se ele
tivesse falado comigo noutra circunstncia e no naquela que ele
escolheu eu poderia facilmente convencer-me de que o amava, mas
agora no."
     De novo Raquel interrompeu-se de repente, e quando ergueu
os olhos para Virgnia eles estavam marejados de lgrimas.
Virgnia foi at ela abraou-a carinhosamente.
     Quando Raquel se despediu, Virgnia sentou-se na sala
pensando nas confidncias que a amiga tinha revelado. Havia
ainda alguma, coisa a ser dita, sentiu Virgnia pela maneira de
Raquel se expressar, mas no ficou magoada por Raquel esconder-
lhe alguma coisa. Ela percebeu mais pelo corao do que pelas
palavras da amiga.
     Rollin entrou em seguida e juntos, de braos* dados, os
irmos caminharam demoradamente pelo salo, como tinham o
hbito de fazer. Com toda naturalidade Virgnia concentrou sua
conversa em Raquel tendo em vista o lugar que ela ocuparia nos
planos que estavam sendo delineados para a compra da
propriedade no Retngulo.
     "Voc conhece outra pessoa realmente dotada de poder
musical disposta a dar sua vida para a salvao do povo como
Raquel? Ela se comprometeu a dar aulas de msica na cidade,
arrolar alunos particulares para ter sua renda, e em seguida se
consagrar ao trabalho no Retngulo beneficiando aquela gente
com sua cultura e sua voz."
      "Sem dvida,  um belo exemplo de abnegao", replicou
Rollin com a voz um tanto contida.
     Virgnia olhou-o com ar de surpresa e desafio. "Mas voc no
acha que  um exemplo admirvel? Poderia voc imaginar..." -- e
citou vrios nomes de celebridades do mundo da pera -- "fazendo
alguma coisa deste gnero?"
     "Certamente que no, no poderia", admitiu Rollin.
"Tampouco posso imaginar a srta. S. -- e citou o nome da jovem da
sombrinha, de seda vermelha que estivera com Virgnia no
Retngulo -- fazendo o que minha querida irm vem fazendo."
      "Por minha parte, tambm no posso imaginar seus amigos
fulano e sicrano falando aos scios do clube, como voc tem falado,
Rollin." Os dois caminharam em silncio por toda a extenso da
sala.
     "Voltando a Raquel", continuou Virgnia, "por que, Rollin,
voc a trata desta maneira formal e fria, ou mesmo indiferente?
Acho, Rollin -- perdoe-me se o estou magoando -- que ela no
aprecia esse seu gesto de superioridade. Penso que voc deve ser
mais natural, mais amistoso. Parece-me que esta mudana de
tratamento no est agradando a nossa amiga.
     Rollin parou de repente, dando sinais de profunda agitao.
Ele afastou o brao do brao de Virgnia, caminhou solitrio at o
fim da sala. Retornou em seguida para junto dela com as mos
cruzadas para trs e disse: "Voc no percebeu meu mistrio,
Virgnia?"
     Virgnia olhou-o estupefata e seu rosto empalideceu,
parecendo ter percebido num repente a verdade que lhe fora
encoberta at ento.
     "Nunca amei outra pessoa a no ser Raquel." Sua voz agora
revelava calma e segurana. "No dia em que ela esteve aqui e
comunicou que tinha recusado o convite para atuar na companhia
operstica, logo que ela se despediu sa imediatamente atrs dela,
alcancei-a na avenida e declarei meu amor por ela, pedindo-a em
casamento. Ela no aceitou, como eu supunha que faria, alegando
que eu no tinha um propsito, um ideal na vida, no que alis
estava certa. Agora que tenho um propsito, agora que sou uma
nova pessoa, como voc nota, Virgnia, tenho muita dificuldade,
quase uma impossibilidade, de dizer a ela qualquer coisa. Raquel
fechou a porta para mim, voc entende o meu problema? Devo
minha converso aos cnticos de Raquel, e no entanto posso
afirmar com toda honestidade que naquela noite o cntico dela era
para mim simplesmente a mensagem de Deus. Posso assegurar a
voc que, naquele momento, j no estava pensando no amor que
sentia por ela. Na realidade, senti, sim, que todo o meu amor
pessoal por ela se transformara num amor maior a Deus e a meu
Salvador. Fui absorvido por esse amor transfigurado."
    Rollin ficou em silncio, depois voltou a falar com mais
emoo. "Eu ainda a amo, Virgnia, mas no creio que ela me
amar." Ento parou olhando para sua irm com um sorriso triste.
     "Nada posso dizer a este respeito", disse Virgnia, falando
mais para si mesma. Ela pde pela primeira vez nesta nova fase da
vida de Rollin admirar sua imponncia, sua varonilidade, sua
figura atraente sem os vestgios daquela vida dissoluta. Com seus
lbios firmes, sua face luminosa, seu olhar franco e sereno, seus
modos refinados ainda que simples e naturais, Rollin era agora um
homem de fato, com um alto propsito em sua mente e em seu
corao. Por que, com o passar do tempo, Raquel no poderia
corresponder ao seu amor? Seguindo ambos na mesma estrada,
carregando o mesmo estandarte e dirigidos pelo Esprito, por que
no esperar um final feliz?
     Virgnia procurou reavivar as esperanas do irmo, sem
conseguir transmitir-lhe muito conforto, mas quando Rollin saiu
ela pde sentir, intimamente, que seu irmo pretendia continuar
sua obra nos clubes e, sem evitar Raquel e tratando-a com o
respeito que ela merecia, no procuraria uma nova ocasio para
encontr-la. Receava ser novamente levado por seus sentimentos,
temendo que uma segunda recusa pudesse afetar o
relacionamento e o companheirismo respeitoso de ambos na obra
do Mestre.



                        DEZESSETE
     No dia seguinte Virgnia foi ao Dirio de Notcias conversar
com Eduardo Norman e acertar as medidas necessrias para pr
em prtica a aplicao dos recursos que ela prometera. Maxwell
compareceu ao encontro, e os trs reiteraram sua convico de que
Jesus, se estivesse na direo do jornal, usaria os mesmos
princpios que guiaram sua conduta como Salvador do mundo.
      "Procurei colocar por escrito aquilo que penso que Jesus
faria", disse Norman, levantando uma folha de papel que estava em
cima da mesa. Diante desse gesto, Maxwell recordou seu prprio
empenho e tambm o de Milton Wright de escrever o que julgavam
que Jesus faria em seu lugar.
     "Dei a este plano de inteno o ttulo 'Que faria Jesus no
lugar de Eduardo Norman, diretor de um jornal dirio em
Raymond?'
      "1. Ele nunca permitiria em seu jornal uma frase ou uma
ilustrao que fosse considerada grosseira, imoral ou ofensiva.
     "2. Ele trataria o contedo poltico do jornal com base numa
posio patritica, porm apartidria, apresentando seus pontos
de vista sempre  luz de sua relao com o reino de Deus,
defendendo medidas que visem ao bem-estar do povo, observando
sempre o princpio bsico ' o correto?' e jamais com base na
opinio 'est de acordo com o interesse deste ou daquele partido?'
Em outras palavras, todas as questes polticas, bem como todos
os outros assuntos, seriam tratados tendo em vista o progresso do
reino de Deus na terra."
     Eduardo Norman interrompeu a leitura de seu programa para
esclarecer:
    "Entendam que esta  minha opinio sobre a provvel ao de
Jesus nas questes polticas de um jornal dirio. No estou
pretendendo julgar outros profissionais da imprensa que tm uma
concepo diferente da minha. Estou tentando simplesmente
responder honestamente  pergunta: 'Que faria Jesus se fosse
Eduardo Norman?' Para mim a resposta  a que est escrita aqui."
     "3. O fim e o alvo de um jornal dirigido por Jesus seria fazer a
vontade de Deus. Isto , seu propsito preponderante no seria e
de enriquecer-se ou obter influncia poltica. Seu propsito
primeiro e predominante seria o de conduzir seu jornal de tal
forma que se tornasse evidente a todos seus leitores que Ele est
buscando primeiramente o reino de Deus por meio de seu jornal.
Este propsito seria to diferenciado e inquestionvel como o
propsito de um ministro, um missionrio ou qualquer mrtir
abnegado a servio da obra crist em qualquer lugar.
     "4. Seriam recusados todos os anncios de carter duvidoso.
    "5. As relaes de Jesus com os empregados do jornal seriam
as mais cordiais."
      Fazendo uma nova pausa, Norman disse: "'Estou certo de que
Jesus usaria alguma forma de cooperao que equivaleria a uma
co-participao num negcio em que todos tivessem interesse num
grande resultado final. Estou trabalhando neste plano certo de que
ele ser bem-sucedido. Uma vez que se introduza a idia de
interesse comum, em que o negcio passa a ser de todos e de cada
um pessoalmente, elimina-se o confronto, a inveja, o egosmo, o
objetivo do benefcio pessoal que nem sempre beneficia a empresa.
Deste modo todos, editores, reprteres, impressores e os demais
que participam da vida do jornal estao fazendo fora na mesma
direo e colhendo juntos os melhores frutos, alm de se
manterem identificados com a empresa e com seu trabalho
individual."
      "6. Como diretor de um jornal dirio hoje, Jesus daria ampla
cobertura ao tema da obra crist no mundo. Dedicaria certamente
pginas inteiras  reforma religiosa, aos problemas sociais,  obra
institucional da igreja e a outras atividades semelhantes.
      "7. Ele faria todo o possvel, atravs de seu jornal, para
combater o vcio do alcoolismo como um inimigo da raa humana e
uma chaga desnecessria em nossa civilizao. Esse combate no
levaria em conta a opinio pblica nem se deteria, mesmo que
seus efeitos causassem prejuzo ao jornal."
     Norman de novo parou a leitura para comentar:
     "Expresso aqui minha honesta convico sobre este ponto.
No pretendo, evidentemente, julgar os dirigentes, cristos ou no,
de outros jornais. Mas, como compreendo Jesus, Ele usaria
unicamente a influncia do jornal para erradicar totalmente o
lcool da vida poltica e social do pas."
     "8. Jesus no publicaria jornal aos domingos.
     "9. Ele publicaria exclusivamente as notcias que julgasse
apropriadas para o pblico. Dentre as matrias que o pblico no
precisa saber e que no sero publicadas estariam relatos de
brutais lutas de boxe, longas narrativas de crimes, escndalos da
vida privada ou qualquer outro acontecimento que, de uma forma
ou de outra, venha a conflitar com o primeiro ponto mencionado
neste esboo.
     "10. Se Jesus tivesse a soma de dinheiro de que disponho
para aplicar neste jornal, Ele procuraria a colaborao dos
melhores escritores cristos. Este objetivo ser um dos primeiros a
ser perseguidos.
     "11. Os itens acima delineados em forma de um plano de
propsito e conduta jornalstica resumem-se, por definio, a fazer
a vontade de Deus e promover o seu reino no mundo. Este
princpio geral nortear toda a atividade da empresa no seu
conjunto e nos seus detalhes."
     Eduardo Norman terminou a leitura do plano. Em seguida,
ainda com os olhos no papel, ficou silencioso e muito pensativo.
      "O que fiz foi meramente esboar estas idias bsicas. Tenho
centenas de outras idias para fazer do Dirio um veculo
poderoso -- o que exporei no devido tempo. O que acabo de ler 
apenas uma sugesto. Tenho conversado sobre isto com outros
dirigentes de jornais. Alguns me disseram que terei apenas um
jornal inspido e fraco como uma lio de escola bblica dominical.
Se eu pudesse conseguir uma coisa to boa como a escola bblica
dominical seria timo. No entendo por que certos homens,
quando tentam definir alguma coisa fraca ou inconseqente fazem
comparaes com a escola dominical. Deveriam eles saber que a
escola dominical  uma das instituies mais poderosas neste pas
atualmente. Mas o jornal no precisa ser necessariamente fraco
por ser bom. As coisas boas so mais poderosas do que as ms. A
questo decisiva para mim  o apoio dos cristos de Raymond.
Temos aqui nesta cidade mais de vinte mil membros de igreja. Se
metade deles nos der apoio, a carreira do Dirio estar assegurada.
Que pensa disso, irmo Maxwell? H probabilidade de conseguir
esse apoio?"
      "No tenho elementos suficientes para dar uma idia ainda
que incompleta. Pessoalmente acredito no jornal de todo o meu
corao. Se ele circular durante um ano, como disse a srta. Page,
ser difcil avaliar o benefcio que vai prestar  nossa sociedade. 
questo mais importante  publicar um jornal que seja o mais
parecido possvel com o que Jesus publicaria. Para tanto, 
fundamental que se lance mo de colaboradores de alto nvel,
cristos respeitados, para impor-se ao respeito geral, sem nenhum
vestgio de fanatismo, indigncia mental, polmica e o que mais
que seja contrrio ao esprito de Cristo. Deveremos ter o melhor em
pensamento e qualidade moral que seja possvel arrebanhar nesta
cidade, no pas e at mesmo no exterior."
      "Sim", disse Norman com humildade. "Sei que cometerei
muitos erros, sem dvida. Preciso de uma grande dose de
sabedoria. Desejo fazer o que Jesus faria, mas que faria Ele?
Continuo fazendo esta pergunta desde o meu compromisso e
insistirei,  espera dos resultados."
      "Penso que estamos comeando a compreender o sentido do
mandamento 'Crescei na graa e no conhecimento de nosso
Senhor e Salvador Jesus Cristo"', disse Virgnia. "Estou certa de
que no farei o que Ele especificamente faria, seno  medida que
o for conhecendo melhor."
     "Isso  verdade", interveio Maxwell. "Estou comeando a
compreender que no posso interpretar a provvel atitude de Jesus
at que conhea melhor seu esprito. A maior de todas as
perguntas em toda a vida humana resume-se em saber 'Que faria
Jesus?', se quando perguntamos procuramos responder com base
no conhecimento da mente de Cristo. Precisamos antes conhec-lo
para imit-lo."
     Quando o acerto entre Norman e Virgnia foi ultimado, o
Dirio de Notcias passou a dispor da soma de 500 mil dlares
para utilizar no projeto de um dirio cristo. Quando Virgnia e
Maxwell se retiraram, Norman fechou a porta do escritrio, e
sozinho na presena divina, ajoelhou-se ao lado da mesa e, como
uma criana, clamou por ajuda ao Pai todo-poderoso. Durante sua
ardente orao atravessava-lhe a mente a promessa -- "Se, porm,
algum de vs necessita de sabedoria, pea-a a Deus, que a todos
d liberalmente e nada lhes censura; e ser-lhe- concedida." Por
certo tal orao seria respondida, e o reino avanaria atravs desse
poderoso instrumento do poder de Deus, uma imprensa forte e
livre, que, vtima da incompreenso, da avareza, da inveja e da
ambio, tem sido to rebaixada e maltratada.
      Dois meses se passaram. Meses marcados por muitas aes e
resultados na cidade de Raymond e especialmente na Primeira
Igreja. Apesar da aproximao do vero com seu forte calor, as
reunies dominicais dos discpulos que assumiram o compromisso
de seguir os passos de Jesus continuaram com entusiasmo e poder.
Gray havia completado sua obra no Retngulo. Um observador
ocasional que por ali passasse poderia no notar qualquer
diferena nas velhas condies de vida daquele lugar, embora
tivesse havido uma mudana efetiva em centenas de vidas. Mas os
bares, tavernas, casas de jogos e ambientes similares continuavam
envenenando e fazendo novas vtimas que substituam aqueles que
eram arrebanhados pelo evangelista. O poder de Satans se
recuperava rapidamente.
     Henrique Maxwell decidira no tirar frias. Em lugar disso,
resolveu lanar mo do dinheiro que havia economizado para a
viagem para possibilitar que uma famlia do Retngulo, que nunca
havia deixado aquele distrito e aquela casa feia e desconfortvel. O
pastor da Primeira Igreja jamais esquecer a semana de
preparativos com aquela famlia, tomando todas as providncias.
Ele foi ao Retngulo num dia de calor insuportvel e que se
agravava naquelas moradias abafadas. Levou a famlia  estao e
viajou com ela a um lindo e agradvel lugar  beira-mar, na casa
de uma senhora crist. L pde aquela famlia respirar, pela
primeira vez, um ar mido e saudvel com uma brisa suave que
soprava ao entardecer trazendo com ela a fragrncia vinda dos
pinheiros e que parecia renovar-lhes a vida.
     A famlia se compunha de seis pessoas. A me cuidava de
uma criancinha doente e de outras trs crianas, uma delas
atacada pela paralisia. O pai, que esteve muito tempo
desempregado, chegando a tentar o suicdio, como depois
confessou a Maxwell, sentou-se com a criancinha em seus braos
durante toda a viagem, e quando Maxwell os deixou para retornar
a Raymond, depois de constatar que a famlia estava bem alojada,
o homem deu-lhe um demorado aperto de mo em agradecimento
e ficou to emocionado que chegou s lgrimas, deixando o pastor
um tanto embaraado. A me, uma mulher debilitada, frgil, que
tinha perdido trs crianas no ano anterior devido a uma epidemia
de febre no Retngulo, sentou-se perto da janela do trem sorvendo
toda aquela brisa do oceano, do ar, dos campos. Tudo aquilo lhe
parecia um milagre. E Maxwell, retornando a Raymond no final
daquela semana, sentiu o calor sufocante e insalubre da cidade,
aparentemente agravado depois do ar puro do oceano, agradeceu a
Deus a alegria que pde proporcionar e testemunhar, voltando 
sua rotina com um corao mais humilde. Foi a primeira vez que
sacrificou suas frias de vero para fugir do calor de Raymond,
mas sentia-se recompensado pelo bem que fizera quela pobre
famlia.
      "Na realidade", dizia ele em resposta s vrias indagaes que
ouvia dos membros da igreja, "no sinto necessidade de tirar frias
este ano. Estou muito bem e prefiro ficar aqui." Sentiu-se aliviado
ao esconder de todos, exceto de sua esposa, o que havia planejado
e realizado com tanta satisfao para aquela famlia. Ele quis fazer
isso sem ostentao e sem o aplauso do reconhecimento humano.
Queria estar bem consigo mesmo.
      Assim chegou o vero, e Maxwell cresceu no conhecimento do
Senhor. A Primeira Igreja continuava influenciada pelo poder do
Esprito. Ele ficou maravilhado com isso. Sabia muito bem desde o
incio que somente a presena do Esprito poderia impedir que a
igreja sofresse algum abalo na forte provao por que passara.
Mesmo agora havia muitos membros que no haviam feito a
promessa e que viam todo o movimento, como fez a sra. Winslow,
me de Raquel, ou seja, como uma manifestao fantica dos
deveres cristos, e estavam  espera de que a igreja voltasse ao seu
antigo estado "normal". Enquanto isso, todo o corpo de voluntrios
permanecia sob a influncia do Esprito. Quanto a ele, pastor,
continuava firme em seu trabalho no vero, cumprindo todos os
deveres da igreja com grande alegria, continuando suas palestras
para os homens da estrada de ferro, como havia prometido a
Alexandre Powers, e crescendo a cada dia no conhecimento do
Senhor.
     Numa tarde de agosto, aps um dia mais agradvel, sem o
sufocante calor que j comeara a dar sinais de diminuir, Jasper
Chase, inclinado  janela de seu apartamento que dava frente para
a avenida, olhava o movimento na calada.
     Sobre sua mesa havia uma pilha de manuscritos. Desde a
noite em que falara com Raquel Winslow ele no mais a vira. Sua
natureza extremamente sensvel -- a ponto de irritar-se quando
contrariado -- ajudou-o a manter-se isolado, condio que se
adequava aos seus hbitos de escritor.
      Durante todo o calor do vero dedicara-se ao seu ofcio, e seu
livro estava quase terminado. Ele se havia lanado ao trabalho com
entusiasmo e intensa aplicao, o que o levava, por vezes, a quase
abandonar a obra, sentindo-se totalmente exausto. No tinha
esquecido o compromisso assumido na igreja juntamente com os
outros membros. Tal compromisso assomava freqentemente ao
seu esprito durante todo o tempo em que trabalhava em sua obra,
e, especialmente depois que recebeu o "no" de Raquel, perguntou-
se mil vezes: "Jesus faria isto? Ele escreveria esta histria?"
Tratava-se de um romance social, escrito num estilo acessvel. No
tinha outro propsito seno o de distrair o leitor. Seu enredo no
era mau, porm no era, em nenhum aspecto, um livro cristo.
Jasper Chase sabia que, pelo seu gnero e histria, o livro teria
boa aceitao. Ele estava confiante na apreciao e acolhimento da
obra por toda a sociedade. "Que faria Jesus?" Ele sabia que Jesus
jamais escreveria tal livro. A pergunta o perturbava nos momentos
mais inoportunos. Estava se irritando com isso. O padro de Jesus
para um autor era excessivamente idealista. Jesus usaria seu
talento escrevendo uma obra til que contribusse para melhorar a
vida e a espiritualidade das pessoas. Qual o propsito dessa obra
que estava terminando? Ora, por que em quase toda a sua
totalidade os escritores sempre escreveram? Por dinheiro e para
alcanar fama como escritor. No havia segredo algum de que ele
estava escrevendo com este objetivo. Ele no era pobre, por isso
no sentia grande tentao de escrever por dinheiro. Sua grande
ambio com este novo livro era mais do que nunca o desejo de
fama. Ele tinha de escrever essa espcie de romance. A pergunta o
atormentava ainda mais do que a recusa de Raquel. Iria ele
quebrar seu compromisso? "A promessa era to significativa, afinal
de contas?"
      Enquanto continuava na janela refletindo sobre tudo isso,
Rollin Page saiu do clube que ficava bem em frente, do outro lado
da avenida. Notou o porte nobre e o rosto bonito de Rollin quando
caminhava pela avenida. Retornou a sua mesa e folheou algumas
pginas manuscritas. Em seguida retornou  janela. Rollin
caminhava j na outra quadra e Raquel caminhava a seu lado. 
provvel que ele dera com ela na porta da casa de Virgnia, com
quem Raquel havia passado aquela tarde.
     Jasper seguiu com o olhar os dois jovens at desaparecerem
na multido. Retornou de novo  sua mesa e comeou a escrever.
Quando terminou a ltima pgina do ltimo captulo j estava
escurecendo. "Que faria Jesus?" Ele havia finalmente respondido 
pergunta negando seu Senhor. As trevas cresciam em seu quarto.
Ele havia escolhido deliberadamente sua carreira, pelo desalento e
pelo amor que perdera.
     Jesus j havia afirmado: "Ningum que, tendo posto a mo no
arado, olha para trs,  apto para o reino de Deus."



                          DEZOITO
        "Que te importa? Quanto a ti, segue-me" (Jo 21.22).


      Na realidade, quando Rollin seguia pela avenida naquela
tarde em que Jasper o observava de sua janela, ele no estava
sequer pensando em Raquel e no esperava encontr-la. Viram-se
de repente, ao dobrar a esquina, e o corao do jovem bateu mais
forte de alegria. Caminhou, ento, ao lado dela acompanhando-a
at a casa, regozijando-se finalmente por um curto e inesperado
momento em presena daquele amor que no conseguia esquecer.
     "Estive agora h pouco com Virgnia", disse Raquel. "Ela me
contou que os entendimentos para a compra da propriedade do
Retngulo esto quase acertados."
     "Sim. Mas foi uma causa muito trabalhosa na justia.
Virgnia mostrou-lhe todos os planos e especificaes dos prdios?"
     "Estivemos olhando vrios deles.  espantoso como ela
conseguiu reunir todas essas idias sobre a construo."
    "Virgnia conhece hoje mais a respeito do que se faz em
Londres e sobre as obras de filantropia das igrejas nos Estados
Unidos do que muitos profissionais das misses nas favelas das
grandes cidades. Ela passou quase todo o vero  procura de
informaes." Rollin estava se sentindo bem  vontade ao
conversar sobre aquele assunto da obra humanitria em que
ambos estavam interessados. Era um terreno seguro para os dois.
      "O que voc andou fazendo durante todo o vero? Quase no
o vi", perguntou subitamente Raquel e logo sua face ficou vermelha
ante a idia de que sua pergunta denunciasse algum sinal de
grande interesse por ele, ou de grande pesar por no t-lo visto
mais vezes.
     "Tenho andado ocupado", disse Rollin.
    "Fale-me sobre esse trabalho", insistiu Raquel. "Voc fala to
pouco. No tenho o direito de perguntar?"
     Ela perguntou com muita naturalidade, dando claramente a
entender seu interesse.
     "Sim, certamente", respondeu Rollin com um sorriso amvel.
"De fato no tenho certeza de poder falar muita coisa. Venho
tentando conversar com meus antigos companheiros e lev-los a
uma vida melhor."
     Parou de repente, aparentando receio de continuar. Raquel
deixou de insistir nas perguntas.
     "Fao parte do mesmo grupo social a que voc e Virgnia
pertencem", continuou Rollin, retomando a conversa. Assumi o
compromisso de fazer o que Jesus faria, e  tentando responder a
esta pergunta que tenho procurado fazer meu trabalho."
     "Eu no estava entendendo bem. Virgnia me falou de sua
grande transformao.  maravilhoso pensar que voc est
procurando manter essa promessa conosco. Mas, como pode fazer
esse trabalho com os moos dos clubes?"
      "Voc me fez uma pergunta direta e no tenho como deixar de
responder", disse Rollin, sorrindo de novo. "Perguntei a mim
mesmo naquela noite na tenda, voc est lembrada" (falava
precipitadamente e sua voz tremia um pouco), "que propsito
poderia ter em minha vida para redimi-la, para satisfazer meu
ideal de discpulo cristo? E quanto mais pensava nisso, mais me
sentia impelido a tomar minha cruz. J pensou que esses moos
que enchem os clubes, que desperdiam tempo e dinheiro, como
eu fazia antes, so os seres mais esquecidos de nossa sociedade?
As igrejas procuram cuidar dos pobres, criaturas miserveis como
aquelas do Retngulo; fazem empenho para atingir os operrios;
estendem seu trabalho  classe mdia; enviam dinheiro e
missionrios para os povos pagos em outros pases; mas os
jovens elegantes e desregrados dos clubes esto fora de todos os
planos de evangelizao. E, no entanto, eles precisam do evangelho
tanto quanto os demais. Tenho pensado: 'Conheo esta gente, suas
boas e ms qualidades. At h pouco tempo fui um deles. No me
considero a pessoa ideal para evangelizar o povo do Retngulo. No
tenho jeito para lidar com eles, mas acredito que possa ajudar
alguns desses moos que tm dinheiro e tempo para desperdiar.'
 o que tenho procurado fazer. Quando fiz a pergunta 'Que faria
Jesus?' essa foi minha resposta, que se transformou tambm em
minha cruz."
      A voz de Rollin estava to baixa nesta ltima frase, que
Raquel teve dificuldade de ouvi-lo no meio daquele rudo da
avenida. Mas ela sabia o que ele estava dizendo. Ela estava
interessada em saber os mtodos que ele usava com seus
conhecidos do clube, mas no sabia como perguntar. Sua vontade
em conhecer o plano que ele empregava era mais que simples
curiosidade. Rollin Page era to diferente daquele moo sofisticado
e mundano que a havia pedido em casamento que no podia deixar
de imaginar que estava diante de uma nova pessoa que ela nunca
conhecera.
     Saindo da avenida, entraram na rua em que morava Raquel.
Era a mesma rua em que ele se declarou e lhe fez a angustiante
pergunta se ela no poderia am-lo. Ambos se lembraram do
episdio e ficaram repentinamente acanhados e confusos. Mas
Raquel suspirou fundo e tomou a iniciativa de quebrar o silncio
encontrando, finalmente, as palavras que lhe faltaram poucos
momentos antes.
     "Em seu trabalho com os rapazes do clube, como eles reagem
a suas palavras. De que modo voc inicia a conversa com eles ?
Eles so receptivos ou arredios?
     Rollin ficou aliviado com a pergunta de Raquel e respondeu
prontamente:
     "Bem, isso varia de pessoa para pessoa. Muitos deles acham
que est me faltando um parafuso na cabea. Continuo membro
do clube e mantenho minha posio, usando meu conhecimento
com eles e minha liberdade de falar. Apenas procuro evitar crticas
a quem quer que seja. E bom que voc saiba que muitos deles tm
reagido bem aos meus apelos. Religio era um assunto estranho l.
No entanto, h algumas noites uns dez ou dozes deles ficaram
conversando animada e seriamente comigo sobre religio. J tive a
grande alegria de ver alguns deles abandonar antigos hbitos
prejudiciais e comear uma vida nova. 'Que faria Jesus?' continuo
perguntando. A resposta vem pouco a pouco, porque estou
trabalhando devagar com essa gente. E h um fato positivo: eles
no esto me evitando nem desconversando. Penso que isso  um
bom sinal. Outra coisa: j consegui interessar alguns nos
trabalhos do Retngulo. e quando iniciarmos l eles prometeram
contribuir com algum dinheiro. Eles reconhecem que se trata de
uma obra meritria. H tambm outro ponto positivo. Consegui
fazer que alguns parem de perder dinheiro no jogo."
     Rollin falava com entusiasmo. Seu semblante se iluminava
quando falava com interesse do assunto que se tornara ento uma
parte de sua vida real. Raquel notou novamente o tom firme e viril
de sua voz. Ela notava sinceridade e a disposio de v-lo carregar
to alegremente sua cruz. Ao fazer agora sua apreciao sobre ele.
Raquel foi levada por um sentimento de justia para com ele em
sua nova vida.
     "Voc est lembrado de que o censurei um dia por no
possuir um ideal de vida, um propsito elevado pelo qual valesse a
pena lutar?" perguntou ela, enquanto seu rosto pareceu a Rollin
mais belo do que nunca quando ele se animou a fit-la e ficar uns
segundos mais a admir-la. "Permito-me dizer-lhe agora que o
respeito por sua transformao e pela coragem de cumprir seu
compromisso. A vida que voc est vivendo agora  muitssimo
nobre."
      Rollin estremeceu. Sua agitao era intensa e quase
incontrolvel. Raquel notou a emoo de que ele foi possudo sem
poder ajud-lo. Caminharam mais um pouco em silncio e, por fim,
Rollin conseguiu expressar-se:
     "Eu lhe agradeo.  um imenso prazer ouvi-la dizer isso." Seu
olhar fixou-se no rosto dela por um momento mais longo. Ela
sentiu naquele olhar que o amor dele por ela era o mesmo, mas ele
nada disse.
      Quando se separaram diante da casa de Raquel, ela entrou
rapidamente, foi logo para seu quarto, sentou-se, ps o rosto entre
as mos e refletiu: "Estou comeando a sentir o que  ser amada
por um nobre cavalheiro. Apesar de tudo, creio que vou amar
Rollin Page. Mas, o que estou dizendo? Raquel Winslow voc se
esqueceu..."
      Ela ergueu-se e se ps a andar de um lado para outro. Ela
estava muito emocionada. Mas sentiu desde logo que seus
sentimentos no eram nem de remorso nem de tristeza. Na
verdade, havia em seu corao uma grande alegria. Ela estava
passando a viver uma nova experincia e, mais tarde, naquele dia
ela se rejubilava de intensa e sincera satisfao por ter encontrado
em seu mundo cristo um espao para expressar um novo
sentimento. Ela comeava a amar o Rollin Page cristo, como ela, e
no aquele Rollin de antes que de maneira alguma poderia
impression-la.
     Rollin, por sua vez, carregava dentro do peito uma esperana
renovada que era estranha desde o dia em que Raquel lhe dissera
no. Foi graas a essa renovao que ele se entregou com mais
entusiasmo ao trabalho que iniciara entre seus conhecidos. Sua
esperana e sua orao era intensificar esse trabalho e levar
muitos deles aos ps do Salvador.
      O vero se fora. Raymond preparava-se agora para enfrentar
o rigor do inverno que se aproximava. Virgnia pde realizar uma
parte de seu plano de "conquistar o Retngulo", como ela o
chamava. Mas a construo de casas e a transformao de
terrenos irregulares em jardins e parques no se conseguem de um
dia para outro. Aps assegurar a posse definitiva da rea havia um
trabalho rduo a desenvolver durante o outono, sem tempo talvez
de complet-lo antes do inverno. Mas um milho de dlares em
mos de uma pessoa verdadeiramente determinada a fazer o que
Jesus faria deveria operar maravilhas em pouco tempo, e Henrique
Maxwell se mostrava admirado de ver as obras em andamento
num dos dias em que, saindo das oficinas da estrada de ferro, foi
at o local das construes.
     Apesar, porm, do trabalho que viu, enquanto caminhava
pensativo pelo Retngulo, no pde esquivar-se de constatar com o
corao apertado que as coisas pareciam as mesmas de antes. Em
que medida o Retngulo tinha sido sacudido afinal? Mesmo
levando em conta todo o esforo e dedicao de Virgnia, Raquel e
Gray, onde estavam realmente os frutos visveis? Certamente,
disse para consigo, o trabalho iniciado e conduzido pelo Esprito
Santo com suas maravilhosas manifestaes de poder na Primeira
Igreja e na tenda exerceram seu efeito na vida de Raymond. Mas, 
medida que caminhava, via bares e mais bares e as multides
entrando e saindo deles, notando seu aspecto bestializado.
Observando numerosos homens, mulheres e crianas naquela
condio de misria e degradao, ele se sentiu arrasado,
chegando a duvidar de qualquer xito na reforma. Ele se
interrogava sobre o efeito que um milho de dlares faria na vida
daquele povo com o alcoolismo legitimado pela poltica destruindo
como uma avalanche a plantinha que um pequeno grupo
incansvel e corajoso intentava semear ali naquele grande antro.
Que poderia fazer a abnegao de crentes como Virgnia e Raquel
para se oporem quele oceano de lama. No ser uma perda de
recursos e sacrifcio atirar-se a esse inferno, quando, para cada
alma arrancada das trevas, duas ou mais eram no mesmo instante
escravizadas por ele?
     Essas idias atormentavam Maxwell. Era, por sinal, a mesma
que Virgnia transmitira a Raquel: "Nada poderemos fazer
enquanto existirem tavernas e casas onde se vende lcool no
Retngulo." Por que se consumirem essas belas vidas no meio
desse lodaal? Estas felizmente eram dvidas, no convices
devidas a alguma crise passageira, nada que joelhos dobrados no
pudessem superar.
     Afinal, se o lcool era um fator no problema da vida de
Raymond, no menos o eram a Primeira Igreja e seu pequeno
grupo de discpulos que prometeram fazer o que Jesus faria.
Maxwell, postado bem no centro do movimento, no estava em
posio de julgar esse poder como algum que est fora do crculo.
A prpria Raymond sentia a impresso de que muita coisa estava
mudando, sem se aperceber das causas motivadoras.
     O inverno estava passando e com ele o ano que Henrique
Maxwell fixara como tempo de durao da promessa feita sobre o
que Jesus faria. O domingo desse notvel aniversrio foi por
muitas razes um dos dias mais extraordinrios da vida da
Primeira Igreja. Foi alm do que imaginaram os membros da
Primeira Igreja. Os acontecimentos fizeram histria to rpida
quanto sria e profundamente que era difcil avaliar no todo sua
significao. E ao se completarem os doze meses de propsitos,
sonhos e lutas, o que se pde num relance caracterizar foram as
revelaes, os testemunhos e a confisses que os participantes
imediatos e integrados no movimento relataram sem poder avaliar
o valor e a extenso do que tinham realizado, bem como a
importncia de sua experincia para as restantes igrejas e cidades
do pas.
      Sucedeu que na semana anterior ao aniversrio do
compromisso esteve em Raymond o Rev. Calvino Bruce, pastor da
Igreja da Avenida Nazar, em Chicago, que veio visitar alguns
velhos amigos, entre eles seu ex-companheiro de seminrio
Henrique Maxwell. Ele esteve presente naquele domingo
comemorativo na Primeira Igreja, mostrando-se vivamente
interessado. Suas impresses sobre as coisas acontecidas em
Raymond, especialmente naquele dia, podem trazer mais luz sobre
toda a situao do que qualquer descrio de outras fontes.



                         DEZENOVE
     [Carta do Rev. Calvino Bruce, da Igreja da Avenida Nazar, de
Chicago, ao Rev. Filipe A. Caxton, de Nova York.]


     "Meu caro Caxton:
     "Queira perdoar-me o adiantado da hora, mas estou me
sentindo to abalado com o que testemunhei neste domingo que
considero meu dever escrever-lhe para expor a situao religiosa
que se manifesta na cidade de Raymond, da forma como pude
observ-la nesta ltima semana. Este  o nico motivo que me leva
a escrever a voc uma carta to comprida num momento talvez
imprprio para voc.
     "Voc certamente deve se recordar de Henrique Maxwell. Se
no estou enganado, voc me falou em Nova York, na ltima vez
que nos encontramos, que no havia estado com ele aps o
trmino do curso no seminrio. Voc talvez se lembra como ele era
um rapaz fino e muito aplicado aos estudos. Logo em seguida,
quando foi chamado pela Primeira Igreja de Raymond, disse a
minha esposa: 'A igreja de Raymond fez uma tima escolha. Ela vai
ficar satisfeita com Maxwell como pastor e pregador!' Aqui est ele
h onze anos, tendo sempre exercido suas funes com total
aprovao da congregao, atraindo com sua oratria um nmero
considervel de fiis. A igreja  tida como a maior e mais prspera
de Raymond. Tudo quanto a sociedade local possua de melhor
freqentava a Primeira Igreja, e muitos pertenciam ao rol dos
membros. O quarteto de vozes era soberbo, especialmente pela
qualidade de sua soprano, a srta. Winslow, de quem terei ocasio
de falar mais adiante. Em resumo, a posio de Maxwell era das
melhores que se podia pretender: um bom ordenado, morando
num lugar agradvel, com uma congregao bem acomodada e
composta de membros importantes, cultos, educados e
respeitveis -- exatamente do estilo que ns, quando jovens
estudantes no seminrio, almejvamos conseguir um dia.
      "Completa-se exatamente hoje um ano que, num domingo
histrico, ao encerrar-se o culto matutino, Maxwell apresentou
uma proposta estranha e desafiadora aos membros de sua igreja.
Ele fez um convite aos voluntrios que quisessem comprometer-se,
durante todo um ano, a nada fazer em todos e quaisquer aspectos
da vida diria sem primeiro perguntar 'Que faria Jesus?', estando
disposto, cada qual individualmente, a agir de acordo com sua
conscincia orientada pelo Esprito Santo sobre o que Jesus faria
se estivesse em seu lugar, independentemente dos possveis
resultados, bons ou maus.
      "As conseqncias desse desafio, que muitos membros da
igreja aceitaram, tm sido to maravilhosas que, como j  de seu
conhecimento, a ateno do pas est toda voltada para o
movimento. Falo em 'movimento' porque, pelo que pude ver hoje, a
experincia realizada em Raymond vai provavelmente repetir-se em
outras igrejas, causando uma revoluo nos procedimentos
tradicionais e, principalmente, estabelecendo uma nova concepo
do que seja a vida crist.
      "Maxwell contou-me que, de incio, ficou surpreso com a
receptividade que teve sua proposta. Vrios dos congregados mais
influentes resolveram tomar o compromisso seriamente. Entre eles
estavam Eduardo Norman, diretor do Dirio de Notcias, que vem
causando tanta sensao na imprensa; Milton Wright, um lder
acreditado na atividade comercial de Raymond; Alexandre Powers,
cuja atitude honesta e corajosa no episdio das taxas sonegadas
ao governo pela companhia de estradas de ferro assombrou todo o
pas h cerca de um ano; a srta. Virgnia Page, uma jovem e
formosa herdeira de grande influncia na sociedade local e que,
nos ltimos dias, vem dedicando, pelo que se comenta, toda sua
fortuna para a sustentao de um jornal cristo, como tambm
para reforma de um bairro de m reputao da cidade, conhecido
como 'Retngulo'; e a sita. Raquel Winslow, cuja fama como
cantora se espalha por todo o pas, mas que, em obedincia ao que
julga ser a provvel atitude de Jesus, decidiu consagrar seu talento
voluntariamente para servir s moas e mulheres da pior e"mais
abandonada parte da populao de Raymond.
     "A essas pessoas, muito bem conhecidas de todos, associou-
se um grupo cada vez maior de congregados da Primeira Igreja e,
nos ltimos meses, at mesmo de outras igrejas da cidade. Uma
parte considervel desses voluntrios  originria das Sociedades
de Esforo Cristo. Esses jovens afirmaram que j haviam includo
em seus estatutos o mesmo princpio, com as palavras: 'Prometo
ao Senhor Jesus que me esforarei para fazer tudo o que Ele
desejar que eu faa.' Esta divisa no  exatamente a que Maxwell
props, mas os resultados de uma perfeita obedincia a qualquer
dos dois propsitos seriam iguais; por isso ele no se mostra
surpreso de que a maior parte dos voluntrios tenha sado do
Esforo Cristo.
     "Voc me perguntar com certeza: 'Quais os resultados
alcanados? O que obteve esse esforo? Que mudanas
aconteceram quer na igreja como na sociedade?'
      "Voc j sabe alguma coisa do que ocorre em Raymond
atravs das notcias que se espalham por todo o pas. Mas seria
preciso vir at aqui e testemunhar as mudanas havidas em
algumas pessoas e, especialmente, na vida da congregao como
um todo, para poder avaliar o que significa seguir to literalmente
as pegadas de Jesus. Contar isto tudo seria uma histria
infindvel, ou antes uma sucesso de histrias. No tenho
condies para tal empreendimento, mas talvez possa dar a voc
uma impresso que tive da situao reinante nesta cidade, tal
como me narraram meus amigos e o prprio Henrique Maxwell.
     "O resultado da promessa feita na Primeira Igreja tem sido
duplo: por um lado, existe uma fraternidade crist como nunca
antes se manifestara e que se assemelha em muito com a que
havia entre os discpulos da igreja primitiva e, por outro lado, a
diviso da igreja em dois grupos distintos. Os que no fizeram a
promessa criticam aqueles que tiveram idia to absurda a
respeito do modo de seguir os passos de Jesus. Alguns no
comparecem mais aos cultos da Primeira Igreja e passaram alguns
a freqentar outras igrejas. Outros se converteram em elemento
interno desagregador, tentando, de acordo com certas verses,
obrigar Maxwell  deixar seu pastorado; no sei se esse partido 
forte na igreja, porm foram seus participantes colocados em prova
pela extraordinria e contnua manifestao do poder espiritual
que vem desde o primeiro domingo, o dia do compromisso, e ainda
porque muitos dos mais importantes membros da igreja aderiram
ao movimento.
      "O efeito sobre Maxwell  impressionante. Eu j o tinha
ouvido pregar em nossa Associao Estadual h uns quatro anos,
ocasio em que notei nele um extraordinrio poder de oratria, de
que parecia ter plena conscincia. Sua prdica era bem elaborada
e repleta do que os alunos no seminrio costumam chamar de
'belas passagens'; numa palavra, o tipo de oratria que agrada ao
grande pblico. Esta manh pude ouvi-lo novamente depois do
incio do movimento. J no  o mesmo homem. Percebe-se
nitidamente que ele passou por uma profunda crise. Ele explicou-
me que essa alterao  to-somente uma nova maneira de ver o
Cristianismo. Ele mudou naturalmente muitos dos seus velhos
hbitos e de suas velhas idias. Assim, pois, seu comportamento
na questo do lcool  inteiramente contrria  que adotava h um
ano. O mesmo sucedeu na forma como considera seu ministrio.
At onde pude notar, ele pensa agora que o Cristianismo de nossa
poca deve ser uma imitao mais literal do ensino e da vida de
Cristo, principalmente quando o sofrimento  requerido. No
decurso da conversa, citou-me, vrias vezes, este versculo da
Primeira Epstola de Pedro: 'Porquanto para isto mesmo fostes
chamados, pois que tambm Cristo sofreu em vosso lugar,
deixando-vos exemplo para seguirdes os seus passos.' E ele parece
acreditar que a coisa de que temos mais necessidade hoje em
nossas igrejas  o sofrimento com alegria, por amor ao Senhor
Jesus Cristo. No sei at onde posso concordar com ele nessas
idias, mas, meu estimado Caxton,  verdadeiramente espantoso
notar os resultados decorrentes da prtica dessas idias e como tal
prtica impressionou a todos nesta cidade e nesta igreja.
     "Voc com certeza gostaria de saber quais foram os
resultados constatados na vida dos membros que assumiram o
compromisso e procuraram honestamente ser fiis a ele. Esses
resultados so, como j lhe disse, parte da histria ntima dos
personagens, no podendo ser narrados nas suas particularidades.
Mas alguns episdios posso contar-lhe, para que se convena de
que esse estilo de discipulado no  simplesmente sentimental ou
simples desejo de ostentao para o pblico.
      "Consideremos, por exemplo, o caso de Alexandre Powers,
que foi gerente das oficinas da estrada de ferro. Quando ficou em
evidncia por ter denunciado a companhia, perdeu sua posio e,
mais que isso, vim a saber por intermdio de alguns amigos que
sua famlia e suas relaes sociais mudaram tanto que ele
escassamente aparece em pblico com sua esposa e filhos. Os
Powers foram literalmente excludos das rodas sociais de que antes
eram parte destacada. Powers voltou ao seu antigo emprego de
telegrafista. Encontrei-o ontem na igreja. Ele, exatamente como
Henrique Maxwell, deu-me a impresso de ter passado por uma
grande crise moral. No pude deixar de imaginar que ele teria sido
digno de fazer parte da igreja do primeiro sculo quando os
discpulos tinham todas as coisas em comum.
      "Vejamos tambm o caso de Eduardo Norman, diretor do
Dirio de Notcias. Ele arriscou todos os seus recursos para
obedecer quilo que acredita ser a atitude de Jesus e revolucionou
toda a sua conduta na imprensa com risco de falncia. Mando-lhe
um exemplar do jornal de ontem. Gostaria que voc o lesse com
muita ateno. Para mim  um dos mais interessantes e notveis
jornais j impressos nos Estados Unidos. Norman est sujeito a
crticas, mas, que pode fazer um homem num negcio desses que
esteja livre de crticas? Considerado em seu conjunto, acho-o to
superior s concepes comuns acerca do que deve ser um jornal
dirio que estou assombrado com os resultados. Norman me disse
que o jornal est comeando a ser lido cada vez mais pelos cristos
da cidade. Ele tem confiana na vitria final. Leia os editoriais
sobre as questes econmicas e sobre a prxima eleio em
Raymond, quando a questo da licena para venda de bebidas vir
novamente  cena. Ambos artigos traduzem muito bem os pontos
de vista de Norman. Ele me disse que nunca comea um editorial
ou qualquer outro artigo sem antes perguntar 'Que faria Jesus?'
Os resultados dessa conduta so visveis.
      "Consideremos tambm o caso de Milton Wright, um prspero
comerciante. Fui informado de que ele revolucionou a tal ponto
seus armazns e lojas que nenhuma pessoa  atualmente mais
amada em Raymond. Seus empregados tm por ele uma estima
comovente. Durante o inverno, quando esteve gravemente enfermo
em sua casa, dezenas de empregados foram voluntariamente
assisti-lo, ajudando-o em tudo quanto fosse necessrio, e sua volta
s lojas foi marcada por grandes manifestaes de alegria e apreo.
Tudo isso  o resultado de um novo elemento -- o amor pessoal
introduzido nos negcios. Amor ali no  apenas palavra, mas o
negcio  conduzido de acordo com um sistema de cooperao que
no  simplesmente um favor prestado aos inferiores, mas um
compartilhar geral em todos os aspectos do negcio. Muitos
homens na rua olham Milton Wright como se ele fosse um luntico.
 um fato, porm, que, embora ele tenha perdido grandes somas
em certas ocasies, conseguiu recuperar e desenvolver seus
negcios, sendo hoje respeitado e honrado como um dos melhores
e mais vitoriosos comerciantes de Raymond.
      "E agora falemos da cantora srta. Raquel Winslow. Ela
decidiu consagrar seu grande talento aos pobres da cidade. Seus
planos incluem um Instituto Musical, onde coros e classes de
msica vocal sero a parte importante. Ela est entusiasmada com
esse trabalho. Juntamente com sua amiga, srta. Virgnia Page,
planejou um curso musical que, se for concludo e organizado, sem
dvida far muito em prol do levantamento das vidas da populao
que vive naquele bairro. No me considero ainda to no passado,
meu caro Caxton, que deixe de me interessar pelo lado romntico
de muitos aspectos que tm tambm sua feio dramtica,
Raymond. Posso informar-lhe que a senhorita deve se casar na
prxima primavera com o irmo de Virgnia Page. Ele foi antes um
lder profano na sociedade e nos clubes, mas converteu-se na
tenda onde sua futura esposa atuava ativamente. Nada conheo
desse romance, mas imagino que h uma histria nele envolvida,
cuja leitura seria muito interessante.
     "So estas algumas ilustraes dos resultados que a
obedincia  promessa de seguir a Jesus produziu em algumas
pessoas aqui. Poderia ter falado tambm de Donald Marsh, diretor
do Colgio Lincoln. Ele tambm se formou em minha universidade
e o conheci ligeiramente quando estava ento cursando o ltimo
ano. Marsh teve participao ativa na recente campanha eleitoral,
e sua influncia na cidade  considerada fator de importncia para
o resultado das prximas eleies. Ele me deu a impresso, como
tantos outros que aderiram a esse movimento, de que lutou com
problemas complexos e tomou cargas pesadas, que lhe causaram,
e ainda causam, aquele sofrimento de que Maxwell falou, um
sofrimento que no deve eliminar, mas, pelo contrrio, deve
intensificar uma alegria prtica e positiva."



                             VINTE
      "Estou prolongando demais esta carta, e com isso talvez o
esteja cansando. Mas no posso ocultar o sentimento de
fascinao que, em minha passagem por aqui. vai crescendo cada
vez mais. E devo dizer-lhe algo tambm sobre a reunio que houve
hoje na Primeira Igreja, aps o encerramento do culto.
      "Como j lhe disse, ouvi Maxwell esta manh. Seu sermo foi
inteiramente diverso daquele que ouvi h cerca de quatro anos.
Fiquei comovido e senti que lgrimas me vieram aos olhos. Como
eu, outras pessoas pareciam comovidas. Seu texto foi: 'Que te
importa?    Quanto      a    ti,  segue-me.'     Foi   um     apelo
extraordinariamente vibrante feito  igreja, exortando-a a obedecer
aos ensinamentos de Jesus e a seguir seus passos, sem importar-
se com os resultados. No posso dar-lhe o plano do sermo. Isto
alongaria excessivamente esta carta.
     "Encerrado o culto, houve a reunio habitual de que
participam os que assumiram a promessa de seguir o exemplo do
Mestre. Nela os que aderiram trocam suas experincias e
consultam-se mutuamente sobre o que Jesus faria em casos
especiais e invocam a presena do Esprito Santo pedindo
orientao para cada um dos deles.
     "Maxwell me convidara a comparecer a essa reunio. Nada,
em toda minha vida ministerial, me impressionou to
profundamente. Nunca senti daquele modo to poderosa a
presena do Esprito Santo. Senti-me irresistivelmente levado, em
pensamento, aos primeiros tempos do Cristianismo, pois havia
naquela assemblia algo de genuinamente apostlico em sua
singeleza e sincero propsito de imitar a Cristo.
     "Fiz algumas perguntas. O aspecto que me pareceu provocar
maior interesse foi a respeito da disponibilidade das propriedades
particulares. Maxwell disse-me que, at agora, nenhum deles julga
que Jesus abandonaria todos os seus bens, como se pratica em
certas ordens religiosas. Contudo todos concordam neste ponto: se
algum discpulo sentir que, em seu caso particular, Jesus agiria
dessa forma, s existe uma forma de resolver a dvida.  certo,
porm, que muitos deles levaram a obedincia a esses extremos,
sem se importarem com os reveses financeiros.
      "Alguns dos homens de negcios que assumiram o
compromisso perderam vultosas somas, procurando imitar Jesus;
outros, como Alexandre Powers, sacrificaram sua posio. No h
falta de coragem nem incoerncia neste aspecto.  oportuno
acrescentar que muitos que sofreram desse modo tm sido
assistidos financeiramente pelos que ainda possuem recursos;
neste sentido, pode-se dizer que eles tm tudo em comum. Com
certeza, nunca vi, em minha igreja ou em qualquer outra, cenas
parecidas com as que vi nesta semana. Nunca imaginaria que tal
fraternidade crist pudesse existir nestes tempos. Chego quase a
duvidar do testemunho de meus sentidos. Ainda fico a perguntar
se, realmente, estamos no ocaso do sculo dezenove!
      "Mas, prezado amigo Caxton, chego agora ao objetivo
principal desta carta. Antes de encerrar a reunio foram tomadas
vrias medidas para conseguir a cooperao de todos os demais
cristos de nosso pas. Suponho que Maxwell deu este passo
depois de pensar maduramente. Ele me falou sobre isso quando
estivemos discutindo sobre a impresso que o movimento causaria
em todas as igrejas.
      "'Admitamos', afirmou ele, 'que os crentes de todas as igrejas
tomassem seriamente esse compromisso e se mantivessem fiis a
ele. Que revoluo haveria na comunidade crist! E por que no?
Seria isso porventura mais do que se espera que todo cristo deve
fazer? Estar algum seguindo a Jesus, se no estiver predisposto
a isso? A prova do carter cristo ser hoje menor do foi que no
tempo de Cristo?'
     "Essa idia, em que, sem dvida, ele j alimentava havia
muito tempo, assumiu hoje uma forma positiva. Foi adotado um
plano com o propsito de obter a cooperao de todos os crentes de
toda a nao. Das igrejas se requerer, por intermdio de seus
pastores, que formem, em seu mbito de atividade, grupos de
discpulos como aquele que existe na Primeira Igreja de Raymond.
Maxwell falou-me especialmente a respeito da influncia que essa
ao conjugada teria sobre o alcoolismo nas prximas eleies.
Podero, assim, continuar a obra redentora iniciada pelo
evangelista e agora assumida pelos prprios membros da Primeira
Igreja. Se o lcool vencer novamente, isto resultar numa dolorosa
e intil perda de sacrifcio. Todavia, embora no concordemos
neste ponto, Maxwell convenceu os congregados de sua igreja de
que  chegado o momento de se unirem a outros crentes. Se a
Primeira Igreja de Raymond pde produzir mudanas to
impressionantes na sociedade, as outras igrejas, se conseguissem
formar uma vasta federao, no de doutrinas, mas de prtica,
com base na unio, transmitiriam a todo o pas um ideal de vida
mais elevado e uma nova concepo do Cristianismo.
      "Esta  uma grande idia, carssimo Caxton, mas 
justamente neste ponto que estou vacilando. No nego que todos
devemos seguir os passos de Jesus to de perto como os crentes
em Raymond tentam fazer, mas no posso deixar de pensar no que
aconteceria se eu pedisse  minha igreja em Chicago que seguisse
este exemplo. Escrevo-lhe aps ter sentido de um modo solene e
profundo o poder do Esprito Santo, e confesso-lhe, meu velho
companheiro, que no posso contar, em minha igreja, com uma
dzia de homens proeminentes que quisessem correr os riscos
desta prova. Seria voc mais feliz na sua igreja? O que voc acha?
Que as nossas igrejas no aceitariam o convite 'Vinde e sofrei'?
Estaria errado nosso modelo de vida crist? Ou estaremos
enganando a ns mesmos e ficaramos alegremente surpreendidos,
se algum dia fosse proposto idntico compromisso a nossas igrejas?
Os resultados da obedincia a este compromisso aqui em Raymond
so de natureza tal que fariam estremecer qualquer pastor, mas,
ao mesmo tempo, inspirar-lhe-iam um forte desejo de v-los
concretizados em sua prpria igreja. De fato, nunca vi uma igreja
to claramente abenoada como esta. Mas estarei eu mesmo
pronto a carregar essa cruz? Fao a mim mesmo honestamente
esta pergunta e sinto receio de dar uma resposta franca. Estou
certo de que teria de mudar muita coisa em minha vida para
seguir to de perto os passos de Jesus. H muitos anos que me
vejo como cristo. Nestes ltimos dez anos tenho desfrutado uma
vida em que o sofrimento ocupa um lugar irrelevante. Tenho-me
mantido, confesso sinceramente, a uma considervel distncia das
questes municipais, dos pobres, dos desgraados e abandonados
deste mundo. O que a obedincia iria exigir de mim para esse
compromisso? Hesito em responder. Minha igreja est cheia de
pessoas ricas e satisfeitas com a vida. Estou certo de que o padro
de vida delas no  do tipo de corresponder ao apelo do sofrimento
e da renncia. Disse 'estou certo' ? Pode ser que esteja enganado.
Talvez ainda no tenha penetrado nas profundezas do corao dos
congregados da minha igreja? Caxton, meu caro, estou expondo a
voc os meus pensamentos mais ntimos. Devo retornar para a
minha gente e, no prximo domingo, quando ela se reunir diante
de mim, em minha igreja, vou pedir-lhe: Sigamos a Jesus mais de
perto. Sigamos suas pegadas do modo que nos custe mais do que
nos custa hoje. Comprometamo-nos a nada fazer sem antes
perguntar 'Que faria Jesus?' Se me apresentasse diante deles com
esta mensagem, deveriam ach-la muito estranha. Mas, e da? No
estamos prontos para seguir a Jesus em qualquer lugar e condio?
Que ser, pois, segui-lo? Que quer dizer imit-lo? Que significa
andar em seus passos?"
      O Rev. Calvino Bruce, da Igreja da Avenida Nazar, de
Chicago, deixou cair a pena na mesa. Chegara a uma encruzilhada
no caminho e sentia que seu caso era o de muitos outros homens
no ministrio e na igreja. Foi  janela e abriu-a. Sentia-se oprimido
sob o peso de suas prprias convices. A atmosfera do quarto
parecia sufoc-lo. Tinha necessidade de ver as estrelas e de
respirar o ar puro. A noite estava muito calma. O relgio da
Primeira Igreja batia meia-noite. Ao soar a ltima batida, uma voz
clara e forte vinda da direo do Retngulo chegava aos seus
ouvidos. Era a voz de um dos convertidos de Gray, um guarda-
noturno dos armazns, que freqentemente enchia as suas horas
solitrias cantando uma estrofe ou duas de algum hino conhecido:


     "Morri na cruz por ti,
     Morri pra te livrar;
     Meu sangue, sim, verti,
     E posso te salvar.
     Morri, morri na cruz por ti;
     Que fazes tu por mim?"
      O Rev. Calvino Bruce saiu da janela e, depois de um
momento de vacilao, ajoelhou-se: "Que faria Jesus?" Nunca
procurara conhecer assim a vontade de Jesus. Ficou longo tempo
de joelhos. Depois deitou-se e dormiu; seu sono foi muitas vezes
interrompido. Levantou-se antes da aurora e abriu a janela. 
medida que a luz se tornava mais viva, ele repetia: "Que faria
Jesus? Seguirei seus passos?"
     O sol levantou-se e inundou a cidade com sua luz. Quando
espancar a luz do alto as trevas do pecado e far resplandecer aos
olhos dos cristos as pegadas de Jesus? Quando dirigir a
Cristandade inteira os seus passos pelo caminho que Ele abriu?


     "Este  o caminho em que o Mestre andou;
     No querer o discpulo andar por ele?"


     Com estas palavras no corao o Rev. Calvino Bruce voltou
para Chicago e, repentinamente, a grande crise de sua vida
pastoral declarou-se com uma pujana irresistvel.



                         VINTE E UM
         "Mestre, seguir-te-ei para onde quer que fores" (Mt
                                8.19).


     O concerto vespertino de sbado no "Auditorium" de Chicago
tinha se encerrado. Como sempre acontecia, a multido se
comprimia e disputava a vez de tomar sua carruagem antes que
outras pessoas o fizessem. O porteiro do "Auditorium" anunciava
os nmeros das diferentes carruagens, cujas portinholas se abriam,
enquanto as carruagens iam-se encostando junto ao meio-fio. Os
cocheiros, impacientes pelo tempo que perdiam e devido s frias
rajadas de vento, to logo recolhiam os passageiros, subiam a
avenida apressadamente.
     A seguir o porteiro anunciou: "Agora entra a 624." "624!"
repetiu com voz ainda mais alta, e logo encostou uma esplndida
carruagem puxada por dois garbosos cavalos pretos. As
portinholas traziam em letras douradas as iniciais "C.R.S.".
      Duas senhoritas saram do meio da multido e caminharam
at  carruagem. A mais velha entrou e acomodou-se e o porteiro
ficou segurando a porta aberta para a mais jovem, que hesitava de
p no ltimo degrau da escada.
     "Felcia, suba! O que est esperando?           Estou   quase
congelada!" veio a voz de dentro da carruagem.
     A jovem fora da carruagem despregou de sua roupa um
ramalhete de belas violetas inglesas e o entregou a um menino que
tremia de frio sentado na borda da calada, quase embaixo das
patas dos cavalos. Ele segurou o ramalhete olhando-o com espanto
e dizendo "Obrigado, minha senhora!" e em seguida enfiou o nariz
no tufo de perfume com um sorriso na face. A jovem subiu os
degraus da carruagem, fechou-se a porta com o rudo peculiar das
carruagens bem feitas e em poucos instantes o cocheiro disparava
em direo s avenidas.
     "Voc est sempre faz suas coisas esquisitas, Felcia!" disse a
mais velha, enquanto o veculo passava clere diante das manses
que j comeavam a iluminar-se profusamente.
     "Estou? O que fiz de esquisito agora, Rosa?" perguntou a
mais jovem, erguendo o rosto e olhando fixamente o rosto de sua
irm.
      "Ora, voc deu as violetas quele menino! Ele parecia estar
precisando de uma boa sopa quente e no de um ramalhete de
violetas. No me surpreenderia se voc o convidasse a vir conosco.
Voc est sempre fazendo alguma esquisitice."
     "Seria esquisitice convidar um menino para vir  nossa casa e
tomar um prato de sopa quente?" Felcia fez a pergunta com voz
to baixa que parecia estar falando consigo mesma.
     "'Esquisitice' no  exatamente a palavra,  claro", replicou
Rosa indiferente. "Seria o que Madame Blanche chama 'exagero'.
Por favor, no v voc agora convidar aquele menino ou outros
como ele para jantar em nossa casa s porque eu sugeri. Oh, como
estou cansada!"
     Rosa bocejou    e   Felcia ficou   olhando pela janela da
carruagem.
     "O concerto foi uma droga e o violinista simplesmente
aborrecvel. No consigo entender como voc pde ficar sentada
como uma esttua o tempo todo", Rosa exclamou com desdm.
     "Gostei da msica", respondeu Felcia tranqilamente.
     "Voc gosta de qualquer coisa. Nunca vi uma pessoa como
voc, sem nenhum senso crtico."
     Felcia corou levemente, mas ficou em silncio. Rosa bocejou
novamente, e se ps a cantarolar baixinho um trecho de uma
cantiga popular. Ento disse repentinamente:
    "Estou enjoada de quase tudo. Tomara que as 'Sombras de
Londres' sejam mais interessantes hoje  noite."
     "As 'Sombras de Chicago'", murmurou Felcia.
     "As 'Sombras de Chicago!' As 'Sombras de Londres', a grande
pea, o grande drama com um cenrio maravilhoso, que foi uma
sensao em Nova York durante dois meses. Voc est sabendo
que temos um camarote reservado em companhia dos Delano esta
noite, no sabe?"
     Felcia voltou-se para sua irm fixando nela seus grandes
olhos castanhos expressivos e inquiridores.
     "Enquanto isso no vertemos uma nica lgrima diante deste
cenrio da vida. Que so as 'Sombras de Londres' no palco ao lado
das sombras reais de Londres ou de Chicago que esto diante de
nossos olhos?
     " porque esse povo da vida real  uma gente suja e
desagradvel, e isso aborrece demais,  o que eu acho", respondeu
Rosa encolhendo os ombros. "Felcia, voc jamais conseguir
reformar o mundo. Para que insistir nisso? No temos culpa de
haver pobreza e misria na terra. Sempre houve e sempre haver
ricos e pobres no mundo. O que podemos fazer? Devemos ser
gratas a Deus pela riqueza que Ele nos deu."
      "Suponha Cristo agindo de acordo com aquele princpio",
insistiu Felcia com persistncia. "Voc est lembrada do sermo
do Rev. Bruce, de alguns domingos atrs, sobre este versculo:
'Pois conheceis a graa de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo
rico, se fez pobre por amor de vs, para que pela sua pobreza vos
tornsseis ricos.'?"
      "Lembro-me, sim, e muito bem", retrucou Rosa com certa
arrogncia, "e o Rev. Bruce no continuou dizendo que os ricos
no devem ser censurados quando so caridosos e do alguma
coisa para satisfazer s necessidades dos pobres? Tenho certeza de
que o prprio Rev. Bruce vive numa boa casa e tem bastante
conforto. Ele no renuncia ao seu bem-estar s porque h pessoas
pobres no mundo que no tm o que comer. Que bom seria se ele
fizesse isso, no acha? Oua bem o que lhe digo, Felcia, sempre
haver pobres e ricos, apesar de tudo o que pudermos fazer. Desde
que Raquel Winslow nos escreveu sobre os acontecimentos
extraordinrios que esto acontecendo em Raymond voc no pra
de perturbar toda a famlia. No se pode viver sempre nas nuvens.
Voc vai ver como Raquel logo logo vai acabar se cansando disso. 
uma grande pena que ela no tenha vindo a Chicago para cantar
nos concertos do 'Auditorium'. Soube hoje que ela recebeu uma
proposta. Vou escrever a ela e insistir para que venha. Estou
morrendo de vontade de ouvi-la cantar."
      Felcia voltou o rosto para a janela da carruagem e ficou em
silncio. O veculo seguiu por mais dois quarteires de elegantes
residncias e logo fez uma curva sob uma passagem coberta e um
porto, e logo as duas irms chegaram a casa. Era uma manso
revestida de pedras cinza lavradas, mobiliada com suntuosidade,
belos quadros, esculturas e o mais refinado conforto em tapearias
e requinte nos detalhes.
       O proprietrio de tudo aquilo, Carlos R. Sterling, estava
sentado  frente da lareira fumando um charuto. Obtivera sua
fortuna especulando com cereais e aes de estradas de ferro,
sendo sua riqueza calculada em mais de dois milhes de dlares.
Sua esposa era irm da sra. Winslow, de Raymond, me de Raquel.
Ela estava invlida havia vrios anos, impossibilitada de deixar o
leito. As duas moas, Rosa e Felcia, eram as nicas filhas. Rosa
tinha vinte e um anos, uma jovem bonita e de muita vivacidade,
educada num colgio de alta categoria, estava estreando nos
crculos sociais e era um tanto cnica e indiferente. Uma moa
difcil de se contentar, dizia seu pai, ora alegre e risonha, ora
amuada e intratvel. Felcia tinha dezenove anos e a beleza tropical
de sua prima Raquel Winslow, de corao generoso e impulsos
ardentes, sensvel e sempre disposta a atitudes grandiosas,
especialmente na expresso religiosa, de quem tudo se podia
esperar. Felcia era uma espcie de quebra-cabeas para o pai e
uma fonte de irritao para sua me. Era uma torrente de emoes
ainda inexploradas e das quais ela mesma no tinha plena
conscincia. Percebia-se nela uma autonomia que lhe dava a
condio de se adaptar a qualquer circunstncia, se lhe fosse dada
liberdade para se orientar por suas prprias convices.
     "Chegou uma carta para voc, Felcia", disse o sr. Sterling,
passando o envelope s mos dela.
     Felcia sentou-se e num instante abriu a carta, dizendo que
era de Raquel.
      "Quais so as novidades l por Raymond?" perguntou o sr.
Sterling, tirando o charuto da boca e olhando para Felcia, como
fazia costumeiramente com os olhos meio fechados, como se a
estivesse observando.
    "Raquel diz que o Rev. Bruce passou dois domingos em
Raymond e parece que ficou muito impressionado com o
movimento que presenciou na Primeira Igreja, do Rev. Maxwell."
     "E o que Raquel fala de si mesma?" perguntou Rosa que
estava deitada num sof mergulhada em meia dzia de almofadas
macias e elegantes.
     "Ela ainda est cantando no Retngulo. Desde que as
reunies na tenda acabaram ela est cantando num velho salo
at que termine a construo dos prdios que sua amiga, Virgnia
Page, est levantando."
     "Preciso escrever a Raquel convidando-a a nos visitar. Ela no
pode jogar fora sua voz naquela cidade de ferrovirios, no meio de
pessoas incapazes de apreciar seus dotes de cantora."
     O sr. Sterling acendeu outro charuto, e Rosa continuou:
      "Raquel  to esquisita. Ela enlouqueceria Chicago com sua
voz, se quisesse se apresentar no 'Auditorium', mas, em vez disso,
ela est desperdiando seu talento com gente que no entende o
que ouve."
    "Raquel no vir aqui se. ao mesmo tempo, no puder
cumprir a promessa que fez", disse Felcia, aps uma pausa.
      "Que promessa?" perguntou o sr. Sterling, e logo acrescentou
imediatamente: "Ah, sim! j sei. Uma coisa muito estranha, por
sinal. Alexandre Powers era um de meus amigos. Aprendemos
telegrafia juntos no mesmo escritrio, mas ele causou uma grande
sensao quando resignou seu posto ao apresentar uma denncia
 Comisso de Comrcio Interestadual contra a companhia
ferroviria. E agora voltou a ser telegrafista. Tem havido coisas
muito estranhas em Raymond nos ltimos tempos. Gostaria de
saber o que o Rev. Bruce acha de tudo isso. Preciso conversar com
ele a este respeito."
     "Ele j est em casa e vai pregar amanh", informou Fencia.
"Talvez diga alguma coisa sobre isso."
      Houve silncio por alguns instantes. Ento, de repente Felcia
exclamou, como se estivesse comunicando um pensamento ntimo
a algum ouvinte invisvel: "Que tal se ele apresentasse a mesma
idia do compromisso  Igreja da Avenida Nazar?"
     "Hem? O que voc est dizendo?" reagiu seu pai um tanto
asperamente.
      "Estou falando do Rev. Bruce. Quero dizer: o que aconteceria
se ele propusesse  nossa igreja o que o Rev. Maxwell props em
Raymond, convidando voluntrios que se disponham a fazer
qualquer coisa antes de perguntar 'Que faria Jesus?'"
     "No h perigo de que isso acontea aqui", disse Rosa,
levantando-se ao ouvir o som da campainha anunciando o ch.
    "Meu ponto de vista  que um movimento desse tipo 
impraticvel", completou o sr. Sterling brevemente.
      "De acordo com a carta de Raquel, a igreja de Raymond est
empenhada em estender a idia do compromisso a outras igrejas.
Se tal idia prevalecer, haver certamente grandes mudanas nas
igrejas e nas vidas das pessoas", disse Felcia.
      "Muito bem, vamos primeiro tomar nosso ch", disse Rosa,
dirigindo-se  sala de jantar. O pai e Felcia a acompanharam e
tomaram o ch em silncio. A sra. Sterling era servida em seu
prprio quarto. O sr. Sterling mostrava-se preocupado. Comeu
muito pouco e pediu licena para se retirar antes e, embora fosse
noite e sbado, avisou que talvez voltasse tarde em razo de um
certo negcio especial que tinha a tratar.
     "Voc tem notado que papai parece um tanto preocupado
ultimamente?" perguntou Felcia logo que ele se retirou.
     "Bem, no sei. No tenho observado nada de diferente",
respondeu Rosa. Aps instantes de silncio ela disse: "Voc vai ao
teatro hoje, Felcia? A sra. Delano passar por aqui s sete e meia.
Acho que voc deve ir. Ela ficar sentida se voc no for."
     "Irei com vocs, apesar de no me importar com isso. Posso
ver muitas sombras sem precisar ir ao teatro."
      "Que observao infeliz para uma moa de dezenove anos!"
desabafou Rosa. "Mas, de fato, voc parece que resolveu mesmo ter
idias esquisitas. Se for ver mame, diga-lhe que conversarei com
ela logo que voltar do teatro, se ela ainda estiver acordada."
      Felcia subiu para ver sua me e ficou ao lado dela at que a
carruagem da sra. Delano chegasse. A sra. Sterling estava
preocupada com seu marido. Ela falava incessantemente e se
irritava a cada observao que Felcia fazia. No quis nem mesmo
que a filha lesse um trecho da carta de Raquel, e quando Felcia se
prontificou a ficar fazendo-lhe companhia at que o pai voltasse,
ela se recusou pronta e asperamente.



                        VINTE E DOIS
      Felcia foi ao teatro meio a contragosto, no se sentindo muito
feliz e  vontade, mas essas reaes eram comuns, havendo
momentos mais ou menos infelizes do que outros. Ela
demonstrava que queria ficar s e, por isso, sentou-se na poltrona
ao fundo do camarote. A sra. Delano, como dama de companhia de
umas doze jovens, compreendia bem Felcia para saber que ela
realmente "esquisita", como Rosa freqentemente dizia, e deixou-a
 vontade em seu isolamento. Assim, Felcia experimentou sua
noite a seu modo, com seus sentimentos e como quem estava
amadurecendo para viver sua grande crise e transformao.
     A pea era um melodrama ingls, carregada de situaes
imprevistas, de cenas realistas e de lances inesperados. Houve
uma cena no terceiro ato que impressionou at a prpria Rosa.
    Era meia-noite na ponte de Blackfriars. O rio Tmisa corria l
embaixo escuro e ameaador. A catedral de So Paulo impunha-se
 luz mortia, seu zimbrio como que flutuando acima de outros
edifcios  sua volta. Surge sobre a ponte a figura de uma menina
parada como quem procura por algum. Vrias pessoas cruzam a
ponte, porm numa das reentrncias que ficava bem no meio do
rio uma mulher estava debruada no parapeito olhando a corrente
escura com tal expresso de agonia que se podia facilmente
perceber sua inteno. No instante em que ela subia ao parapeito
para lanar-se nas guas, a menina reconheceu-a, correu em sua
direo com um grito desesperado, mais animal do que humano,
agarrando-se em sua saia e puxando-a para baixo com sua pouca
fora. Surgem ento em cena dois outros personagens, que j
haviam figurado na pea: um homem alto, simptico, atltico,
vestido elegantemente e um menino igualmente vestido de acordo
com a ltima moda, contrastando com a menina agarrada  me
em seus andrajos, sua misria e sua aparncia repugnante. Ambos,
o cavalheiro e o menino elegantes, evitaram o suicdio da mulher.
Depois que os espectadores ficam sabendo que o homem e a
mulher eram irmos, a cena  transportada ao interior de uma
casa de cmodos, num dos mais imundos cortios de Londres.
Aqui o pintor e o carpinteiro tinham feito o possvel para
reproduzir uma cpia exata de um ptio e um beco bem
conhecidos das criaturas miserveis que compunham a ral de
Londres. Os trapos, os monturos, a vileza, os mveis quebrados, a
terrvel existncia animalesca de criaturas feitas  imagem de Deus
eram mostrados com tal realismo nessa cena que muitas pessoas
elegantes, sentadas como Rosa num camarote suntuoso, forrado
de seda e de veludo at nos parapeitos, recuaram instintivamente
como para evitar com horror a "possvel" contaminao daquele
monturo e podrido retratados no cenrio. Era um espetculo
cruelmente real para os sentidos, embora irreais para o raciocnio,
que exercia uma fascinao horrvel para Felcia, sentada sozinha
e pensando muito alm do dilogo que se travava no palco.
      Do quadro miservel da favela a cena da pea  transportada
ao interior de um palcio, momento em que um suspiro de alvio
percorreu todo o teatro. Este sim era um ambiente familiar. O
contraste foi surpreendente, graas a uma habilssima manobra da
tcnica cnica que, em instantes, substituiu a misria pelo luxo, o
cortio pelo palcio. O dilogo continuou, os atores entravam e
saam, mas para Felcia a pea perdeu o interesse. Na verdade, as
cenas da ponte e do cortio eram incidentais no enredo da pea,
mas Felcia continuou imaginando as cenas tristes da degradao
humana. Ela nunca havia filosofado sobre as causas da misria
humana. Era ainda muito jovem e no tinha mesmo temperamento
para isso. Entretanto, sentia intensamente, e no era esta a
primeira vez que isso acontecia, o contraste entre a opulncia
excessiva e a miserabilidade absoluta que a chocava e que a
tornava, como observava Rosa, uma pessoa "esquisita", ou
"diferente", ou "original", para os seus conhecidos da classe alta. O
problema estava no entrechoque dos extremos do destino
humano -- o fausto e o esbanjamento, de um lado, e a extrema
misria, de outro lado. Para ela tratava-se de um dilema que a
atormentava de um modo irresistvel. Era este dilema que a
tornaria uma mulher de raro sentido de amor e sacrifcio pelo
mundo, ou uma criatura sem personalidade e sem propsito de
vida.
     "Vamos, Felcia, voc no quer ir para casa?" disse-lhe Rosa,
tirando-a de suas cogitaes. A pea havia terminado, a cortina foi
cerrada, e o pblico deixava o teatro ruidosamente, rindo e
mexericando como se as "Sombras de Londres" fossem apenas
uma leve diverso, apesar do realismo da interpretao cnica.
      Felcia levantou-se e caminhou silenciosamente como que
arrastada pelos outros, maquinalmente, absorvida ainda em suas
reflexes. Ela, no raro, conseguia concentrar-se e isolar-se em
seus pensamentos, a ponto de perder a noo do que se passava a
seu lado, mesmo no meio de uma multido ruidosa.
     "O que voc achou da pea?", perguntou Rosa quando ambas
entraram em casa e se sentaram na sala de visitas. Rosa
respeitava muito as opinies de Felcia sobre as peas.
     "Penso ser um quadro bem real da vida como ela ."
     "Estou falando do desempenho", disse Rosa aborrecendo-se.
    "A cena da ponte foi bem representada, especialmente a parte
da mulher. Acho que o homem exagerou um pouco no sentimento."
     "Voc achou? Pois eu gostei. E a cena dos dois primos
quando ficaram sabendo que eram parentes? Achei muito
engraada. Mas a cena naquele cortio foi horrvel. Penso que no
deviam exibir essas cenas numa pea.  muito triste ver essas
coisas."
      "Elas devem ser muito tristes tambm na vida real", retrucou
Felcia.
     "Sim, mas no precisamos olhar a coisa real. So muito
desagradveis no teatro. Pagamos para nos divertir, no para ver
essas coisas."
     Rosa foi at a sala de jantar e comeou a comer frutas e bolos
que estavam sobre a mesa.
      "Voc no vai subir para ver a mame?" perguntou Felcia
depois de alguns minutos e sentando-se  frente da lareira da sala
de visitas.
    "No", respondeu Rosa da outra sala. "No quero incomod-la.
Se voc for diga-lhe que estou muito cansada para levar a ela
algum nimo."
     Ento Felcia subiu sozinha ao quarto da me. Quando
chegou ao topo da escada notou que ainda havia luz no quarto. A
mulher que cuidava da sra. Sterling fez sinal para que Felcia
entrasse.
      "Pea a Clara que se retire", exclamou a sra. Sterling quando
Felcia se aproximava de seu leito.
     Felcia ficou surpresa, mas fez o que sua me pediu, e em
seguida perguntou-lhe como estava se sentindo.
     "Felcia", disse sua me, "voc pode orar?"
      A pergunta era to diferente das que sua me geralmente
fazia que ela ficou surpresa.
     "Sim, mame, por que me pergunta?"
     "Felcia, estou assustada. Seu pai... estive inquieta o tempo
todo a respeito dele. H alguma coisa errada com ele. Quero que
voc ore."
     "Agora, aqui, me?"
     "Sim. Ore, Felcia."
     Felcia segurou a mo de sua me. Ela tremia. A sra. Sterling
nunca antes mostrara ternura por sua filha mais moa, e seu
estranho pedido agora era o primeiro indcio real de sua confiana
no carter de Felcia.
     A jovem ajoelhou-se, ainda segurando a mo tremente da
me, e orou.  provvel que nunca antes tivesse orado em voz alta.
Ela deve ter dito em sua orao o que sua me precisava, pois,
terminada a orao, a invlida chorava suavemente e sua tenso
nervosa se fora.
      Felcia permaneceu a seu lado por um bom tempo. Quando
ela se certificou de que sua me no precisava mais dela levantou-
se para sair.
    "Boa-noite, me. Se precisar de alguma coisa mande a Clara
me chamar."
      "Estou me sentindo melhor agora." Ento, quando Felcia ia
saindo, a sra. Sterling perguntou: "Voc no vai me beijar, minha
filha?"
     Felcia voltou e curvou-se sobre sua me. O beijo era to
estranho quanto o pedido da orao. Quando Felcia deixou o
quarto, suas faces estavam banhadas de lgrimas. Desde criana
ela no sabia o que era chorar.
      As manhs de domingo eram geralmente muito tranqilas na
casa dos Sterling. As moas iam ao culto das onze horas. O sr.
Sterling no era membro mas contribua generosamente com suas
ofertas e muitas vezes ia  igreja aos domingos de manh. Nesse
dia ele no desceu para o caf e enviou um recado por um criado
dizendo que no se sentia fisicamente bem para sair. Assim, Rosa
e Felcia foram de coche at  porta da Igreja da Avenida Nazar e
ocuparam sozinhas o banco da famlia.
      Quando o Rev. Bruce subiu ao plpito e abriu a Bblia, como
sempre fazia, mesmo aqueles que o conheciam bem no
perceberam nada de estranho em seus modos e em sua expresso.
Deu incio ao culto, como sempre, com as mesmas caractersticas.
Estava calmo e sua voz era firme. Sua orao, entretanto, foi o
primeiro sinal de alguma coisa estranha ou diferente do usual.
Pode-se afirmar com segurana que a Igreja da Avenida Nazar
jamais ouvira antes o Rev. Bruce oferecer tal orao antes, nos
doze anos desde o comeo do seu pastorado ali. Mas, como oraria
um ministro depois de passar por uma revoluo de tal proporo
em seus sentimentos cristos, que havia transformado por inteiro
sua concepo a respeito do que seja seguir a Jesus? Ningum na
igreja fazia a menor idia de que o Pastor Calvino Bruce, o acatado,
culto e ilustre Doutor em Divindade, havia vrios dias clamava de
joelhos, como uma criana, pedindo fora e coragem, bem como o
esprito de Cristo, para pregar seu sermo de domingo; e agora a
orao era uma inconsciente e involuntria revelao de sua
experincia ntima, tal como a congregao da Igreja da Avenida
Nazar tinha raramente ouvido e nunca daquele plpito.
     Um leve estremecimento percorreu o auditrio. Era sensvel a
presena do Santo Esprito. Mesmo os mais distrados perceberam
isso. Felcia, cuja sensibilidade religiosa correspondia logo a
qualquer toque emocional, estremeceu, ao sentir essa influncia
sobrenatural, e quando levantou a cabea e fitou o pastor, havia
algo no seu olhar que traduzia sua intensa e ardente antecipao
da cena que se seguiria. Havia qualquer coisa estranha na orao
que agitou a muitos na congregao. Todos no templo, homens e
mulheres, se inclinaram para a frente e, quando o Rev. Bruce
comeou a falar sobre sua visita a Raymond, a primeira frase da
alocuo que precedeu seu sermo encontrou uma expectativa to
grande por parte do povo que ele estremeceu, com a esperana de
um batismo espiritual que nunca havia experimentado em sua
vida ministerial.



                       VINTE E TRS
     "Acabo de retornar de uma visita a Raymond", iniciou o Rev.
Bruce, "e quero transmitir-lhes algumas de minhas impresses
sobre o movimento que l se desenvolve."
      Fez uma pausa e correu os olhos pela audincia com certa
ansiedade e, ao mesmo tempo, com uma grande incerteza no
corao. Quantos daqueles membros, em boa parte constitudos de
pessoas abastadas, elegantes, educadas, amantes do conforto e
mesmo do luxo estariam aptas a compreender a natureza do apelo
que em poucos minutos ele iria fazer-lhes? Ele se sentia a tal
respeito totalmente confuso e indeciso. Entretanto, Bruce j havia
atravessado seu deserto e mostrava-se disposto a sofrer. Aps a
breve pausa ele retomou o sentido da primeira frase e contou-lhes
a histria de sua passagem por Raymond. Os presentes j
conheciam, ao menos em parte, alguma coisa da experincia vivida
pela Primeira Igreja. O pas inteiro vinha acompanhando a
evoluo daquele compromisso que transformou numerosas vidas.
Assim o Rev. Maxwell havia finalmente resolvido que era chegado o
momento de estender a mo fraternal a outras igrejas do pas e
lev-las a somar esforos para trilharem juntas o mesmo caminho.
A nova experincia crist em Raymond havia se mostrado to
eficaz e valiosa que ele desejou que muitas igrejas espalhadas pelo
pas compartilhassem voluntariamente essa notvel experincia
dos crentes de Raymond, tomando, atravs de seus congregados
individualmente, o compromisso de seguir os passos de Jesus. A
Sociedade do Esforo Cristo j vinha demonstrando em
numerosas igrejas, com grande entusiasmo, a promessa de fazer o
que Jesus faria, cujos resultados consistiam de uma vida
espiritual mais profunda e uma influncia mais poderosa da igreja,
que se assemelhava a um novo nascimento dos membros.
      O Rev. Bruce exps isso tudo com extrema simplicidade e
objetividade antecipando claramente sua inteno de formular
uma proposta  igreja logo em seguida a esta introduo. Felcia
absorvia cada palavra com muita ateno. Ela estava ao lado de
Rosa, formando o contraste fogo e gelo, embora a prpria Rosa
estivesse atenta e em certa medida excitada com o
pronunciamento do pastor.
      "Caros irmos e amigos" -- e pela primeira vez desde a orao
inicial sua voz e seus gestos denunciavam a emoo de que estava
possudo -- "venho propor-lhes que a Igreja da Avenida Nazar
assuma o mesmo compromisso que a Primeira Igreja de Raymond
assumiu. Sei o que isto vai significar para vocs e para mim. Vai
significar uma mudana completa de muitos hbitos. Vai significar,
possivelmente, a perda da posio social. Significar muito
provavelmente, em muitos casos, perda de dinheiro. Significar
algum tipo de sofrimento. Seguir os passos de Jesus significar o
que significou no primeiro sculo, e isto inclui sofrimento,
renncia, trabalho, perdas, incluindo a separao de tudo o que
contrarie o padro e o esprito no-cristo ou anticristo. Seguir os
passos de Jesus  o mesmo teste de todos aqueles que, no passado,
desde os primeiros discpulos e atravs dos sculos
experimentaram e que ns, agora, queremos experimentar, no
apenas aceitando-o em nossos coraes como j muitos aqui o
fizeram, mas proclamando-o publicamente e imitando seu
exemplo."
     Nova pausa. Podia-se sentir o resultado de suas palavras no
rosto de cada membro presente: era visvel em alguns poucos a
surpresa com excitao, e na maioria a surpresa com estupefao.
Suas palavras foram perfeitamente ouvidas e entendidas. Com voz
calma e segura o Rev. Bruce acrescentou que aqueles que
voluntariamente quisessem assumir esse compromisso deveriam
ficar algum tempo mais depois do culto.
     Passou ento ao sermo, escolhendo como texto o versculo
de Mateus 8.19: "Mestre, seguir-te-ei para onde quer que fores."
Suas palavras tocaram fundo na essncia da vida crist. Era uma
definio para o auditrio do que  efetivamente ser cristo,
transportando os ouvintes aos primeiros tempos do Cristianismo.
Com isso, ele sacudiu ao mesmo tempo a poeira do
convencionalismo e do tradicionalismo inconseqentes de anos e
anos dentro da igreja. Um sermo, em suma, que se prega uma vez
na vida, mas que pode exercer influncia por toda a vida.
      Terminado o culto, ficava no ar o convite feito a respeito do
compromisso de seguir os passos de Jesus. O sussurro normal de
um fim de culto, quando todos se levantam quase ao mesmo tempo
e trocam cumprimentos e se formam pequenos grupos que
conversam enquanto se dirigem  sada, foi substitudo por um
silncio inusitado. Poucas pessoas se levantavam aqui e ali, sem
uma deliberao de buscar a sada. Havia certa relutncia na
movimentao do auditrio. Rosa, entretanto, levantou-se
normalmente de seu banco e, quando caminhava pelo corredor
voltou-se acenando para Felcia. Em poucos instantes toda a
congregao estava de p. Felcia respondeu ao olhar de Rosa.
"Vou ficar", disse ela com uma voz que Rosa conhecia bem: era
uma resoluo inabalvel. Rosa, porm, quis insistir e retornou
dois bancos atrs dizendo-lhe com o rosto transtornado em voz
baixa:
      "Felcia, isso  uma loucura! O que voc vai fazer? Voc vai
ridicularizar toda a famlia. O que papai vai dizer? Venha!"
      Felcia olhou-a de frente mas no respondeu imediatamente.
Seus lbios moviam-se numa prece que brotava do ntimo do seu
ser, sentindo que aquela era a oportunidade de viver uma nova
vida. Ela sacudiu a cabea e respondeu:
     "No. Vou ficar aqui. Vou assumir o compromisso, e estou
decidida a cumpri-lo. Voc no sabe por que estou fazendo isso."
     Rosa olhou para ela novamente e, em seguida, voltou-lhe as
costas e se dirigiu para a sada sem parar para conversar ou
cumprimentar as pessoas. A sra. Delano, que tambm estava
saindo, deparou com Rosa no vestbulo.
     "Ento voc no vai se juntar ao grupo de voluntrios do Rev.
Bruce?", perguntou a sra. Delano num tom de voz estranho que fez
Rosa corar.
     "No, e a senhora? Acho isto simplesmente ridculo. Sempre
considerei o movimento de Raymond como fanatismo. Temos
recebido notcias de l por intermdio das cartas que nos envia
nossa prima Raquel."
      "Sim, tenho ouvido dizer que esse movimento tem causado
dificuldades em muitos casos. Minha opinio  que o Rev. Bruce
vai causar um distrbio na igreja. Isso pode provocar uma
separao dentro da igreja. Voc vai ver se tenho ou no razo.
Muitas pessoas da igreja esto numa situao tal que no podem
assumir esse compromisso e muito menos mant-lo. Eu sou uma
delas", acrescentou a sra. Delano enquanto saa com Rosa.
     Ao chegar a casa, Rosa encontrou seu pai sentado no seu
lugar favorito, diante da lareira fumando charuto.
     "Onde est Felcia", perguntou ele quando Rosa entrou
sozinha.
     "Ela ficou para uma reunio depois do culto", respondeu Rosa
rapidamente. Tirou os agasalhos e comeou a subir a escada
quando o sr. Sterling perguntou:
     "Uma reunio depois do culto? Qual o motivo disso?"
    "O Rev. Bruce convidou        a igreja a tomar o mesmo
compromisso de Raymond."
     O sr. Sterling tirou o charuto da boca e ficou girando-o
nervosamente entre os dedos.
     "No esperava isso do Rev. Bruce. Ficou muita gente?"
     "No sei. Eu no fiquei", respondeu Rosa e continuou subindo
a escada.
     Passados alguns instantes o sr. Sterling foi  janela e ficou
observando as pessoas que passavam na avenida. Seu charuto
tinha acabado, mas ele continuava rodando-o entre os dedos
nervosamente. Deixou a janela e retornou  sala andando de um
lado para outro. A criada entrou para anunciar o almoo, e ele lhe
disse que deveriam esperar a chegada de Felcia. Rosa desceu e foi
 biblioteca, enquanto o sr. Sterling continuava passeando sem
parar no salo. Por fim, cansado, resolveu sentar-se numa
poltrona, entregue s suas reflexes. Em seguida Felcia entrou.
     Ele se levantou e olhou para ela. Felcia estava ainda
notoriamente sob os efeitos de uma forte emoo que se seguiu 
reunio. Ao mesmo tempo ela no se mostrava disposta a falar do
assunto. Rosa, que saa da biblioteca, perguntou-lhe curiosa:
     "Quantas pessoas ficaram?" Alm da curiosidade, Rosa estava
cptica a respeito de todo aquele movimento em Raymond.
    "Uma cem", respondeu Felcia seriamente. O sr. Sterling
mostrou-se surpreso. Felcia estava saindo da sala, mas ele a
chamou de volta:
     "Voc est realmente disposta a assumir esse compromisso?",
perguntou-lhe.
     Felcia ficou corada mas respondeu:
     "O senhor no me faria essa pergunta, meu pai, se tivesse
participado daquela reunio." Logo em seguida, deixou a sala
avisando que ia ver sua me e desculpando-se se no pudesse
descer imediatamente para o almoo.
     Nenhuma outra pessoa, alm das duas, saberia do que se
falou naquele encontro de Felcia com sua me. Certamente ela
deve ter contado  me sua deciso e falado do poder espiritual
que se manifestou durante aquela reunio entre os discpulos ao
redor do Rev. Bruce aps o culto. Felcia nunca passara por uma
experincia como aquela e jamais pensaria em partilh-la com sua
me, se no tivesse orado com ela na vspera. Quando chegou 
sala de jantar para juntar-se ao pai e a Rosa, continuava relutando
em comentar o episdio ocorrido na igreja, do mesmo modo que
uma pessoa evitaria descrever um esplndido pr-do-sol a um cego.
     Quando se aproximava o crepsculo naquele domingo e na
casa dos Sterling a plida luz do sol dava lugar s lmpadas cujo
brilho se escoava atravs das grandes janelas, num canto obscuro
de seu quarto Felcia ajoelhou-se e quando levantou o rosto em
direo  luz, seu rosto era o de uma mulher que j havia
amadurecido e compreendido os grandes caminhos da vida.
     Naquele mesmo domingo, aps o culto da noite, o Rev. Bruce
conversava sobre os acontecimentos do dia com sua esposa. Os
dois eram um s corao e uma s mente naquela questo, e
encaravam seu novo futuro com toda a f e coragem de novos
discpulos. Nem se iludiam quanto aos provveis resultados
adversos que o compromisso significaria para eles prprios e para
a igreja.
     Estavam ainda em suas cogitaes quando soou a campainha
e o Rev. Bruce abrindo a porta exclamou:
     " voc, Eduardo! Entre."
      Entrava na sala a figura alta. forte e imponente do bispo da
Igreja Anglicana. Suas propores fsicas, porm, eram to bem
equilibradas que ele no aparentava nem um tamanho descomunal
nem uma postura desajeitada. A impresso que ele causava aos
estranhos era, primeiramente, de uma pessoa saudvel e, em
segundo lugar, de muita cordialidade.
     Ele chegou at  sala e cumprimentou a sra. Bruce, que a
seguir se afastou deixando os dois conversando. O bispo sentou-se
numa confortvel poltrona  frente da lareira. A temperatura
estava agradvel naquele comeo de primavera.
     "Calvino, voc deu hoje um passo muito srio", disse o bispo
erguendo seus grandes olhos negros para o ex-colega da faculdade.
"A notcia me veio esta tarde e no pude resistir ao desejo de v-lo
esta noite, para falarmos sobre o assunto."
    "Estou contente com sua visita", o Rev. Bruce colocou sua
mo no ombro do bispo. "Voc compreende o que isto significa,
Eduardo?"
     "Penso que sim, alis estou certo disso." O bispo falava lenta
e pensativamente. Ele juntou as mos cruzando os dedos. Seu
rosto apresentava sinais de luta e dedicao, associadas a um
profundo amor pelas criaturas humanas. Tinha o semblante um
tanto carregado. Olhou novamente para seu velho amigo.
     "Calvino, sempre nos entendemos. Embora nossos caminhos
tenham sido diferentes na carreira eclesistica, sempre estivemos
de braos dados na fraternidade crist."
     " verdade", assentiu o Rev. Bruce com uma emoo que no
quis esconder nem controlar. "Graas a Deus. Prezo sua amizade
acima da de qualquer outra pessoa. Aprecio suas qualidades, que
so maiores do que posso merecer."
     O bispo olhou afetuosamente para seu amigo, mas a
preocupao continuava marcando seu rosto. Passados alguns
momentos de silncio ele voltou a falar:
      "Este novo conceito da vocao crist vai provocar uma crise
em seu ministrio. Se esse compromisso for cumprido, como sei
que ser, no  preciso ser profeta para prenunciar mudanas
expressivas em sua igreja." O bispo olhou seriamente para seu
amigo e ento prosseguiu: "Na realidade, no vejo como evitar uma
revoluo no Cristianismo, como o conhecemos hoje, se os
ministros e as igrejas em geral resolverem adotar o movimento
iniciado em Raymond." Fez outra pausa, como que esperando que
seu amigo dissesse alguma coisa ou fizesse uma pergunta. Bruce,
porm, no percebera o fogo que ardia no corao do bispo sobre a
dvida que Maxwell havia enfrentado em sua crise inicial e que ele
prprio tinha diante de si.
     "No que diz respeito  minha igreja, por exemplo", continuou
o bispo, "receio que seria bastante difcil encontrar muitas pessoas
dispostas a assumir um compromisso como esse e lev-lo adiante.
O martrio ali  uma palavra fora de moda. Minha gente aprecia
demais suas facilidades e conforto para empolgar-se com qualquer
coisa spera como uma cruz pesada. E, alm disso, o que  seguir
a Jesus? O que significa andar em seus passos?"
     O bispo parecia estar falando para si mesmo e ter, por
instantes, esquecido a presena do amigo. Ento, num repente, o
Rev. Bruce teve um vislumbre da verdade. E se o bispo, com todo o
peso de sua influncia, levantasse a bandeira de Raymond? E se
ele assumisse aquele movimento? Ele teria a seu lado a maior
parte da classe aristocrtica, rica e educada no somente de
Chicago, mas de vrias cidades grandes. O que aconteceria se o
bispo liderasse esta nova cristianizao!
     A idia estava prestes a ser seguida pela palavra. O Rev.
Bruce colocou a mo no ombro do bispo, com a familiaridade que
tinham, e estava pronto para fazer-lhe uma pergunta muito
importante, quando ambos estremeceram com o toque forte da
campainha. A sra. Bruce j estava a caminho da porta e em
seguida passou a conversar com uma pessoa no vestbulo.
Ouviram uma exclamao de horror, e em seguida o bispo
levantou-se e Bruce dirigiu-se assustado em direo  pesada
cortina entre o vestbulo e a sala. Quando a sra. Bruce, afastando
a cortina, apareceu plida e trmula, disse:
     "Oh! Calvino, que notcia horrvel! O sr. Sterling... oh! no
consigo falar... que golpe terrvel para aquelas duas jovens!"
     "O que aconteceu?" perguntou o Rev. Bruce, dirigindo-se ao
mensageiro, um criado da famlia Sterling, que estava sem chapu
e quase sem flego por ter corrido todo o caminho para trazer a
infausta notcia.
      "O sr. Sterling suicidou-se com um tiro de revlver, senhor,
h poucos minutos. Ele se matou em seu dormitrio. A sra.
Sterling..."
     "Vou para l imediatamente, Eduardo", disse o Rev. Bruce
voltando-se para o bispo. "Quer vir comigo? Os Sterling so velhos
amigos de ns dois."
    O bispo estava muito plido, mas calmo e controlado como
sempre. Ele olhou para o rosto de seu amigo e respondeu:
      "Sim, Calvino, irei com voc, no somente a essa casa
enlutada, mas tambm por todo lugar em que houver o pecado e a
tristeza humana."
     E, diante daquele momento de horror, provocado pela
inesperada notcia, Calvino Bruce compreendeu que o amigo
acabara de tomar a deciso do compromisso.



                    VINTE E QUATRO
         "So eles os seguidores do Cordeiro por onde quer
                         que v" (Ap 14.4).


      Quando o Rev. Bruce e o bispo entraram na manso dos
Sterling, encontraram uma grande confuso, em lugar do apuro na
ordem e na limpeza. O terror dominava o ambiente. As amplas
salas de baixo estavam vazias, mas no andar superior ouviam-se
passos apressados e vozes confusas e descontroladas- Uma das
criadas desceu apressadamente a escada com o horror estampado
no rosto, no exato momento em que o bispo e o Rev. Bruce
comeavam a subir.
     "A srta. Felcia est com a sra. Sterling", disse gaguejando
uma criada em resposta a uma pergunta, e em seguida gritando
descontroladamente atravessou a sala de visitas e saiu pela porta
da rua.
      No alto da escada os dois homens foram recebidos por Felcia.
Ela foi ao encontro do Rev. Bruce e colocou suas mos nas dele. O
bispo em seguida pousou sua mo sobre a cabea de Felcia e os
trs ficaram ali por alguns instantes em absoluto silncio. O bispo
conhecia Felcia desde que ela era uma garotinha. Ele foi o
primeiro a romper o silncio.
     "Que o Deus de toda misericrdia esteja com voc, Felcia,
nesta hora sombria. Sua me..."
     O bispo hesitava. O nico romance de sua vida ressurgia do
passado. O prprio Rev. Bruce desconhecia o episdio. Um dia o
bispo, ento bastante jovem, se enamorara da bela Camila Rolfe,
mas ela tinha preferido um milionrio. O bispo no guardava
nenhuma amargura dessa lembrana, mas a conservava
respeitosamente.
      Em resposta  pergunta inacabada do bispo, Felcia foi at o
quarto de sua me com admirvel serenidade. Da porta do quarto
fez-lhe sinal para que entrasse. Os dois ministros entraram, ambos
com o pressentimento de presenciar algo estranho.
      Rosa estava meio deitada no leito, com os braos estendidos.
Clara, a criada, estava sentada de um lado com a cabea inclinada
entre as mos, soluando descontroladamente. A sra. Sterling
repousava sobre os travesseiros com a face to serena que
inicialmente confundiu at o bispo. Mas depois, quando a dolorosa
e fatdica verdade foi revelada aos dois pastores, o bispo
cambaleou e a agonia profunda da velha ferida irrompeu-lhe de
novo na alma. Mas logo passou e ele permaneceu na cmara da
morte com aquela tranqilidade e fora que os filhos de Deus tm
o direito de possuir.
     Momentos aps, a casa estava completamente transtornada.
Quase ao mesmo tempo chegaram o mdico e a polcia, chamada
pelos empregados aterrorizados. Em seguida, quatro ou cinco
reprteres e muitos vizinhos. Os dois pastores conseguiram afastar
todos aqueles cuja presena no fosse necessria. Depois, ouviram
contar as particularidades do fato que os jornais, em estilo
sensacionalista, denominaram "A Tragdia Sterling".
      O Sr. Sterling se recolhera naquela noite s nove horas e no
foi visto por mais ningum, at que meia hora mais tarde um
estampido ressoou pelo casaro. Um criado precipitou-se em
direo ao quarto de seu patro e o encontrou estendido no cho j
sem vida. Felcia, naquele momento, estava com sua me. Rosa,
que lia na biblioteca, chegara quando os criados erguiam o corpo
de seu pai e o colocavam na cama. Logo em seguida correu com ar
alucinado ao quarto de sua me e desmaiou aos ps da cama.
      Ao saber da tragdia, a sra. Sterling sofreu tambm um
desmaio. Voltando a si, ordenou com surpreendente presena de
esprito que chamassem o Rev. Bruce. Depois insistiu em ver o
marido. Apesar das splicas de Felcia, arrastou-se at perto do
esposo, ajudada pelas criadas. Depois de contempl-lo com olhos
sem lgrimas, voltou para seu aposento, deitou-se e quando o Rev.
Bruce e o bispo entravam na casa, ela expirava com uma prece de
perdo nos lbios trmulos, estando Felcia inclinada sobre ela e
Rosa, ainda sem sentido, a seus ps. Foi assim que a terrvel e
rpida morte entrou naquele palcio luxuoso, naquela noite de
domingo. Mas s quando foi conhecido o estado dos negcios do Sr.
Sterling  que se soube a causa de sua morte.
     Informou-se ento que o milionrio se achava diante de um
desastre financeiro, por causa de certos negcios malfeitos, que, no
curto espao de um ms absorveram todos os seu recursos. Lutou
com energia desesperada quando viu o dinheiro a que dedicara o
corao e a vida ir-se escapando de suas mos e adiou at o ltimo
momento a hora fatal. Mas no domingo de tarde ele teve notcias
certas de que a runa no podia mais ser evitada nem escondida: a
casa em que morava; as cadeiras em que sentava; a baixela em
que se servia; a carruagem, tudo aquilo que fora comprado com
dinheiro que no lhe custara o menor esforo honesto, nada mais
lhe pertencia!
      Toda a sua riqueza no tinha base real. Sabia disso, mas
esperava poder conservar seu dinheiro pelos mesmos mtodos
pelos quais o ganhara. Enganou-se. No momento em que se viu em
face da pobreza, no achou outra sada seno o suicdio. Era o fim
inevitvel de semelhante vida. Fizera do dinheiro o seu deus, e
agora que ele lhe escapava, nada restava para adorar, e, quando o
homem perde o objeto de seu culto, sua existncia no tem mais
razo de ser. Assim morreu o grande milionrio Carlos R. Sterling.
Sua morte foi realmente a de um insensato, pois, que so os
interesses monetrios comparados com as imutveis riquezas da
vida eterna, que esto acima de qualquer especulao, perda ou
mudana?
     A morte da sra. Sterling foi causada pelo terrvel choque. Ela
no conhecia os negcios de seu marido, mas sabia que era
precria a fonte de sua riqueza. Sua vida havia vrios anos j que
andava beirando a morte. Os Rolfe sempre haviam dado a
impresso de que poderiam resistir aos desastres com uma
impassibilidade superior, e a sra. Sterling esteve  altura das
velhas tradies da famlia quando fez questo de ir ao quarto
onde jazia seu marido. Mas o frgil invlucro do seu corpo, ferido e
enfraquecido por longos anos de sofrimentos e contrariedades, no
pde reter seu esprito.
      Os efeitos desse trplice golpe -- morte de seu pai e de sua
me e perda da riqueza -- logo foram sentidos pelas duas irms.
Durante semanas Rosa ficou acabrunhada pelo horror dos
acontecimentos. Nem a simpatia que lhe mostravam nem os
esforos feitos para tir-la desse estado podiam reanim-la. No
podia compreender como o dinheiro, que fora uma grande parte de
sua prpria existncia, tinha desaparecido. Mesmo quando ela e
Felcia tiveram de deixar a casa e passaram a depender de
parentes e amigos, ela no tinha ainda compreendido o
acontecimento.
      Felcia, entretanto, tinha plena conscincia dos fatos. Sabia o
que acontecera e por qu. Poucos dias depois dos funerais,
discutia seus planos com Raquel, sua prima. A sra. Winslow e sua
filha tinham viajado a Chicago logo que souberam da terrvel
notcia e, com outros amigos da famlia, cuidavam do futuro de
Rosa e Felcia.
     "Felcia, voc e Rosa iro conosco para Raymond. Est
resolvido. Mame no quer ouvir falar de outro arranjo", dizia
Raquel olhando para Felcia com uma afeio que se aprofundava
dia a dia e que se intensificara depois que souberam que ambas
haviam tomado o mesmo compromisso.
      "Se eu no puder achar algum trabalho aqui..." respondeu
Felcia, com ar pensativo.
     "Que  que voc poderia fazer, minha querida?"
     "Nada. Nunca aprendi coisa nenhuma, a no ser um pouco de
msica e esse pouco no d para ensinar aos outros ou para viver
da msica. Sei tambm cozinhar um pouco", acrescentou ela com
um leve sorriso.
     "Ento cozinhar para ns. A cozinha que temos  um
constante   tormento   para   mame",     respondeu    Raquel,
compreendendo quanto a perspectiva de tudo dever aos outros era
penosa para sua prima.
     "Poderia mesmo?" respondeu Felcia, tomando a srio a
proposta de Raquel. "Poderia? Estou pronta a fazer qualquer coisa
que garanta meu sustento e o de Rosa. Pobre Rosa! Ele nunca vai
estar em condies de se levantar deste choque."
    "Veremos tudo isto quando chegarmos a Raymond", disse
Raquel sorrindo por entre as lgrimas, ao ver a aflio de sua
amiga em querer se sustentar a si prpria.
     Assim, no fim de algumas semanas, as duas irms Sterling
achavam-se no seio da famlia Winslow, em Raymond. Foi uma
amarga experincia para Rosa; foroso, porm, lhe foi aceitar.
Resignou-se, mas com lamentaes e mau humor, que faziam dela
um fardo para Felcia e Raquel.
     Felcia achou-se em tal atmosfera religiosa que lhe parecia
estar no cu. Verdade  que a sra. Winslow no estava de acordo
com a direo da vida de sua filha, porm os notveis
acontecimentos provocados pelo clebre compromisso no podiam
deixar indiferente nem mesmo uma pessoa como a sra. Winslow.
Entre Raquel e Felcia a intimidade era perfeita. Felcia encontrou
logo um lugar no novo trabalho do Retngulo. No esprito de sua
nova vida, insistiu para ajudar no trabalho da casa de sua tia e,
em pouco tempo, mostrou de tal modo suas habilidades como
cozinheira, que Virgnia lhe pediu que tomasse conta da classe de
cozinha do Retngulo.
     Felcia dedicou-se a essa obra com o mais vivo prazer. Pela
primeira vez em sua vida experimentava a alegria de fazer alguma
coisa til para a felicidade de outros. Sua resoluo de fazer tudo
somente depois de perguntar "Que faria Jesus?" tocou-lhe
profundamente a natureza. A prpria sra. Winslow foi obrigada a
reconhecer a grande utilidade e a beleza do carter de Felcia. A tia
olhava com admirao sua sobrinha, aquela moa acostumada em
cidade grande, filha de um milionrio, criada no meio do maior
luxo, que rodopiava em sua cozinha, com os braos brancos de
farinha, s vezes com uma rodela esbranquiada no nariz, pois
tinha o costume de co-lo para lembrar de alguma receita. Ela
mexia nos vrios pratos com o maior interesse; lavava frigideiras e
chaleiras e achava muito natural fazer o trabalho de uma criada,
em casa ou no Retngulo.
     A princpio a sra. Winslow admoestara:
     "Felcia, seu lugar no  aqui, fazendo essas coisas; no posso
consentir isso."
     "Por que, minha tia? No gostou dos bolinhos que fiz hoje de
manh?" perguntou Felcia meigamente, com um sorriso malicioso,
porque conhecia o fraco de sua tia por aqueles bolinhos.
     "Estavam excelentes, Felcia, mas isto no quer dizer que voc
deva viver fazendo estas coisas para ns."
     "Por que no? Que poderia eu fazer ento?"
     A tia a contemplou pensativamente, notando a beleza
expressiva da moa.
     "Voc est pensando em fazer sempre isso, Felcia?"
     "Quem sabe? Meu sonho  abrir um restaurante ideal em
Chicago e ir pelas casas pobres, num distrito abandonado como o
Retngulo, para ensinar a cozinhar bem. Lembro-me de ter ouvido
o Rev. Bruce dizer uma vez que uma das maiores causas de
molstias dos pobres era a m preparao dos alimentos; ia mais
longe e dizia que era possvel encontrar a origem de certos crimes
nos biscoitos moles e na carne dura. Penso que poderia ganhar
minha vida e a de Rosa, ajudando os outros ao mesmo tempo."
      Felcia meditava no seu sonho at que ele se tornasse
realidade e, enquanto isso, ia crescendo na afeio do povo de
Raymond e do Retngulo, onde era conhecida como o "anjo da
cozinha". Sob a estrutura daquele belo carter que se ia
desenvolvendo, permanecia sempre a promessa feita na Igreja da
Avenida Nazar: "Que faria Jesus?" Ela orava, esperava, trabalhava
e dirigia sua vida de acordo com a resposta a essa pergunta. Era a
inspirao de sua conduta e a resposta a todas as suas ambies.
                      VINTE E CINCO
      Trs meses haviam passado desde aquela manh de domingo
em que o Rev. Bruce subiu ao plpito com a mensagem de uma
nova vida crist. Foram trs meses de grande excitamento na
Igreja da Avenida Nazar. Nunca antes tivera o Rev. Calvino Bruce
oportunidade de observar quo profundos eram os sentimentos
religiosos de seus congregados. Confessou ele com humildade que
o apelo que fizera foi ao encontro das aspiraes de sua
comunidade e provocara uma resposta inesperada de homens e
mulheres que, como Felcia, estavam ansiosos para encontrar em
suas vidas alguma coisa que no haviam encontrado nos tipos de
igrejas convencionais e tradicionais.
     O Rev. Bruce no estava, entretanto, satisfeito consigo
mesmo. Somente depois de uma longa e proveitosa conversa com o
bispo anglicano aps a proposta feita naquele domingo histrico 
que todo o quadro vem se delineando. O compromisso de seguir os
passos de Jesus existe latente desde o primeiro sculo cristo, mas
o seu exerccio, a sua prtica, a sua interiorizao nos coraes
requer mais do que deciso e coragem.  por isso que os dois
amigos estiveram no escritrio do Rev. Bruce dialogando sobre este
grande e vital desafio.
     "Voc sabe por que estou aqui ao seu lado nesta tarde?" o
bispo afirmou depois de estarem conversando a respeito dos
resultados do compromisso com os membros da Igreja da Avenida
Nazar.
      O Rev. Bruce olhou para seu amigo e balanou a cabea em
sinal negativo.
     "Vim para confessar que ainda no cumpri minha promessa
de andar nos passos de Jesus da maneira que acredito que estou
obrigado a fazer, a fim de que desta forma possa satisfazer a este
propsito e  minha conscincia."
     O Rev. Bruce levantou-se e comeou a caminhar em crculo
pelo escritrio. O bispo estava comodamente sentado numa boa
cadeira com suas mos sobrepostas, porm seus olhos faiscavam,
o que, em seu caso, prenunciava alguma grande soluo iminente.
      "Eduardo", exclamou o Rev. Bruce, "nem eu tampouco estou
satisfeito com meu desempenho em relao  promessa que fiz.
Mas tenho pelo menos um roteiro definido. Para que eu possa
seguir os passos de Jesus, terei de resignar o pastorado da Igreja
da Avenida Nazar."
     "Eu sei que isso acabaria acontecendo" disse convictamente o
bispo. "E estou aqui precisamente para dizer-lhe que me sinto
forado a fazer o mesmo -- abandonarei meu cargo."
    O Rev. Bruce, que continuava em p, aproximou-se do bispo.
Ambos tentavam reprimir suas emoes.
    "Mas, pense bem, isso  necessrio em seu caso?" perguntou
Bruce.
     "Sim, e vou dizer-lhe quais so as minhas razes, que
provavelmente so as mesmas que voc tem. Sim, estou certo de
que so as mesmas." O bispo fez uma pausa, e logo depois
continuou demonstrando uma crescente emoo:
      "Calvino, voc est a par de quantos anos estou cumprindo os
deveres inerentes ao meu cargo, e sabe alguma coisa das
responsabilidades e cuidados que me cabem. No posso dizer que
minha vida tenha sido livre de trabalhos, esforos e tambm de
tristezas e decepes. Mas tenho, sem dvida, levado uma vida que,
na avaliao dos pobres desta cidade do pecado, pode ser
considerada muito confortvel, e at mesmo luxuosa. Tenho uma
bela casa, comida boa e farta, boas roupas e vrios divertimentos.
Pude viajar pelo menos doze vezes e tenho desfrutado durante
anos as satisfaes proporcionadas pelas artes, letras e msica,
alm de outras coisas, sempre do melhor. Nunca soube o que 
ficar sem dinheiro ou seus equivalentes.
    Ultimamente, porm, no me tem sido possvel responder
com a conscincia tranqila a esta pergunta: 'Que tenho
renunciado ou sofrido por amor de Cristo?'
     "O apstolo Paulo sabia que o esperavam grandes sofrimentos
em nome do Senhor Jesus. Maxwell, em Raymond, chegou 
mesma concluso: seguir os passos de Jesus significa sofrer.
Quanto tenho eu sofrido? Os pequeninos contratempos e algumas
decepes no exerccio de meu pastorado no so dignos de ser
considerados sofrimentos. Se o meu ministrio for comparado ao
ministrio de Paulo ou de qualquer dos mrtires cristos ou dos
primeiros discpulos, vejo-me forado a reconhecer que vivo no
luxo, na preguia e no pecado. No posso suportar isto por mais
tempo. A maneira como tenho seguido a Jesus clama contra mim e
me condena. A verdade  que no tenho andado como Ele andou.
Pelo atual sistema da igreja e da vida social no vejo como escapar
dessa condenao, a menos que dedique muito mais de minha vida
pessoalmente para atender s necessidades materiais e espirituais
da populao miservel da pior parte desta cidade."
      O bispo levantou-se e caminhou at  janela. A rua estava
fericamente iluminada, como se fosse dia, e ele ficou observando
as pessoas que passavam; em seguida, voltando-se com uma
expresso que revelava o vulco latente que estava em seu peito,
exclamou:
      "Calvino, vivemos numa cidade terrvel! Sua misria, seu
pecado, seu egosmo sufocam e apavoram meu corao. E tenho
por vrios anos lutado contra o terror doentio que me avassala
durante anos de que um dia serei forado a renunciar ao meu
agradvel luxo de minha posio oficial para misturar-me com o
paganismo deste sculo. A terrvel condio das moas
trabalhando nas lojas, fbricas e oficinas; o egosmo da sociedade
insolente, pretensiosa, rica e frvola que no se comove nem toma
conhecimento da misria que grassa entre o povo desamparado; a
terrvel maldio dos antros de bebidas e jogos; os lamentos dos
desempregados; o dio que inmeros homens tm pelas igrejas por
verem nelas apenas um amontoado de pedras carssimas e mveis
estofados, considerando o ministro um parasita que vive no luxo;
todo este vasto tumulto desta vasta massa de indivduos com suas
idias falsas ou verdadeiras, essa exagerao dos males da igreja e
sua amargura e vergonha que resultam de muitas causas
complexas, tudo isso, contrastando com minha vida fcil e
confortvel, me enche cada vez mais de terror e de sentimento de
culpa. Tenho ouvido muitas vezes as palavras do Mestre nos
ltimos tempos: 'Na verdade, na verdade vos digo que quantas
vezes deixastes de fazer a um destes mais pequeninos, a mim o
deixastes de fazer.' E quando foi que eu fui pessoalmente visitar
prisioneiros ou os desesperados ou que estavam em pecado, ou
realizei qualquer ato de misericrdia que me qualificasse como
algum que se sacrificou pelo prximo? Bem ao contrrio, tenho
apenas praticado os hbitos convencionais de apoiar, estimular,
agradar os membros de minha congregao superficialmente,
especialmente os bem situados na sociedade, os ricos, os
aristocratas, os ilustrados. Onde est, pois, meu sofrimento? Que
tenho eu sofrido por amor de Jesus Cristo? Saiba disto, Calvino:
ultimamente tenho sido tentado a aoitar-me com uma vara ou um
chicote. Se estivesse no tempo de Martinho Lutero, eu teria
vergastado a mim mesmo, num autoflagelo."
     O Rev. Bruce falou por fim:
     "Eduardo, no  preciso dizer-lhe que os sentimentos que
acaba de expressar so exatamente os meus. Tenho vivido durante
anos uma posio semelhante, de luxo, ostentao, lazeres, nada
que lembre sacrifcio ou abnegao.  verdade que no estive livre
de provaes, desnimos e alguns fardos no ministrio da igreja.
Mas de modo algum posso admitir que tenha sofrido
especificamente por Jesus. O versculo de Pedro  um lembrete
constante em minha memria, como que desafiando-me: 'Tambm
Cristo sofreu por vs, deixando-vos exemplo, para para que sigais
suas pisadas.' Mas a verdade  que tenho vivido confortavelmente.
Nunca soube o que  passar necessidade. Tenho desfrutado meus
lazeres em viagens, geralmente com acompanhantes maravilhosos.
Tenho sido cercado das coisas boas da vida. O pecado e a misria
desta grande cidade arremetem como ondas bravias contra as
slidas paredes da igreja e desta casa em que vivo, e raramente as
ouo, porque estas paredes tm sido impenetrveis. Cheguei a um
ponto que j no consigo suportar esta situao. No estou
condenando a igreja. Amo-a e no posso esquec-la. Creio em sua
misso histrica e no quero desvi-la de seu propsito. A pior
coisa que me aconteceria em relao a ela  ser acusado de estar
abandonando aquela fraternidade crist que me ajudou a crescer
em minha vida espiritual. Sinto, porm, que  meu dever, por amor
de um alvo superior, resignar o pastorado na Igreja da Avenida
Nazar. O alvo superior  seguir os passos de Jesus da maneira
como me sinto chamado a faz-lo. Trata-se de uma deciso pessoal,
de acordo com minha conscincia despertada. No pretendo julgar
outros ministros nem criticar outros crentes. Mas sinto, como voc,
a imperiosa necessidade de aproximar-me da misria, do pecado,
da degradao desta cidade, justamente para lutar pela sua
redeno, como Jesus faria. E a nica possibilidade de alcanar
este propsito  cortar meu vnculo com a Igreja da Avenida Nazar.
No vejo outro caminho seno o do sacrifcio, da abnegao e do
sofrimento por amor de Cristo Jesus."
    De novo um pesado silncio caiu sobre aqueles dois servos de
Deus. A deciso coincidente de ambos no foi fruto do seu orgulho
ou auto-afirmao. Eles refletiram maduramente, sofreram
intelectualmente e se ajoelharam humildemente aos ps do
Salvador, chegando s mesmas concluses atravs dos mesmos
raciocnios, acostumados a avaliaes ponderadas, jamais
subestimando a seriedade de sua posio e responsabilidade.
     "Qual  seu plano?" perguntou o bispo suavemente, como era
seu feitio, abrindo um sorriso peculiar que lhe iluminava o rosto.
     "Meu plano", respondeu Bruce lentamente, ", em resumo,
colocar-me bem no centro em que se situa a rea de maior
carncia, de maior miserabilidade, e instalar-me ali com minha
esposa, que est plenamente de acordo comigo. Nosso objetivo 
estar onde nossa ao possa produzir o maior bem possvel, quer
no aspecto material, quer no espiritual."
      "Permita-me sugerir-lhes um lugar", interveio logo o bispo
com entusiasmo e vivo interesse. Ele estava empolgado com a idia
desse movimento, com o qual ele e seu amigo estavam agora
inevitavelmente identificados. Passou em seguida a expor um
plano to ambicioso que o Rev. Bruce, competente e experiente
como era, ficou extasiado diante da viso que lhe foi exposta por
uma alma superior  sua.
      Sentaram-se to eufricos, to alegres e animados como se
estivessem planejando uma viagem exploratria a um lugar
paradisaco que no conhecessem. O bispo repetira vrias vezes,
durante a tarde, que, ao decidir viver uma vida de dedicao
pessoal aos infelizes, sentia como se um grande peso tivesse cado
de seus ombros. Os dois amigos estavam exultantes como duas
crianas no auge de um folguedo.
      O plano finalmente esboado para permitir o desenvolvimento
de um trabalho frutfero consistia em alugar um grande edifcio
desocupado, que fora antes uma fbrica de cerveja, o qual, uma
vez reconstrudo e adaptado ao seu novo destino, se transformaria
em sua prpria moradia e centro de suas atividades. Ali estariam
bem no corao de um bairro de casas imundas, onde imperava o
alcoolismo, e onde grassava o vcio, a ignorncia e a pobreza
extrema, formando uma associao do que se poderia encontrar de
pior em Chicago. A idia no era nova. Ela foi posta em prtica por
Jesus Cristo, quando Ele deixou a glria da casa de seu Pai,
esquecendo-se de suas riquezas para vir aqui ao reino do pecado e
da misria humana, identificando-se com essa humanidade
perdida, amando-a, ensinando-a e resgatando-a, tomando sobre si
os seus pecados e assegurando-lhe o perdo e a redeno de suas
almas. Esse plano no era novo. Era to antigo como Belm e
Nazar. Mas estava ali, diante de seus olhos, e era a coisa mais
prxima do corao de Cristo que poderiam fazer para satisfazer
seu anseio de servir a Ele e sofrer por Ele.
      Havia brotado em seus coraes, ao mesmo tempo, um sonho
e uma aspirao que se transformaram em paixo, a de penetrar
no corao da mais extrema pobreza fsica e da mais profunda
misria espiritual de uma grande cidade. Como faz-lo, porm, sem
tornar-se como um deles, como fez o Mestre, identificando-se se
com sua indigncia material e espiritual? Onde pode o sofrimento
cristo solidrio expressar-se a no ser no meio do prprio
sofrimento, negando-se a si mesmo e tornando realidade o exemplo
do Bom Pastor, que veio em busca das ovelhas perdidas. O
Cristianismo autntico  o que chora com os que choram.
      Assim refletiam eles, sem pretender julgar os outros, mas
apenas procurando manter seu compromisso de fazer o que Jesus
faria, to honesta e desprendidamente como Ele o fez quando aqui
esteve. Esta era a sua promessa. Quanto aos resultados ou
conseqncias, no estavam to preocupados como quanto o
desejo de logo se lanarem  luta. Eles estavam irresistivelmente
compelidos a realizar o que fora planejado. No havia razo para
esperar.
      O bispo tinha uma respeitvel fortuna. O Rev. Bruce
acumulara como resultado de seus trabalhos literrios quantia
suficiente para assegurar sua independncia. Tais recursos seriam
aplicados em boa parte na reforma e aparelhamento da Casa da
Misso, como seria denominada.



                       VINTE E SEIS
      Nesse entretempo a Igreja da Avenida Nazar estava
experimentando algo jamais acontecido em sua histria. O apelo
feito pelo pastor aos seus congregados para que assumissem o
compromisso de fazer o que Jesus faria tinha causado grande
sensao, que ainda perdurava. O resultado desse apelo foi
semelhante ao que se verificara na igreja do Rev. Henrique Maxwell,
em Raymond. A nica diferena entre as duas igrejas estava no
fato de a Igreja da Avenida Nazar ser mais aristocrtica, mas rica
e mais formalista. Entretanto, quando numa manh de domingo,
ao comear o vero, o Rev. Bruce subiu ao plpito para anunciar
sua resignao do pastorado, o espanto e a consternao tomaram
conta do auditrio, e toda a cidade foi sacudida pela notcia. No
tocante ao conselho e demais lderes, sabia-se de sua inteno,
que fora previamente comunicada, e o movimento que estava
preparando no era surpresa para eles e para alguns membros.
Quando, porm, se tornou pblico que tambm o bispo havia
renunciado e se aposentado aps tantos anos de permanncia
nessa posio, decidido a viver e trabalhar na parte mais
desclassificada de Chicago, a estupefao no teve limites.
      "Mas por qu?" respondia o bispo a um afetuoso amigo que
chegara quase s lgrimas tentando dissuadi-lo de seu intento.
"Por que lhe parece to estranho que o Rev. Bruce e eu nos
propusemos a fazer uma coisa to notvel e importante como
salvar almas perdidas de uma forma apenas diferente? Se
tivssemos renunciado a nossos cargos com o intuito de viajar
para a ndia ou a China ou a algum lugar da frica em trabalho
missionrio, as igrejas e o pblico enalteceriam nosso gesto
herico e desprendido. Por que deve parecer coisa to
extraordinria resolvermos consagrar nossas vidas para salvar os
descrentes, os perdidos e miserveis de nossa prpria cidade? 
acaso um acontecimento to extraordinrio que dois ministros
cristos tenham deliberado conviver com os miserveis, os
deserdados, para conhec-los, privar com eles e, por fim, dar-lhes
dignidade e, acima de tudo, a mensagem de salvao?  assim to
raro que o amor pela humanidade tenha encontrado uma forma
particular de expresso no seu propsito de salvar almas para
Cristo?"
     No obstante tudo quanto o bispo tentasse dizer para
demonstrar a naturalidade do que estavam fazendo, o povo
continuava seus comentrios e crticas, e as igrejas se admiravam
de que dois homens proeminentes na vida eclesistica tivessem
deixado suas casas confortveis e renunciado voluntariamente sua
cmoda e valorizada posio social, para se entregarem a uma vida
de lutas, de abnegao e de sofrimentos.  Amrica crist,  uma
vergonha que, para o nosso modo de considerar o Cristianismo,
seja surpresa e ignomnia o simples e generoso ato daqueles que
desejam andar nos passos de Jesus!
     A Igreja da Avenida Nazar despediu-se de seu pastor com o
mais profundo sentimento de perda por parte da maioria de seus
membros, apesar de essa separao ter sido acompanhada de uma
sensao de alvio por aqueles que no tinham assumido o
compromisso. O Rev. Bruce teve o respeito dos homens que,
envolvidos em seus negcios, seriam prejudicados pelo
cumprimento da promessa, conservando entretanto em seu ntimo
o reconhecimento e a genuna admirao pela coragem
demonstrada por seu pastor. Conheciam o Rev. Bruce havia
muitos anos e sabiam-no homem conservador e peculiarmente
bondoso, mas no foram capazes de aceitar a idia de v-lo no
caminho do sacrifcio. To logo puderam compreender o alcance e
a natureza de seu novo trabalho, eles se convenceram de que seu
pastor era absolutamente fiel s suas convices recentes a
respeito do que Jesus faria. A Igreja da Avenida Nazar jamais
perdeu o impulso daquele movimento iniciado pelo Rev. Bruce. Os
que se dispuseram juntamente com ele a tomar aquele srio
compromisso perseveravam no mesmo esprito de renncia e, por
meio de seu testemunho, sopravam sobre a igreja o hlito de uma
vida santificada.
                           *******


      O outono chegara, e a cidade se preparava para mais um
inverno inclemente. Uma tarde o bispo saiu da Casa da Misso e
caminhou algumas quadras com a inteno de fazer uma visita a
um de seus novos amigos do bairro. Ele tinha andado umas quatro
quadras quando teve sua ateno voltada para uma loja que
parecia diferente das outras. Ele ainda no estava bem
familiarizado com a vizinhana, mas a cada dia travava novos
relacionamentos.
     A loja que chamou sua ateno era uma casa pequena ao
lado de uma lavanderia. Havia duas janelas que davam para a rua,
ambas muito limpas e, por isso, despertaram sua curiosidade.
Dentro, vrios pratos preparados estavam expostos indicando os
respectivos preos, que fascinaram o bispo. Ele estava comeando
a conhecer muitas coisas da vida do bairro que lhe eram estranhas.
Enquanto olhava esses pratos atravs das janelas, a porta se abriu
e apareceu Felcia Sterling.
    "Felcia!" exclamou surpreso o bispo. "Quando chegou 
minha parquia sem meu conhecimento?"
     "E como o senhor me descobriu to depressa?" perguntou ela.
      "Ora, no sabe como? Ento voc no percebe que estas
vitrinas so as nicas limpas por aqui?"
      "Creio que sim", replicou Felcia com uma gostosa risada, que
fez bem ao bispo.
      "Mas, como resolveu voltar a Chicago sem me informar e
entrou em minha parquia sem meu consentimento?" insistiu ele.
Felcia trazia-lhe a recordao daquele mundo bonito, limpo,
educado, civilizado que ele uma vez conheceu, e ela bem que podia
tolerar que ele visse nela alguma coisa do velho Paraso. Contudo,
para ser franca, ela no tinha nenhum desejo de voltar queles
tempos.
      "Meu caro bispo", disse ela que sempre o tratava assim desde
menina, "sabia que o senhor estava sobrecarregado de trabalhos e
no quis importun-lo com meus planos. Alm disso, tenho
inteno de oferecer-lhe meus servios. Estava agora mesmo
pensando em ir  sua casa para visit-lo e pedir-lhe alguns
conselhos. Por enquanto estou instalada aqui com a sra. Bascom,
uma comerciante que nos aluga trs salas, e com uma das alunas
de Raquel, que veio aqui para continuar os estudos de violino,
sendo ajudada nas despesas por Virgnia Page. Ela  do Retngulo.
Tomo conta da casa e, ao mesmo tempo, procuro preparar bons
pratos para os clientes. Sou entendida no assunto; tenho projetos
que o senhor ter ocasio de apreciar e estou certa de que ter
interesse em desenvolver, meu caro bispo."
     "Certamente", assentiu o bispo, arrebatado pela energia, pelos
ideais e pelo entusiasmo da moa.
     "Marta pode ajudar na Casa da Misso com seu violino e eu
com minhas iguarias. Quis primeiro estabelecer-me e fazer minhas
experincias antes de oferecer meus servios. Agora posso ganhar
o meu sustento."
     "Pode?" perguntou o bispo um tanto incrdulo. "Como?
Fazendo estas coisas?"
     "Estas coisas!" disse Felcia fingindo-se indignada. "Saiba,
cavalheiro, que 'estas coisas' so os alimentos mais puros e mais
bem feitos desta cidade!"
     "No estou duvidando", apressou-se o bispo em corrigir,
enquanto seus olhos cintilavam. "Porm, 'para que est esfomeado,
sola de sapato...' bem, o resto voc j sabe."
     "Entre e prove alguma coisa!" exclamou Felcia. "Pobre bispo!
Parece que no come uma boa refeio h um ms!"
     Ela insistiu em que ele entrasse numa pequena sala onde
Marta, uma jovem extrovertida, de cabelos encaracolados, se
exercitava ao violino.
     "Continue, Marta. Este  o bispo de quem lhe falei tantas
vezes. Sente-se aqui, meu caro bispo, e experimente esta carne de
caarola, pois acredito que esteja em jejum."
      Tiveram, assim, um almoo improvisado, e o bispo que, a
bem da verdade, havia algum tempo no tinha tempo suficiente
para apreciar suas refeies, sentou-se  pequena mesa que a
moa preparara apressadamente e deliciou-se com sua inesperada
descoberta, no podendo deixar de expressar sua surpresa e
gratido pela excelente qualidade da comida.
     "Eu imaginava que o senhor iria consider-la to boa como a
dos   grandes    banquetes   do    'Auditorium'",   vangloriou-se
astutamente Felcia.
     "To boa como! Os banquetes do 'Auditorium' eram uma
droga comparados com esta comida! Mas voc precisa ir  Casa da
Misso. Quero que veja o que estamos fazendo l. E estou ainda
surpreso vendo-a trabalhando aqui para garantir seu sustento.
Estou comeando a perceber seu plano. Estou certo de que pode
nos prestar uma grande ajuda. Imagino que no pretende
continuar aqui mostrando a esta gente o valor de uma boa
alimentao. Estou certo?"
     "Isto  o que penso fazer", disse ela com ar srio. "Creio que
esta  minha misso. No devo cumpri-la?"
     "Oh! sim, sim! Graas a Deus pelo seu bom senso. Quando
deixei o mundo", e sorriu ao proferir esta frase, "falava-se muito a
respeito da "nova mulher". Se voc  uma delas, estou convertido a
essa causa aqui e agora."
      "Elogios! Elogios! No se pode evitar isso nem mesmo nas
vielas de Chicago." Felcia deu uma boa risada novamente. E o
corao do bispo, pesaroso diante da misria que via em seu
campo de ao, abriu-se em pura alegria; essa risada franca trazia-
lhe conforto. Vinha de Deus.
      Felcia estava desejosa de conhecer a Casa da Misso, por
isso resolveu ir at l em companhia do bispo. Ficou deslumbrada
quando viu tudo aquilo que o dinheiro, a viso e principalmente a
habilidade e a inteligncia consagradas a Deus so capazes de
realizar. Ao mesmo tempo que caminhavam pelo edifcio iam
conversando ininterruptamente sobre aquela realizao e as idias
que ocupavam suas mentes. Ela era a prpria imagem da
vitalidade e do entusiasmo, e o bispo a ouvia com interesse e se
encantava com aquele vulco de energia contagiante que Felcia
ostentava.
     Desceram ao piso inferior e o bispo abriu uma porta,
entrando numa oficina improvisada onde predominava o rudo de
uma plaina de carpinteiro. Era uma oficina pequena porm bem
aparelhada. Um jovem com um chapu de papel e macaco
aplainava uma tbua assobiando. Ergueu os olhos quando os viu
entrando e tirou o chapu cumprimentando-os. Em seguida
segurou entre os dedos uma apara enrolada e colocou-a atrs da
orelha.
     "Srta. Felcia, sr. Estvo Clyde", disse o bispo ao fazer a
apresentao. "Clyde vem aqui duas tardes por semana para nos
ajudar."
     Naquele instante o bispo foi chamado, afastando-se e
deixando os dois jovens conversando.
     "Ns j nos vimos antes", disse Felcia a Clyde, olhando-o com
a franqueza que lhe era prpria.
     "Sim, 'l no mundo', como diz o bispo", respondeu o jovem,
enquanto seus dedos tremiam ligeiramente apoiados na tbua que
estava aplainando.
     " verdade." Felcia hesitou um pouco e completou: "Alegra-
me tornar a v-lo."
      "Realmente?" E o prazer de ouvir tais palavras levou-o a ficar
ligeiramente corado na testa e um tanto confuso. "Desde aquela
ocasio tem vivido com suas tristes lembranas, no  mesmo?"
mostrando-se em seguida embaraado com receio de t-la
magoado. Ela estava, porm, bem calma e  vontade.
     "Sim, e voc tambm. Como veio parar aqui?"
     " uma longa histria, Felcia. Meu pai perdeu toda sua
fortuna, o que me obrigou a trabalhar. Para mim foi uma
experincia muito boa. Segundo o bispo, devo dar graas a Deus
por isso. Estou vivendo muito feliz agora. Fiz o curso de
contabilidade e  noite cuido de toda a escriturao de um dos
hotis da cidade. Alm disso aprendi este ofcio para poder ajudar.
Naquele domingo de manh em que voc assumiu o compromisso
na Igreja da Avenida Nazar eu tambm fiz a mesma promessa.
      "Ah, voc tambm?" disse Felcia com voz baixa e lentamente.
"Fico contente com sua deciso."
      Naquele instante o bispo retornou e em seguida saiu com
Felcia, enquanto o jovem carpinteiro continuava seu trabalho,
sendo possvel notar que ele estava assobiando mais alto do que
habitualmente enquanto aplainava a tbua.
     "Felcia", indagou o bispo, "voc j conhecia Estvo Clyde?"
    "Sim, caro bispo, 'l no mundo'. Ele era um dos meus
conhecidos da Igreja da Avenida Nazar."
     "Ah!" fez o bispo.
     "ramos muito bons amigos", acrescentou Felcia.
     "Amigos... e nada mais?" atreveu-se o bispo a perguntar.
     Felcia ficou um tanto sem jeito e corada, mas se apressou a
afastar qualquer dvida, olhando firme para ele e dizendo com
naturalidade:
     "No, no; nada mais."
      "Entretanto, seria a coisa mais natural deste mundo se estes
dois jovens se enamorassem", cogitava o bispo, com um ar triste,
depois que Felcia se despediu. Um vestgio da antiga dor que lhe
ficara do seu romance com Camila, a falecida me de Felcia, fez
reviver o passado, trazendo-lhe lgrimas aos olhos. Comeou a
pensar no futuro de Felcia, brotando em sua mente a esperana
de que os dois jovens, algum dia, viessem a se amar. "Afinal de
contas", se ps a pensar como homem sensvel que era, "o romance
no  uma parte importante da humanidade? O amor  mais velho
do que eu... e mais sbio."
      Na semana seguinte o bispo passou por uma experincia que
entrou na histria da Casa da Misso. Ele estava voltando de l j
bastante tarde aps uma reunio, caminhando tranqilamente,
pensativo e com as mos cruzadas nas costas, quando dois
homens surgiram repentinamente de trs do porto de uma velha
fbrica abandonada, barrando-lhe a passagem na calada. Um
deles sacou um revlver encostando-o em sua cabea, e o outro o
ameaava com uma estaca de madeira pontiaguda.
     "Mos ao alto e fique quieto!" disse o que tinha o revlver.
      O lugar era solitrio e o bispo em momento algum pensou em
resistir. Obedeceu ao que lhe mandaram fazer e o homem com a
estaca passou a revistar seus bolsos. O bispo estava calmo, seus
nervos no tremiam. Enquanto ele estava ali com ambos os braos
levantados. Qualquer espectador que passasse casualmente
pensaria que ele estava orando pela alma dos dois homens. E ele
estava. E sua orao seria respondida de uma forma bem singular
naquela mesma noite.



                        VINTE E SETE
            "A justia ir adiante dele, cujas pegadas ela
                transforma em caminhos" (Sl 85.13).


     O bispo no tinha o costume de andar com muito dinheiro, e
o homem com a estaca que o estava revistando disse um palavro
quando constatou a pequena quantia que encontrou. Ento o
outro gritou como um selvagem: "Tire o relgio dele! E vamos fazer
o servio completo, levando tudo o que ele tem!" O homem com a
estaca estava tentando tirar a corrente do relgio quando ouviram
um rudo de passos se aproximando.
     "Para trs do porto! No terminamos o servio ainda. E fique
quieto, se no..."
     O revlver foi encostado em sua nuca e o outro puxou-o para
dentro do porto semi-aberto. Ali ficaram at que o barulho dos
passos desaparecesse.
     "J tirou o relgio?"
     "Ainda no. A corrente est presa em algum lugar, no estou
conseguindo."
     "Arrebente-a ento!"
      "No, por favor, no quebre a corrente!" exclamou o bispo,
que at aquele momento tinha permanecido calado. "Ela  o
presente de um amigo muito querido, e eu ficaria muito triste se
ela fosse estragada."
    Ao ouvir a voz do bispo o homem com o revlver estremeceu
como se tivesse sido ferido por sua prpria arma. Com um
movimento brusco da outra mo virou o rosto do bispo contra a luz
que vinha da rua e olhou-o fixamente. Ento, para espanto do
comparsa, disse rudemente:
     "Deixe o relgio com ele! J temos o dinheiro! Basta!"
     "Basta? Temos apenas meio dlar. Voc se esquece que..."
      Antes que o homem que segurava a estaca pudesse terminar
a frase o cano do revlver j estava apontado para ele.
     "Deixe o relgio! E devolva o dinheiro tambm.             Ns
assaltamos o bispo, est ouvindo? O bispo!"
     "E da? Nem mesmo o Presidente da Repblica seria uma
presa boa para ns!"
     "Ou voc pe o dinheiro de onde tirou ou em cinco segundos
lhe estouro os miolos e acabo com a sua burrice!"
     O comparsa ainda vacilou, mas, percebendo a disposio do
outro, colocou o dinheiro no bolso do bispo.
     "Senhor, pode abaixar os braos", disse o que tinha o revlver,
enquanto vigiava de perto o comparsa. O bispo abaixou os braos
vagarosamente e olhou compassivamente para os dois assaltantes.
Naquela luz mortia era quase impossvel reconhecer as feies.
Ele estava totalmente livre para seguir seu caminho, mas ficou ali
ainda parado sem fazer nenhum movimento.
     Aquele que parecia ser o chefe disse:
     "O senhor pode ir, bispo. No  preciso ficar aqui mais
tempo." Em seguida sentou-se numa pedra. O outro continuou a
enterrar a estaca na terra.
     " exatamente por causa de vocs que ainda no fui embora",
e sentou-se numa parte saliente de um muro quebrado.
     "Parece que o senhor gosta da nossa companhia. Muita gente
no v a hora de ficar longe de ns", disse o homem da estaca com
um riso debochado.
    "Cale a boca!" gritou o outro. "A verdade  que estamos no
caminho do inferno e temos mais necessidade de uma boa
companhia do que a do Diabo."
     "Se me permitissem ajud-los...", disse o bispo com visvel
boa vontade e gentileza.
     O homem sentado na pedra olhava sem parar para o bispo
atravs daquela meia-lua. Aps uns segundos de silncio, tomou
ento finalmente a deciso de falar:
     "O senhor, por acaso, est lembrado de me ter visto antes?"
    "No", respondeu o bispo. "Aqui est bastante escuro e no
pude distinguir suas feies."
     Ento o homem tirou o chapu, levantou-se, foi at onde
estava o bispo e inclinou-se quase encostando seu rosto no dele e
perguntou-lhe: "Est me conhecendo agora?"
     Os cabelos do homem eram pretos como carvo, mas, bem no
topo da cabea havia uma mecha de cabelos brancos do tamanho
da palma da mo.
    No instante em que viu isso o bispo ficou surpreso e uma
lembrana de quinze anos comeou a se despertar em sua mente.
O homem quis ento ajud-lo a lembrar-se.
     "No se lembra de um dia a pelos anos 81 ou 82 que um
homem foi  sua casa dizendo que a mulher e um filho dele tinham
morrido queimados no incndio numa casa de cmodos em Nova
York?"
      "Sim", estou comeando a me lembrar agora. O outro
indivduo de repente se interessou pela conversa e se ps a escutar
deixando de enterrar a estaca na terra.
     "No se lembra que me recolheu em sua casa naquela noite e
que passou todo o dia seguinte procurando emprego para mim e
que, depois de me arranjar o trabalho, lhe prometi que deixaria a
bebida, como o senhor tinha me pedido?"
    "Sim, sim, estou bem lembrado agora. Espero que tenha
mantido sua promessa."
     O homem riu animalescamente. Deu um murro to forte na
parede que chegou a se machucar.
      "A promessa! Eu estava bbado antes do fim da semana e
nunca mais deixei de beber. Mas nunca me esqueci nem do senhor
nem da sua orao. O senhor se lembra de que, na manh
seguinte, quando cheguei a sua casa, depois do caf o senhor me
convidou para assistir ao culto domstico? Aquilo me deixou
impressionado. Minha me costumava fazer orao. Lembro-me
dela ajoelhada ao lado da minha cama, quando eu era pequeno.
Uma noite meu pai chegou e passou a dar pontaps nela enquanto
ela estava orando ao meu lado. Mas nunca esqueci aquela orao
que o senhor fez naquela manh. O senhor orou por mim
exatamente como minha me orava, sem prestar ateno ao fato
de eu estar esfarrapado, embrutecido e meio bbado quando toquei
a campainha de sua casa. Meu Deus! Que vida tenho levado!
Tenho morado nos botequins que transformaram este mundo num
inferno para mim. Mas aquela orao ficou na minha memria
todo esse tempo. Em apenas duas semanas quebrei em mais de
mil pedaos a promessa que tinha feito de no beber mais; perdi o
emprego que o senhor tinha arranjado para mim, e fiquei dois dias
na cadeia, mas nunca esqueci o senhor nem a sua orao. No
desejo fazer nenhum mal ao senhor nem permitirei que algum o
faa. E, como o senhor est livre de mim agora, pode ir embora em
paz."
      O bispo no se moveu. Ao longe, numa igreja, soou uma hora.
O homem ps o chapu na cabea e sentou-se de novo. O bispo
refletia profundamente.
    "H quanto tempo est sem trabalho?" perguntou. Foi o
homem que estava em p que respondeu:
     "Faz mais de seis meses que no trabalhamos. No falo deste
trabalho de assaltar os outros na rua e que  muito aborrecido,
principalmente numa noite como esta, quando no conseguimos
nada...
     "Se eu achar trabalho para vocs dois, vocs deixaro esta
vida para comear tudo de novo?"
     "Para qu?" disse mal-humorado o que estava sentado na
pedra. "J experimentei me reformar umas cem vezes e cada vez
estou me afundando mais. O Diabo j comeou a me destruir. 
tarde demais agora!"
     "No!" exclamou o bispo, e nunca, nem diante dos auditrios
mais arrebatados, sentiu ele to ardentemente o desejo de salvar
almas. Durante todo aquele tempo estava orando: "Senhor Jesus,
d-me estas duas almas para ti! Estou ansioso para salv-las! D-
me, Senhor, estas almas!"
     "No!" exclamou novamente o bispo. "O que Deus deseja de
vocs? Ele deseja salv-los, pois ambos so de um valor muito
precioso aos seus olhos." E ento a prodigiosa memria do bispo
veio naquele instante em seu auxlio, permitindo que ele dirigisse
um apelo quele homem, como ningum mais poderia fazer.
     Lembrara-se do seu nome, apesar da distncia no de tempo
que os separava.
     "Burns", disse ele com um tom de splica irresistvel, "se voc
e seu companheiro quiserem ir para casa comigo esta noite, vou
arranjar emprego para os dois. Quero acreditar e confiar em vocs.
Vocs ainda so jovens. Por que iria Deus perd-los? E uma
grande coisa ganhar o amor de um grande Pai e  coisa pequena
que eu possa am-los. Mas, se vocs precisam sentir de novo que
h amor no mundo, devem confiar em mim quando lhes digo que
lhes quero bem e que, em nome daquele que foi crucificado por
nossos pecados, no posso suportar a idia de v-los desprezando
a glria da vida humana. Venham! Sejam homens! Faam ainda
um esforo, com o auxlio de Deus. Ningum mais, alm de Deus,
de vocs e de mim, precisa saber o que se passou aqui esta noite.
Deus lhes dar perdo no momento em que vocs o pedirem. Vocs
vero como isso  verdade. Venham! Lutaremos juntos! Vale a
pena o combate:  a vida eterna! Cristo veio para salvar os
pecadores. Eu farei o que me for possvel por vocs. O Deus, d-me
as almas destes dois homens!" Em seguida, o apelo do bispo
transformara-se numa orao a Deus. Havia apenas um instante
que ele orava e j Burns escondia a face nas mos, soluando. Que
era feito das oraes de sua me agora? Elas se uniam ao poder da
orao do bispo. O companheiro de Burns, mais duro, no estando
preparado por um conhecimento anterior do bispo, encostava-se
ao muro com ar indiferente. Mas, pouco a pouco,  medida que a
orao continuava, emocionava-se tambm. A fora do Esprito
Santo, que influenciava aqueles homens inflexveis, brutais e
grosseiros, s a eternidade poder revelar. Mas a mesma Presena
sobrenatural que feriu Paulo na estrada de Damasco e caiu sobre a
igreja de Henrique Maxwell na manh em que ele convidou
voluntrios para seguirem os passos de Jesus e que tambm havia
cado irresistivelmente sobre a Igreja da Avenida Nazar, agora se
manifestava naquele canto da grande cidade e sobre a natureza
daqueles dois homens maus aparentemente perdidos para todos os
apelos da conscincia e varridos da memria de Deus. A orao do
bispo parecia ter quebrado a crosta que, havia muitos anos, os
separava da comunho divina. Eles mesmos estavam confusos.
     O bispo terminou e, a princpio, ele prprio no compreendeu
o que tinha acontecido. Nem eles o sabiam. Burns continuava com
a face entre as mos. E o homem da estaca olhava o bispo com
uma expresso em que as recentes emoes de terror,
arrependimento e espanto, juntamente com um lampejo de alegria,
lutavam para se exprimir. O bispo se levantou:
     "Venham, irmos! Deus  bom. Ficaro hoje na Casa da
Misso e eu lhes arranjarei emprego."
      Eles o seguiram em silncio. Chegaram  Casa da Misso
depois das duas horas. O bispo conduziu-os a um quarto. Na porta,
ele parou um momento. A sua alta e impressionante figura
salientava-se entre os umbrais e seu rosto plido, marcado por
aquela recente experincia, estava iluminado pela divina glria.
     "Deus os abenoe, meus irmos!" E com esta bno os
deixou.
     Na manh seguinte, ele estava com certo receio de ver os dois
homens. Mas as impresses da noite no se haviam dissipado.
Arranjou-lhes trabalho: o porteiro da Casa da Misso precisava de
um ajudante, em vista do aumento de servio, e o lugar foi dado a
Burns. Seu companheiro entrou, como cocheiro, para a casa de
um negociante dos arredores. E o Esprito Santo, lutando no
ntimo desses dois pecadores obscuros, prosseguiu neles sua
maravilhosa obra de regenerao.



                       VINTE E OITO
     No dia seguinte, Burns estava varrendo os degraus da escada
em frente da Casa da Misso; interrompeu-se um momento e
comeou a olhar ao redor. A primeira coisa que chamou sua
ateno foi a tabuleta de uma casa de bebidas ao lado da Casa da
Misso. Com sua vassoura poderia toc-la. Tambm em frente ao
prdio havia duas grandes casas de bebidas e, um pouco adiante,
mais trs.
     De repente a porta mais prxima se abriu e saiu um homem
ao mesmo tempo que outros dois entraram. Um forte cheiro de
cerveja chegou at Burns. Ele segurou com mais fora a vassoura
e comeou a varrer. Um de seus ps estava no limiar da porta e o
outro no primeiro degrau. Ele desceu mais um degrau, sempre
varrendo. Gotas de suor corriam-lhe pela face, apesar do frio. A
porta do bar vizinho se abriu de novo e trs ou quatro homens
saram. Uma criana entrou com uma vasilha e logo depois saiu
com ela cheia de cerveja. A criana passou perto de Burns que
sentiu de novo o cheiro tentador. Desceu outro degrau, varrendo
desesperadamente, com os dedos roxos e crispados na vassoura.
     Ento, de repente, ele subiu mais um degrau e varreu o lugar
que j havia varrido. E em seguida empreendia um gigantesco
esforo para afastar-se do limiar da porta, mas era atrado e se
aproximava de novo da calada onde estivera h pouco, bem ao
lado do bar e recomeava a varrer o mesmo lugar.
     Fez um supremo esforo para voltar para dentro da Casa da
Misso. "Meu Deus", dizia ele, "se ao menos o bispo voltasse!" O
bispo tinha sado com o Rev. Bruce e no havia ningum
conhecido por perto.
     Ele varria a calada fazia dois ou trs minutos. Seu rosto
estava transtornado pela agonia de seu conflito. Travava-se nele
um violento combate. Depois notou que o ltimo degrau da escada
estava ainda coberto de poeira. Foi um motivo para descer de novo
ao nvel da rua e acabar seu trabalho. Comeou a varrer o degrau
dando parcialmente as costas para o bar. Varreu o degrau umas
doze vezes. O suor lhe rolava pelas faces e lhe pingava nos ps.
Percebia que se ia aproximando do bar. Podia sentir perfeitamente
o cheiro da cerveja e da aguardente. Era como o enxofre do mais
profundo inferno arrastando-o com uma fora gigantesca.
     Ele agora estava no meio da calada, varrendo sempre.
Varreu a parte que ficava em frente da Casa da Misso e comeou
a varrer tambm a sarjeta. Seus lbios estavam plidos e seus
dentes rangiam. Tremia como se estivesse embriagado. Sua alma
tremia tambm.
      Agora estava exatamente em frente ao bar e olhava a tabuleta;
podia ver por sobre a porta de vidro as garrafas de usque e cerveja.
Burns passou a lngua pelos lbios e subiu a calada, olhando
disfaradamente para os lados. A porta do bar se abriu, deixando
passar algum. De novo o penetrante cheiro do lcool impregnou o
ar frio e Burns deu mais um passo para a porta. Quando ps a
mo nela para abri-la, uma figura alta dobrou a esquina. Era o
bispo.
     Ele agarrou Burns pelo brao e arrastou-o pela calada. Mas
o infeliz parecia enlouquecido pelo desejo do lcool. Debatia-se e
com um palavro deu um soco no bispo. Ela nem sabia o que
estava fazendo. O soco atingiu o rosto do bispo provocando um
ferimento. Ele agarrou Burns como se ele fosse uma criana e
carregou-o literalmente para dentro, deixou-o no vestbulo e
encostou-se na porta.
      Sem uma queixa, mas com profunda tristeza, o bispo ficou ao
lado de Burns dentro da Casa da Misso. Burns caiu de joelhos,
soluando e orando. O bispo ali permanecia, ofegante, cansado do
violento esforo, embora Burns no tivesse uma compleio to
forte para o porte fsico do bispo. Ele parecia desolado, mas cheio
de compaixo.
     "Ore, Burns, ore como nunca orou antes! Nada mais pode
salv-lo!"
      "Ore comigo, bispo.  Deus, salva-me! Oh, salva-me do meu
inferno!"
     O bispo fez uma orao como s ele podia fazer, ajoelhado ao
lado de Burns.
    Depois disso eles se levantaram e Burns foi para o seu quarto.
Quando saiu,  tarde, estava humilde como uma criana. O bispo
parecia mais velho depois dessa experincia, trazendo em seu
corpo as marcas do Senhor Jesus. Realmente aprendera um pouco
mais o que era andar nos passos do Salvador.
     Mas, e as casas de bebidas? As tavernas, os botequins, os
cafs ali estavam, ao longo da rua, como outras armadilhas para
Burns! Quanto tempo resistiria ele ao aroma tentador? O bispo foi
at a escada. A cidade inteira parecia impregnada do cheiro de
cerveja e de aguardente. "At quando, at quando, Senhor?"
exclamou ele. O Rev. Bruce chegou e os dois comearam a
conversar sobre Burns e sua tentao.
     "Alguma vez voc procurou saber a quem pertence esta casa
aqui ao lado?" perguntou o bispo. "No, ainda no pude me
preocupar com isso, mas vou indagar", respondeu o Rev. Bruce.
      Dois dias depois entrou no escritrio de um dos membros da
Igreja da Avenida Nazar com o objetivo de conversar com ele sobre
o assunto, tendo sido cordialmente recebido por seu antigo
paroquiano, que o convidou para sua sala e pediu-lhe que usasse o
tempo que fosse necessrio.
     "Desejava falar-lhe a respeito do imvel que fica ao lado da
Casa da Misso, onde, como sabe, o bispo e eu agora trabalhamos.
Vou expressar-me francamente, pois a vida  muito curta e muito
sria para ns dois e no comporta hesitaes neste terreno.
Clayton, voc cr que seja direito alugar aquela casa para um
botequim?"
     A pergunta do Rev. Bruce foi direta e o efeito instantneo. O
homem ficou vermelho, depois muito plido e escondeu o rosto
entre as mos. Quando o levantou, o Rev. Bruce viu, admirado que
havia lgrimas naqueles olhos.
     "Reverendo, o senhor sabe que assumi o compromisso com os
outros naquela manh?"
     "Sim, lembro-me."
     "Mas o senhor no sabe como tenho sido atormentado por
no cumpri-lo. Essa propriedade tem sido a tentao de que o
Diabo se tem servido contra mim.  o melhor aluguel que tenho
presentemente. Um minuto apenas antes de o senhor entrar, eu
estava em grande agonia, pensando como, por um pouco de
dinheiro, estava negando a Cristo, a quem prometi seguir. Sei
perfeitamente que Ele nunca alugaria uma casa para semelhante
fim. O senhor no precisa me dizer mais nada, meu caro Rev.
Bruce."
     Clayton estendeu a mo ao Rev. Bruce, que a apertou
fortemente. Da a pouco o pastor se retirou. Porm somente muito
tempo mais tarde o Rev. Bruce veio a saber toda a verdade acerca
da luta ntima por que passou Clayton. Era apenas uma parte da
histria da Igreja da Avenida Nazar desde aquela memorvel
manh em que o Esprito Santo sancionou o compromisso dos
membros da igreja. Nem o bispo nem o Rev. Bruce, ao se
submeterem, no seu servio,  orientao dos impulsos divinos,
sabiam ainda que o Esprito estava pairando sobre toda aquela
cidade pecaminosa, desejando ardentemente que os discpulos
respondessem  chamada do sacrifcio e do sofrimento, comovendo
os coraes frios e indiferentes, inquietando os negociantes e
capitalistas na sua luta para ganhar mais riquezas e operando em
todas as igrejas, como nunca na histria da cidade. O bispo e o
Rev. Bruce tinham j visto coisas maravilhosas no pouco tempo de
vida da Casa da Misso. Mas veriam ainda coisas maiores,
revelaes mais admirveis do poder divino, que no julgavam
possveis nesta poca do mundo.
      Dentro de um ms a casa de bebidas ao lado da Casa da
Misso foi fechada. O contrato com o inquilino terminara e Clayton
no s deixou de renov-lo, mas ps o edifcio  disposio dos
diretores da Casa da Misso, cujos trabalhos se multiplicavam
tanto que a antiga casa se tornara insuficiente para as novas
iniciativas que pensavam introduzir no estabelecimento.
     Uma das mais importantes era o Departamento de
Alimentao, cuja iniciativa pertencia a Felcia. Menos de um ms
depois que Clayton doou a propriedade  Casa da Misso, Felcia
estava instalada precisamente no salo onde tantas almas se
haviam perdido, funcionando como Chefe do Departamento e
tambm de uma escola para moas que desejassem se empregar
como criadas. Ela agora morava com os Bruce, na Casa da Misso,
juntamente com outras jovens da cidade. Marta, a violinista, ficou
na casa em que o bispo as descobrira e ia, em determinadas tardes
da semana, dar lies de msica na Casa da Misso.
     "Felcia, conte-nos agora qual  seu plano", pediu-lhe o bispo
certa tarde quando, num dos raros intervalos do trabalho, ele e o
Rev. Bruce se encontraram com ela.
      "Bem, h muito tempo venho pensando no problema das
moas empregadas", disse ela com um ar de sabedoria que fez
sorrir a sra. Bruce, vendo aquela jovem bela e entusiasta
transformada numa nova criatura pela promessa que havia feito de
viver de acordo com o exemplo de Cristo. "E cheguei a certas
concluses quanto a este assunto, que os homens no so capazes
de compreender, mas que a sra. Bruce compreende perfeitamente."
     "Reconhecemos nossa inexperincia neste assunto, Felcia.
Continue", interveio o bispo humildemente.
      "Pois  isto que pretendo fazer: o edifcio ao lado 
suficientemente grande e podemos dividi-lo em quartos, como
numa casa de famlia. Meu plano  reformar a casa e depois
ensinar economia domstica e arte culinria s moas que
pretendem se empregar. O curso durar seis meses; nesse tempo
ensinarei arte culinria, asseio, outras prendas domsticas e amor
ao trabalho."
     "Pare, Felcia!" interrompeu o bispo, "esta no  uma era de
milagres!"
      "Ento comearemos com um", replicou a jovem. "Sei que
parece impossvel, mas vou tentar. J sei de cerca de vinte moas
que faro o curso e, se pudermos desenvolver nelas o esprito de
solidariedade, tenho certeza de que seriam de grande valor para
elas. Sei que a alimentao pura e boa j est operando revolues
em muitas famlias."
     "Felcia, se voc puder realizar metade do seu plano j ser
uma bno para a comunidade", disse a sra. Bruce. "No sei
como voc poder realizar isso, mas peo a Deus que a abenoe no
seu esforo."
     "Assim dizemos todos ns", exclamaram o Rev. Bruce e o
bispo. Felcia atirou-se ao trabalho que planejara com o
entusiasmo que lhe vinha de sua nova concepo da vida crist,
que se fortalecia cada vez mais.
     A cada dia o plano de Felcia se tornava mais vivel,
excedendo mesmo a todas as expectativas. Ela dispunha de um
maravilhoso poder de persuaso, e ensinava suas alunas com
surpreendente rapidez a fazer toda sorte de servios domsticos.
Dentro de algum tempo, as que seguiam o curso de Felcia
tornaram-se as melhores empregadas da cidade. Mas no nos
antecipemos. A histria da Casa da Misso ainda no foi escrita.
Quando o for, a parte de Felcia ser extraordinariamente
importante.
      No rigor do inverno, Chicago apresentava, como todas as
grandes cidades do mundo, aos olhos da Cristandade, o maior
contraste entre ricos e pobres, entre o conforto e o luxo, de um
lado, e a misria e a luta desesperada pelo po, de outro. Era um
inverno rigoroso, porm alegre. Nunca se vira tal sucesso de
festas, bailes, banquetes e divertimentos. Nunca os teatros ficaram
to cheios de espectadores elegantes. Nunca houve tal exibio de
jias, vestidos e carruagens. Mas, por outro lado, nunca foi to
grande a misria e to cruel o sofrimento, entre as classes pobres!
Jamais o vento soprara to glacial sobre o lago e as casas vizinhas
 Casa da Misso. Jamais a necessidade de roupas, combustvel e
alimentos importunou de modo to horrvel os pobres da cidade!
Noite aps noite, o bispo e o Rev. Bruce, com seus auxiliares,
saam para arrancar homens e mulheres e crianas das torturas
das privaes fsicas. Grandes quantidades de alimentos e roupas,
bem como grandes somas de dinheiro foram doadas pelas igrejas,
pelas sociedades beneficentes, pelas autoridades pblicas. Mas,
em todos esses auxlios, no se podia ver demonstrado um
sentimento pessoal do esprito cristo. Os que ofereciam ddivas
achavam que com isso j faziam o suficiente e no se interessavam
mais por aqueles a quem ajudavam. O bispo sentia seu corao
desfalecer quando constatava esse fato. Os homens davam
dinheiro, mas no queriam saber de dar-se a si mesmos. E o
dinheiro que davam no representava nenhum sacrifcio pessoal,
porque no lhes fazia falta. Eles davam o que era mais fcil, o que
os incomodava menos. Onde estava o sacrifcio nessas ddivas?
Era isso seguir a Jesus? Era isso caminhar com Ele? O bispo
pensava nos membros ricos e aristocratas de sua antiga
congregao e se espantava ao notar quo poucos eram os homens
e mulheres das classes finas das igrejas que estavam prontos a
colaborar de fato com alguma coisa por amor  humanidade
sofredora. A caridade seria apenas a ddiva de roupas usadas?
Seria apenas uma contribuio de dez dlares, entregue ao
cobrador de uma sociedade beneficente da igreja? Por que no iam
os homens entregar pessoalmente suas ofertas? Por que as
mulheres no deixavam um pouco suas recepes e festas
musicais para irem pessoalmente entregar suas contribuies,
cheias de simpatia, em benefcio da humanidade doente, sofredora
e pecaminosa da metrpole? A caridade seria exercida fcil e
convenientemente por meio de organizaes? E possvel programar
as afeies de modo que o amor faa os servios desagradveis por
intermdio de terceiros?
      Tudo isso perguntava o bispo, enquanto enfrentava o pecado
e a tristeza daquele amargo inverno. Carregava sua cruz com
alegria, mas indignava-se interiormente, vendo como eram
numerosos aqueles que descarregavam sobre uns poucos os
deveres da verdadeira caridade. Contudo, o Esprito se movia nas
igrejas, silenciosa mas poderosamente, mesmo no corao de seus
membros mais aristocratas, mais ricos e mais amantes das
comodidades que evitam o envolvimento com a necessidade
flagrante, como se esta fosse molstia contagiosa.
      O movimento do Esprito impressionou os cooperadores da
Casa da Misso de uma forma surpreendente numa certa manh.
Talvez nenhum incidente daquele inverno tenha mostrado to
claramente quanto o movimento j havia crescido e produzido sob
o comando e exemplo do Rev. Bruce e de seu amigo bispo. Era o
fruto do cumprimento da promessa de imitar o que Jesus faria.



                      VINTE E NOVE
      A hora do caf da manh na Casa da Misso era a melhor
ocasio do dia, o momento em que toda a famlia encontrava um
intervalo para confraternizao. Era uma hora de descanso mental
e espiritual, uma alegria e um bom humor sadios e agradveis. O
bispo trazia sempre um repertrio de boas histrias. O Rev. Bruce
vinha com sua anedotas e fatos pitorescos antigos e atuais. O
grupo desses discpulos se retemperava naqueles momentos com
esse humor sadio que os fazia esquecer aquela atmosfera de
tristeza e cansao que preenchia todas as outras horas do dia.
Segundo o bispo, esses momentos de alegre camaradagem era um
dom divino, pois, como seres humanos submetidos a presses
desgastantes, necessitavam de uma vlvula de escape que os
ajudasse a manter a sanidade fsica e mental.
    Naquela manh o bispo lia em voz alta para que todos
acompanhassem trechos de um jornal matutino. De repente ele
parou e ficou srio e triste. Os demais olharam para ele e ficaram
em silncio e inquietos.
     "Morto a tiro quando furtava um saco de carvo de uma
carroa! Sua famlia estava enregelada pelo intenso frio e ele estava
desempregado havia seis meses. Sua mulher vive numa casa
pequena de trs cmodos na zona oeste. Uma criana estava
embrulhada em farrapos de pano!"
      O bispo leu essas manchetes devagar e com um acento triste
na voz. Em seguida leu o relato pormenorizado do reprter,
incluindo sua visita ao lugar onde a famlia vivia. Ao terminar a
leitura, o silncio em volta da mesa era total. O bom humor foi
substitudo pela realidade de mais uma tragdia humana. Em
torno da Casa da Misso havia uma cidade que rugia e matava.
Naquele mesmo instante ouvia-se l fora o tropel da vida humana
que passava, muitos certamente para o trabalho, mas milhares
caminhando para o nada, afogando-se na torrente, quem sabe em
busca de emprego, de roupa ou de comida, tentando quem sabe a
ltima esperana, morrendo literalmente numa cidade de
abundncia, sem ter o privilgio de trabalhar e, por isso,
sujeitando-se a passar fome e frio ou embriagando-se para
esquecer, adoecer e morrer, e muitas vezes matar.
     Houve diversos comentrios dos que estavam  mesa. Um dos
recm-chegados, um jovem que se preparava para o ministrio,
disse:
     "Por que esse infeliz assassinado no procurou uma
sociedade de beneficncia ou as autoridades responsveis? No
consigo entender como, mesmo vendo as coisas pelo seu lado pior,
uma cidade rica, cheia de cristos, deixasse de socorrer algum
necessitado de comida ou combustvel."
      "Tambm acho que isso no deve acontecer", interveio o Rev.
Bruce, "mas no conhecemos a histria desse homem e de sua
famlia. Ele provavelmente recorreu a algum ou alguma entidade,
talvez muitas vezes, e num momento de desespero resolveu o
problema por sua prpria conta. Tenho tido notcias de casos como
este neste inverno."
     "Este  um caso terrvel, mas o aspecto pior", acrescentou o
bispo, " que esse homem estava sem trabalho havia seis meses."
     "Por que essa gente no vai para o interior?" perguntou o
estudante de teologia.
     Algum que se encontrava  mesa e que havia feito um
estudo das oportunidades de trabalho no interior respondeu 
pergunta. De acordo com esse analista os lugares do interior onde
havia possibilidade de trabalho as vagas eram poucas para um
emprego permanente, dando-se preferncia a pessoas sem famlia.
Suponhamos que a esposa ou um filho do trabalhador ficasse
doente. O que esse homem poderia fazer? Outra coisa: se a pessoa
com famlia procura um trabalho, como pode ela arcar com os
custos de uma mudana, visto que ele j estaria desempregado na
cidade? H numerosos entraves para que um trabalhador com
famlia consiga servio no interior, levando em conta ainda que, na
maioria dos casos, esses servios so temporrios.
    "Agora ficaram a mulher e os filhos", disse a esposa do Rev.
Bruce. "Onde foi que aconteceu? Tem o endereo da casa?"
     O bispo procurou na notcia e informou: "Vejam s, foi aqui
pertinho, no bairro Penrose. Pode ser at uma das casas que ele
aluga. Creio que Penrose  dono da metade das casas daquele
bloco. Elas esto entre as piores moradias nesta parte da cidade. E
Penrose  membro da igreja."
     "Sim, ele pertence  Igreja da Avenida Nazar", esclareceu o
Rev. Bruce, como que falando para si mesmo.
     O bispo levantou-se da mesa com o semblante carregado. Era
a prpria imagem da ira divina. Ele se preparava para dizer algo
fulminante em forma de denncia, uma atitude rara nele, quando
soou a campainha. Um dos presentes foi atender.
    "Por favor, diga ao Rev. Bruce e ao bispo que desejo v-los.
Sou Clarence Penrose. O Rev. Bruce me conhece."
     Toda a famlia sentada  mesa do caf ouviu claramente cada
palavra do visitante. O bispo trocou um olhar significativo com o
Rev. Bruce e ambos imediatamente e se dirigiram ao corredor da
entrada.
     "Entre. Penrose", convidou o Rev. Bruce, levando o visitante 
sala de recepo. Fechou a porta e conversaram os trs.
     Clarence Penrose era um dos homens mais elegantes de
Chicago. Vinha de uma famlia aristocrtica de grande fortuna e
alta posio social. Ele pessoalmente era muitssimo rico e possua
muitas propriedades espalhadas por toda a cidade. Era um dos
antigos membros da igreja que fora do Rev. Bruce. Est ali agora
diante dos dois ministros demonstrando um certo embarao e
agitao certamente por causa daquela dolorosa ocorrncia. Estava
plido e seus lbios tremiam quando ele falava. Quando Clarence
Penrose havia passado antes por uma emoo to estranha?
     "Estou aqui por causa desse caso que ocorreu: a morte de um
dos meus inquilinos. Os senhores devem ter lido a notcia.
      A famlia mora naquela casa h muito tempo.  um
acontecimento lamentvel. Mas isto no  o principal motivo de
minha visita." Ele balbuciava as palavras e olhava com ansiedade
para os dois pastores. O bispo tinha ainda as feies carregadas.
Em seu modo de ver, no era possvel aceitar que aquele homem
rico, elegante e despreocupado nada tivesse feito, presumivelmente,
por aquela famlia. Se havia algum que poderia evitar uma
tragdia como essa era ele, Clarence Penrose, sem necessidade de
sacrificar sua vida fcil e luxuosa. Que lhe custaria amenizar as
condies de vida daquela gente que vivia em sua casa?
      Penrose voltou-se para o Rev. Bruce: "Pastor", exclamou ele, e
havia como que um terror infantil em sua voz. "Vim para dizer-lhe
que passei por uma experincia to esquisita que nada de
sobrenatural poderia explicar. O senhor est lembrado de que fui
dos que assumiram a promessa de fazer o que Jesus faria. Achava
ento, pobre louco que fui, que estava vivendo como um verdadeiro
cristo. Contribua com liberalidade daquilo que me sobejava,
tanto para a igreja como para obras de caridade. Mas nunca me
entreguei a mim mesmo at o ponto de me sacrificar. Tenho vivido,
desde aquele domingo, num verdadeiro inferno de contradies.
Talvez o senhor se lembre de que minha filhinha, Diana, assumiu
o compromisso junto comigo. Nestes ltimos tempos ela vem
fazendo uma poro de perguntas a respeito dos pobres e dos
lugares onde moram. Ontem  tarde uma dessas perguntas me
tocou o corao: 'O senhor possui algumas dessas casas onde os
pobres moram? So elas bonitas e quentes como a nossa?' O
senhor sabe como as crianas fazem certas perguntas. Deitei-me 
noite atormentado pelo aguilho da conscincia. No podia dormir.
Parecia-me estar no dia do juzo. Via-me diante do Juiz Supremo.
Era-me exigido que prestasse contas a Deus dos atos de minha
vida. Quantos pecadores eu tinha visitado na priso? Como
administrar os bens a mim confiados? Que fizera desses cortios
onde o povo treme de frio no inverno e fica sufocado de calor no
vero? Dediquei-lhes algum pensamento a no ser o de receber os
aluguis? Onde e quando sofri por causa deles? Faria Jesus o que
fiz e estou fazendo? Cumpri o meu compromisso? Como usei o
dinheiro, a cultura e a influncia social que possuo? Usei-os para o
benefcio da humanidade, para aliviar sofrimentos, para levar
alegria aos oprimidos e esperana aos desesperados? Tenho
recebido muito. Quanto tenho dado? Vi aquela cena to
distintamente como estou vendo os senhores. No pude distinguir
o fim da viso. Via, confusamente, Cristo, sofredor, apontando-me
o dedo para me condenar. Depois tudo se dissipou. H vinte e
quatro horas que no durmo e a primeira coisa que li, nesta
manh, foi a notcia da morte de um dos meus inquilinos. Li a
histria com um sentimento de horror e ainda no pude me livrar
desse pesadelo. Sou um grande culpado diante de Deus!"
     Penrose calou-se repentinamente. Os dois ministros olhavam-
no com ar solene. Somente o poder do Esprito poderia abalar a
alma daquele membro elegante e educado, de uma sociedade
acostumada a fechar os olhos s grandes misrias de uma cidade
grande e a ignorar inteiramente o que seja sofrer por amor de
Jesus. Aquela sala como que ficou cheia do mesmo sopro divino
que pairara sobre a igreja de Henrique Maxwell e da Avenida
Nazar. O bispo ps a mo no ombro de Penrose e disse:
    "Meu irmo, Deus tem estado bem perto do senhor.
Rendamos-lhe graas."
    "Sim, sim", murmurou Penrose. Sentou-se cobrindo o rosto
com as mos e o bispo fez uma orao. Ento Penrose disse
calmamente:
     "Querem ir comigo at aquela casa?"
     Como nica resposta, o bispo e o Rev. Bruce vestiram os
sobretudos e acompanharam-no  casa da famlia do morto.
     Desde o instante em que ps os ps naquela terrvel
espelunca, que fazia as vezes de lar e em que, pela primeira vez, se
achou em face de um abismo de sofrimentos e desesperos,
comeou para Penrose uma transformao completa em sua vida.
Seria preciso escrever uma longa histria para contar como, desde
ento, ele cumpriu seu compromisso. Que faria Jesus se possusse
cortios em Chicago ou em qualquer outra grande cidade do
mundo? Qualquer pessoa que puder dar uma resposta certa a essa
pergunta poder facilmente adivinhar o que Clarence Penrose
comeou a fazer.
     Antes que o inverno atingisse seu maior rigor, muitas coisas
aconteceram na cidade, que modificaram a vida de todas as
pessoas desta histria e daqueles que prometeram andar nos
passos de Cristo.
     Certa tarde saa Felcia da Casa da Misso com uma cesta
cheia de produtos de sua cozinha, que ia levar como amostra a um
padeiro da vizinhana. Por uma dessas coincidncias que parecem
sobrenaturais, Estvo Clyde abria ao mesmo tempo a porta de
sua oficina de carpinteiro e encontrou Felcia na calada.
     "Deixe-me levar sua cesta, por favor", pediu ele.
     "Por que diz 'por favor'? perguntou Felcia, entregando-lhe a
cesta, enquanto caminhavam.
     " que eu gostaria de dizer qualquer outra coisa", replicou
Estvo, censurando-se por sua timidez e assim mesmo se
espantando com o prprio arrojo. Ele a amava cada vez mais,
desde que a vira pela primeira vez e, especialmente, desde que ela
aparecera na oficina naquele dia com o bispo. Agora, aps vrias
semanas, estavam de novo frente a frente.
    "Que outra coisa?" indagou Felcia inocentemente, caindo na
armadilha.
     "Voc quer saber?" retomou Estvo, voltando o rosto belo e
nobre e encarando-a com o olhar de algum que possusse a
melhor de todas as coisas do universo. "Eu diria: deixa-me levar
sua cesta, querida Felcia."
      Jamais Felcia parecera to bela. Continuou seu caminho
algum tempo sem voltar o rosto para o jovem. Ela bem sabia que j
lhe tinha dado o corao havia algum tempo. Enfim, corando, disse
timidamente, enquanto um raio de ternura brilhava-lhe nos olhos:
     "E por que no diz?"
     "Mas, voc permite?"
    Estvo ficara to emocionado que se descuidou do jeito
como carregava a cesta. Felcia acudiu:
     "Sim, mas no deixe cair meus pratos!"
      "Ora, eu no deixaria cair coisa to preciosa nem por um
imprio, querida Felcia", disse o moo, que parecia estar
caminhando nas nuvens. O             que disseram       depois 
"correspondncia particular", que no temos o direito de ler.
Apenas como parte da histria, a cesta, naquele dia, no chegou ao
seu destino, e o bispo, quando passava naquela tarde por uma rua
solitria, caminhando calmamente e voltando do bairro Penrose,
onde estivera, seguindo em direo  Casa da Misso, ouviu uma
voz familiar dizendo:
     "Conte-me, Felcia, quando comeou a me amar."
      "Fiquei apaixonada por aquela apara de madeira que voc ps
atrs da orelha naquele dia em que o vi na oficina", disse a
"estranha" voz com uma risada to pura e to doce que fazia bem
ouvi-la. O bispo respondera por ela e juntou-se a eles.
     "Aonde esto indo com essa cesta", tentando fingir-se de
bravo.
     "Estamos levando... para onde mesmo, Felcia?"
    "Bispo, meu caro bispo, estamos levando para casa, para
comear..."
     "Para comear nosso lar", Estvo terminou a frase, indo em
auxlio de Felcia.
    " verdade?" Espero que me convidem para a festa, pois
conheo o valor da cozinha de Felcia.
     "O senhor ser sempre o hspede mais honrado", disse Felcia
sem procurar esconder sua felicidade. "Est satisfeito, meu caro
bispo?"
     "Sim, estou", respondeu ele, interpretando as palavras da
jovem, como ela desejava. Fez em seguida uma pausa e depois
acrescentou docemente: "Deus os abenoe!" e seguiu seu caminho
com lgrimas nos olhos e uma orao no seu grande corao,
deixando-os com sua felicidade.
     Ah! o poder divino do amor que pertence  terra no poder
ser gozado e cantado pelos discpulos do Varo de Dores, que levou
sobre si os nossos pecados? Sim, com certeza. Aqueles jovens
deviam andar de mos dadas pelo grande deserto dos sofrimentos
humanos naquela cidade, animando-se mutuamente, sentindo o
amor recproco aumentar a cada experincia partilhada, seguindo
mais de perto os passos de Jesus, por causa desse mesmo amor.
Alm disso, poderiam levar mais bnos a milhares de infelizes,
pois teriam uma casa para partilhar com os abandonados deste
mundo. "Por isso", disse Jesus, "deixar o homem seu pai e sua
me e se unir  sua mulher." Felcia e Estvo seguiram o Mestre
com um mais profundo e verdadeiro culto e devoo, por causa
daquele amor que o cu mesmo sancionava com suas mais solenes
bnos.
     Pouco tempo depois que esta histria de amor na Casa da
Misso se tornou parte de sua glria, Henrique Maxwell veio a
Chicago com Raquel Winslow, Virgnia Page, Rollin, Alexandre
Powers e o diretor Marsh. Houve uma grande reunio na sala
principal da Casa da Misso, arranjada pelo bispo e o Rev. Bruce,
que tinham conseguido persuadir Maxwell e seus companheiros a
comparecerem.
      Foram convidados para a reunio dessa noite operrios sem
emprego, miserveis criaturas que tinham perdido a f em Deus e
nos homens, anarquistas, incrdulos, livres-pensadores e gente
que nem sequer se dava ao trabalho de pensar. O auditrio
sentado em frente de Maxwell e de seus companheiros, quando a
reunio comeou, era composto das pessoas mais depravadas e
mais perigosas do bairro. O divino Esprito, porm, estava se
movendo sobre a grande cidade egosta, vida de prazeres e
consumida pelos pecados, mas que estava nas mos de Deus, sem
saber o que a esperava. Todos os que aceitaram o convite do bispo
leram, sobre a porta a divisa da Casa da Misso, ali colada pelo
estudante de teologia. No grande letreiro iluminado lia-se: "Que
faria Jesus?"
      Quando Maxwell passou sob aquela divisa resplandecente,
sentiu profunda emoo, lembrando-se do moo miservel que
primeiro pronunciara essa frase, certa manh, na Primeira Igreja
de Raymond. Iria realizar-se o seu grande desejo de ver um
despertamento geral entre os crentes? Estender-se-ia por todo o
pas o movimento comeado em Raymond? Era, em parte, para
fazer essa verificao que viera a Chicago com seus amigos e ali se
achava em face do povo da cidade. J no tremia como na primeira
vez em que falou aos operrios da estrada de ferro, mas nessa
noite, como outrora, implorava, do fundo do peito, o socorro do
Alto. Assim ele falou e, com os outros crentes, foi testemunha de
um dos mais extraordinrios acontecimentos desta vida. Ele sentia
que aquela reunio era, de algum modo, uma resposta  sua
constante pergunta: "Que faria Jesus?" A vista daqueles homens e
daquelas mulheres, por tantos anos inimigos da igreja, seu corao
clamava: " meu Mestre, ensina a tua igreja a seguir melhor teus
passos!" Seria ouvida a prece de Maxwell? Responderiam as igrejas
da cidade ao apelo para seguir a Jesus? Estariam dispostas a
imitar seu exemplo de sacrifcio e de sofrimento?



                            TRINTA
         "S uma coisa te falta: Vai, vende tudo o que tens,
         d-o aos pobres, e ters um tesouro no cu; ento
                   vem, e segue-me" (Mc 10.21).


     Quando Henrique Maxwell comeou a falar s almas reunidas
na Casa da Misso naquela noite, ele percebia que nunca havia
antes enfrentado um auditrio como aquele em toda sua vida.
Inegavelmente o Retngulo era composto de uma variedade de
tipos humanos. Porm, nem mesmo o Retngulo poderia prover
um nmero to grande de pessoas absolutamente carentes de
alguma influncia religiosa de qualquer espcie.
      Que teria ele para dizer-lhes? J se decidira quanto a isso.
Iria narrar-lhes, na linguagem mais simples possvel, alguns dos
resultados ocorridos em Raymond. Todos ali tinham ouvido falar
de Jesus Cristo e, apesar da hostilidade que nutriam contra o
Cristianismo eclesistico e contra a sociedade civil, conservavam,
contudo, algumas noes, embora vagas, do bem e da verdade;
essas noes remontavam ao humilde Campons da Galilia.
      Assim, a exposio de Maxwell despertava-lhes interesse.
"Que faria Jesus?" Terminada a narrativa dos acontecimentos de
Raymond, comeou a aplicar o princpio aos problemas sociais. O
interesse dos ouvintes manifestava-se por uma ateno respeitosa.
Os assistentes inclinavam-se para diante de um modo raro nas
igrejas, mas comum entre operrios, quando esto interessados no
que ouvem. "Que faria Jesus?" Se fosse essa a divisa, no s das
igrejas, mas dos negociantes, dos polticos, dos jornalistas, dos
operrios, de toda a sociedade, enfim, quanto tempo seria
necessrio para transformar o mundo? Donde vinha o sofrimento
da humanidade, seno do egosmo? Ningum jamais venceu o
interesse prprio, como Jesus Cristo. Se os homens o seguissem a
todo custo, a terra comearia a gozar uma vida nova.
     Maxwell, concentrado em sua prdica, no percebia o quanto
estava atraindo a respeitosa ateno daquele auditrio heterogneo
e cheio de pecado. O bispo e o Rev. Bruce, entretanto, sentados ao
lado deles, observando, vendo muitas daquelas faces que
representavam o deboche e o desprezo pelo Cristianismo, o dio 
sociedade, a prpria revolta encarnada, admiravam-se de ver como,
to depressa, sob a influncia da Casa da Misso aqueles coraes
endurecidos pela negligncia e indiferena dos homens, se abriam
ao amor.
     Mas, apesar da ateno respeitosa prestada ao orador,
ningum, nem mesmo o bispo, tinha uma idia verdadeira do
sentimento dominante naquela reunio. Havia ali vinte ou trinta
pessoas sem trabalho, que tinham lido o anncio e foram assistir 
reunio por curiosidade e para evitar tambm o vento glacial que
soprava naquela noite. Fazia muito frio e as casas de bebidas
estavam repletas. Mas no era para admirar, porque em todo o
bairro, que contava mais de trinta mil pessoas, no havia outras
portas abertas diante desses homens sem trabalho, sem famlia,
sem amigos, seno as portas dos botequins e as acolhedoras e
puras portas da Casa da Misso. Para onde, naturalmente, poderia
ir um homem sem trabalho, sem lar e sem amigos, seno para os
botequins?
     Era costume, cada vez que havia reunies desse gnero,
permitir discusso livre e franca aos assistentes. Quando Maxwell
terminou seu discurso, o bispo, que presidia a assemblia,
anunciou que qualquer pessoa podia tomar a palavra para fazer
perguntas, expor opinies ou declarar suas convices, sob a
condio de no falar mais de trs minutos, uma vez que era
elevado o nmero de presentes.
     Imediatamente muitas vozes exclamaram: "Apoiado! Apoiado!"
O bispo assentou-se. Logo um homem sentado no meio da sala
levantou-se e comeou a falar.
     "Desejo dizer que a narrao do Pastor Maxwell me interessou
muitssimo. Conheci Jack Manning, o homem de quem nos falou e
que morreu em sua casa. Trabalhei com ele, durante dois anos,
numa tipografia de Filadlfia. Jack era um bom companheiro.
Emprestou-me cinco dlares uma vez em que eu estava passando
por alguns apertos e nunca mais tive ocasio de lhe pagar. Foi
para Nova York, depois de uma mudana na direo das oficinas:
eles o puseram na rua e desde esse tempo no o vi mais. Quando
apareceu a mquina linotipo, perdi meu emprego, como ele, e
desde ento rarssimas vezes acho trabalho. Dizem que as
invenes so uma boa coisa. No sou dessa opinio, mas talvez
seja preconceito meu, o que  natural quando um homem perde o
trabalho por causa da mquina. Tudo o que nos foi dito a respeito
do Cristianismo  bonito e bom, mas no acredito que todos os
membros das igrejas faam esses sacrifcios. At onde chega minha
observao, eles so to egostas, to apegados ao dinheiro como
todo mundo. Eu fao exceo para o bispo, o Rev. Bruce e alguns
outros. Mas nunca achei grande diferena entre as pessoas do
mundo, como so chamadas, e os membros das igrejas, quando se
trata de negcios e dinheiro. Uma classe  to ruim como a outra."
      " verdade!" "Tem razo!" " assim mesmo!" foram os gritos
que interromperam o orador. Mal tinha ele se sentado dois outros
homens se levantaram juntos e comearam a falar ao mesmo
tempo. O bispo chamou-os  ordem e indicou qual deles podia
falar primeiro. O escolhido comeou logo:
     " a primeira vez que me acho aqui e talvez a ltima. J
esgotei todos os meus recursos. Percorri toda a cidade  procura
de trabalho, a ponto de ficai- doente. Tenho muitos companheiros
nas mesmas condies. Gostaria de fazer uma pergunta ao
ministro, posso?
     "O Rev. Maxwell  quem deve responder", informou o bispo.
     "Pois no", completou Maxwell, "mas naturalmente no posso
garantir que v satisfazer por completo  sua pergunta."
      "Esta  a minha pergunta", prosseguiu o homem, inclinando-
se para frente e levantando um dos braos com gesto dramtico,
mas espontneo. "Gostaria de saber o que faria Jesus em meu
lugar. H dois meses que no ganho nada. Tenho mulher e trs
filhos e amo-os tanto como se fosse um milionrio. Tenho vivido do
que ganhei durante a Feira Mundial, que j se encerrou. Sou
carpinteiro e j fiz todo o possvel para achar trabalho. O senhor
disse que devemos adotar como regra a pergunta 'Que faria Jesus?'
Que faria Ele, se estivesse sem trabalho, como eu? Desejo
trabalhar. Daria tudo para trabalhar dez horas por dia, como
antigamente. Eu, minha mulher e meus filhos precisamos viver.
Mas, como? 'Que faria Jesus?' Pois o senhor diz que  a pergunta
que todos devemos fazer."
      Maxwell permanecia silencioso, com os olhos fixos sobre o
mar de rostos humanos voltados para ele. Nenhuma resposta
achava para esse homem. "Meu Deus", pensava, "esta pergunta
envolve todo o problema social, com todas as perplexidades
insolveis ocasionadas pelas falhas humanas e de condies
econmicas que criaram uma situao contrria a tudo o que Deus
preparara para a felicidade de suas criaturas. Haver, para um
homem sadio, capaz e desejoso de trabalhar, sem outro recurso
seno seus braos, coisa pior do que no achar nada para fazer e
ter de escolher entre trs perspectivas: mendigar, suicidar-se ou
morrer de fome? 'Que faria Jesus?' Era de fato uma sria pergunta
a daquele homem. Era, na verdade, a nica pergunta que podia
fazer, na suposio de ser um discpulo de Cristo. Mas, que
pergunta difcil para qualquer homem responder em tais
condies!"
     Esta e outras reflexes passavam pelo esprito de Maxwell,
bem como se impunham a seus amigos. O bispo tinha um ar to
srio e triste, que era fcil ver como essa questo o
impressionava.O Rev. Bruce abaixara a fronte. O problema
humano nunca lhe parecera to trgico como depois que tomara o
compromisso e deixara sua igreja, para se estabelecer na Casa da
Misso. "Que faria Jesus?" Era uma pergunta terrvel. E l estava
aquele homem, alto, ereto, quase trgico, ainda com o brao
estendido num apelo que, de segundo em segundo, se tornava
mais opressivo. Por fim Maxwell falou:
     "Haver aqui um discpulo de Cristo que, em condies
idnticas, tentou fazer o que Jesus faria? Se h, poder ele
responder a esta pergunta melhor do que eu."
     Um ligeiro estremecimento passou pela assemblia; ento um
homem, sentado no segundo banco da sala, levantou-se
vagarosamente. Era um velho e a mo que ps sobre as costas do
banco da frente tremia quando principiou a falar.
     "Posso dizer que j me achei muitas vezes em iguais
circunstncias e sempre tenho procurado agir de modo cristo,
apesar de tudo. No sei se alguma vez perguntei 'Que faria Jesus?'
quando estive sem trabalho, mas sei que me esforcei para ser
discpulo em qualquer contingncia. Sim", continuou o velho com
um sorriso triste que o bispo e Maxwell acharam mais pattico que
o desespero sombrio do jovem operrio, "sim, mendiguei e pedi
auxlio s sociedades beneficentes, fiz tudo o que era possvel,
quando desempregado, para alimentar-me e vestir-me; tudo,
menos roubar e mentir. No sei se Jesus faria tudo o que fui
obrigado a fazer para viver, mas sei que, voluntariamente, nunca
fiz mal a ningum quando estava sem trabalho. s vezes penso que
talvez Ele preferisse passar fome, a mendigar. No sei..."
     A voz do velho tremia e ele olhava timidamente para os
ouvintes. Fez-se silncio, logo interrompido por um homem de
espduas largas, de cabelos pretos e barba longa e espessa,
sentado um pouco distante do bispo. Quando ele comeou a falar,
quase todos se inclinaram para diante, para melhor ouvi-lo. O
homem que perguntara "Que faria Jesus em meu caso?" sentou-se
vagarosamente, interrogando seu vizinho: "Quem  aquele?"
     " Carlsen, o chefe socialista. Vamos ouvir agora alguma
coisa boa.
      "Tudo isso  asneira", comeou Carlsen, com chispas de
clera no olhar e gestos agressivos. "Todo o nosso sistema  falso.
O que chamamos civilizao est podre at  base. De nada vale
procurar esconder ou negar isso. Vivemos uma poca de trastes,
de combinaes, de associaes de capitalistas que simplesmente
matam milhares de inocentes: homens, mulheres e crianas.
Agradeo a Deus, se h um Deus, o que muito duvido, no ter eu
ousado casar-me e criar um lar. Um lar! Digamos, antes, um
inferno! Haver pior inferno do que aquele em que se acha, nesta
ocasio, esse homem, com sua mulher e trs filhos? E seu caso 
um entre mil. Entretanto, esta cidade, como todas as outras
grandes cidades, abriga milhares de pessoas que se dizem crists,
que gozam de todo conforto, sustentam luxo, vo s igrejas todos
os domingos e cantam hinos, em que prometem dar tudo a Jesus,
segui-lo, levar sua cruz! No digo que entre elas no se encontrem
algumas pessoas boas, mas v o ministro que vos falou aqui, nesta
noite, a uma dzia de igrejas aristocrticas que eu poderia indicar
e proponha-lhes o compromisso apresentado aqui hoje, e ver
como se riro dele, chamando-o de louco e fantico! Oh, no! Isso
no  o remdio! Isso para nada serve. E necessrio mudar
inteiramente o governo. E preciso reconstruir todo o mecanismo.
No creio que alguma reforma boa possa vir das igrejas. Elas no
esto com o povo, esto com os aristocratas, com a gente de
dinheiro. Os trustes e os monoplios tm seus chefes nas igrejas.
Os ministros so seus escravos. Necessitamos de um sistema que
tenha ponto de partida nas bases comuns do socialismo,
fundamentado nos direitos do povo que...*'
     Carlsen evidentemente esquecera-se dos trs minutos
regulamentares e principiava uma de suas costumeiras arengas,
que, nos lugares habituais, duraria pelo menos uma hora, quando
um homem, sentado logo atrs dele, forou-o. sem cerimnia, a
sentar-se e ergueu-se em seu lugar. Carlsen ficou furioso e
ameaou fazer barulho, mas o bispo lembrou-lhe a regra
estabelecida e ele submeteu-se resmungando por trs da imensa
barba, enquanto o novo orador se estendia em elogios ao valor de
um nico imposto, como panacia para todos os males sociais.
Esse foi seguido por um homem que clamou, com amargura,
contra as igrejas e ministros e declarou que os dois grandes
obstculos a toda a reforma verdadeira eram os tribunais e a
organizao eclesistica.
     Depois dele um homem com todas as aparncias de um
trabalhador de rua saltou para a frente e expeliu uma verdadeira
torrente de injrias contra as corporaes, especialmente contra as
estradas de ferro. Passados os trs minutos, um sujeito
grandalho, que se apresentou como operrio numa fundio,
declarou que o remdio para as injustias sociais era a associao
dos operrios. Isto, dizia ele, traria o milnio dos trabalhadores
mais depressa do que qualquer outra coisa. Em seguida um outro
comeou a explicar a causa de tanta gente estar sem emprego e a
condenar as invenes como obras do Diabo. Foi estrepitosamente
aplaudido pela assemblia.
    Finalmente o bispo declarou encerrada a discusso e pediu a
Raquel para cantar.
      Raquel Winslow tornara-se uma crente forte, sensata e
humilde desde o dia em que consagrara seu grande talento ao
servio do Mestre. Antes de cantar nessa noite havia orado como
nunca antes o fizera, pedindo a Deus, com profundo fervor, que
sua voz fizesse sua obra, a voz que considerava como propriedade
de Jesus e que no queria usar seno para Ele.
     Certamente, enquanto cantava, sua prece estava sendo
respondida. Escolhera o hino:


     "Escuta a voz do bom Jesus:
     'Segue-me, vem segue-me'."


      Maxwell lembrava-se da sua primeira noite na tenda do
Retngulo, quando a voz de Raquel acalmara o povo. O efeito na
Casa da Misso foi o mesmo. Que poder maravilhoso tem uma voz
consagrada ao servio de Deus! De fato, o grande talento vocal de
Raquel poderia fazer dela uma das mais famosas cantoras de pera
do seu tempo. Seguramente, aqueles homens nunca tinham ouvido
canto semelhante. Como poderiam t-lo ouvido? Os homens que
perambulavam pela rua entravam e sentavam-se, encantados pela
voz que "l no mundo", como dizia o bispo, nunca poderia ser
ouvida pelo comum do povo, porque o empresrio da cantora
cobraria alguns dlares pela entrada. A melodia flutuava no ar,
livre e alegre, como se fosse um antegozo da salvao. Carlsen,
com sua grande barba negra, absorvia aquela msica com emoo
e sensibilidade. Lgrimas desapontaram em seus olhos. Sua
fisionomia tomara uma expresso quase nobre. O homem sem
trabalho, que perguntara o que Jesus faria no seu caso, escutava
com as mos juntas, a boca entreaberta, esquecido, por alguns
momentos, de sua trgica situao. O canto parecia-lhe trabalho,
vveres, conforto, a vida de famlia, sua mulher e seus filhos. O
operrio que atacara violentamente as igrejas e os ministros tinha,
a princpio, a fronte erguida, com certo ar de desafio, como para
protestar contra a introduo, naquela assemblia, de qualquer
coisa parecida com um ato de culto. Mas, pouco a pouco, foi
cedendo e uma expresso de tristeza espalhou-se por sua face.
     O bispo pensava naquela noite, enquanto Raquel cantava,
que, se a humanidade pecadora depravada, perdida pudesse ouvir
a pregao do evangelho por meio de cantores como Raquel, a
vinda do reino de Deus seria apressada mais eficazmente do que
por qualquer outro poder. "Por que, oh! por que" exclamava ele em
seu corao, "os pobres tm sido tantas vezes privados de sua
parte no tesouro da msica que o mundo possui?!  porque
aqueles que recebem vozes ou dedos capazes de fazer vibrar a alma
humana ao som de melodias divinas consideram esses dons como
simples meios de ganhar dinheiro! No haver mrtires entre os
artistas do mundo? Ser que eles no sabero dar aos outros parte
do que receberam?"
      E Henrique Maxwell, por sua vez, lembrava-se daquela
assemblia em que tantas almas aceitaram a salvao, na grande
tenda do Retngulo. O que ele acabava de ver e ouvir confirmava
sua convico de que o problema das grandes cidades encontraria
sua soluo, se os cristos resolvessem seguir a Jesus como Ele
ordenou. Estariam as igrejas to afastadas do Mestre que o povo
no mais o encontrava nelas? J teriam elas perdido seu poder
sobre aquela qualidade de pessoas que nas pocas primitivas do
Cristianismo formavam justamente a maioria das igrejas? Que
havia de verdade no que dissera o chefe socialista, quando
afirmava ser intil olhar para as igrejas, esperando reforma, por
causa do egosmo de seus membros aristocratas?
     Estava cada vez mais impressionado com o fato notvel de
que os homens ali reunidos, ora encantados pela voz de Raquel,
representavam milhares de outros, semelhantes a eles, para os
quais as igrejas e os ministros tinham menos valor que os
botequins, como fontes de conforto e de felicidade. Por que isso
seria assim? Se os membros das igrejas estivessem fazendo a
vontade de Jesus, andariam agora pelas ruas multides de
homens procurando emprego, amaldioando as igrejas e buscando
conforto no lcool? At que ponto eram os crentes responsveis
pelo problema humano, tal qual era ilustrado pessoalmente,
naquela noite, na sala da Casa da Misso? Seria verdade que as
grandes igrejas das cidades se recusariam sistematicamente a
andar nos passos de Jesus, mesmo que fosse necessrio sofrer por
amor dele?
     Henrique Maxwell estava ainda pensando nas solues a
todas essas perguntas quando Raquel terminou seu cntico e a
reunio chegou ao seu final aps conversas informais entre os
presentes. Seguiu-se uma breve devocional, como era costume na
Casa da Misso, envolvendo os visitantes de Raymond e colocando-
os em contato com os estudantes e residentes. Ele combinou uma
reunio com o bispo e o Rev. Bruce, a qual se estendeu at uma
hora da manh. Sugeriu ele que se ajoelhassem novamente antes
de se recolherem, derramando suas almas e rogando pelo batismo
do Esprito sobre as igrejas de todo o pas, como nunca tinha
havido antes. E quando se encontrava sozinho em seu quarto, orou
fervorosamente em favor da obra realizada pela Casa da Misso,
que tanto o impressionou pela sua vitalidade e pela sua
consagrao.



                        TRINTA E UM
     Maxwell tencionava voltar para Raymond a tempo de ocupar
seu plpito no prximo domingo. Mas sexta-feira de manh
recebeu a visita do pastor de uma das maiores igrejas de Chicago,
que lhe pediu para que pregasse em seu lugar nos cultos da
manh e da noite.
      De incio Maxwell hesitou, mas depois aceitou o convite,
vendo nele a manifestao da vontade do Esprito Santo. Iria
verificar a verdade ou falsidade das acusaes feitas na Casa da
Misso contra as igrejas. At que ponto estariam elas dispostas a
seguir as pegadas de Jesus e a sofrer pelo Mestre? Estariam elas
de fato desejosas de sofrer por seu Salvador?
     Maxwell passou em orao quase toda a noite de sbado, pois
nunca a luta fora to renhida, em seu esprito, nem mesmo em
Raymond. Ele estava iniciando uma nova experincia. O conceito
de sua prpria vida crist estava recebendo uma nova prova:
estava sendo guiado para a compreenso de uma verdade maior do
Senhor.
     O grande templo estava repleto quando Maxwell, aps aquela
noite de viglia, se apresentou no plpito. Uma grande curiosidade
o aguardava. Todas as pessoas presentes tinham evidentemente
ouvido falar do movimento de Raymond, ao qual a renncia do Rev.
Bruce acrescentara um interesse especial; assim, pois, 
curiosidade reinante misturava-se alguma coisa mais sria e mais
profunda. Sentia-se assim Henrique Maxwell e foi com a
conscincia da presena do Esprito, que era a fora de sua vida,
que ele comeou a proferir sua mensagem.
     Apesar de suas qualidades oratrias, Maxwell ostentara uma
fora e uma eloqncia capaz de estremecer platias. Seu estilo era
vigoroso, claro, direto e convincente, mas faltava-lhe o dom de
sacudir os ouvintes, mas, desde que prometera seguir o exemplo
de Jesus, adquirira um dom mais precioso e mais eficaz em seu
novo estilo oratrio, o da persuaso, que , afinal, a chave do
convencimento. Os que o ouviram naquela manh compreenderam
a completa sinceridade e a humildade daquele homem que
penetrara at o mago de uma grande verdade.
      Depois de ter recordado brevemente o que se passara na
igreja de Raymond, entrou diretamente em seu assunto. Tomara
por tema a histria do jovem que perguntou a Jesus o que lhe era
necessrio fazer para possuir a vida eterna. Jesus, para prov-lo,
disse: "Vende tudo o que tens, d-os aos pobres, e ters um
tesouro no cu; ento vem, e segue-me." Porm o moo no estava
disposto a sofrer at esse ponto. Se, para seguir o Mestre, era-lhe
necessrio sofrer assim, deixava de segui-lo, continuando a
observar os mandamentos da lei mosaica. Desejaria acompanhar o
Salvador, mas no estava preparado para renunciar aos bens
materiais.
      " verdade", continuou Maxwell, e a expresso de seu rosto
realava um apelo to apaixonado, que seus ouvintes se sentiram
atrados como poucas vezes antes, " verdade que as igrejas de
hoje, as igrejas que trazem o nome de Cristo, se recusariam a
segui-lo, se tivessem de passar por renncias, sofrimentos,
sacrifcios e prejuzos? Esta acusao foi feita h apenas dois dias
numa numerosa assemblia nesta cidade por um cidado
incrdulo que se encontrava no auditrio. Afirmou ele que era
intil esperar qualquer reforma promovida pelas igrejas. Qual era a
base de seu raciocnio? Era unicamente a alegao de que as
igrejas so compostas, em sua maior parte, de homens e mulheres
mais preocupados com suas prprias comodidades do que com os
sofrimentos, necessidades e misrias da humanidade. At onde
isso  verdade? Estaro os cristos de nosso pas prontos a pr 
prova sua f? E aqueles que possuem grandes fortunas, estaro
dispostos a us-las como Jesus as usaria? E os homens e
mulheres abenoados com grandes talentos estaro decididos a
consagr-los  humanidade, como Cristo sem dvida o faria?
     "No  verdade que em nossa poca os crentes so chamados
a manifestar seu carter de discpulos cristos? Vocs que habitam
nesta cidade mergulhada no mal, vocs, melhor do que eu, devem
saber isso.  possvel que sigam seu caminho, sem nenhum
cuidado pela horrvel e insuportvel condio de homens,
mulheres e crianas que se perdem, no corpo e na alma, por falta
de socorro cristo? No lhes importa que o lcool mate milhares de
pessoas, mais seguramente do que as guerras? Nada tm vocs
com os milhares de homens fortes e robustos que percorrem as
ruas desta cidade e de todas as cidades, reclamando trabalho, e
que, no o achando, recorrem ao crime e ao suicdio? Podem vocs
dizer que nada tm a ver com isso? Diro que cada qual deve
tomar cuidado de si mesmo? No acreditam que, se cada um dos
cristos deste pas seguisse os passos de Jesus, a sociedade, o
comrcio e at mesmo nossa poltica e nosso governo seriam de tal
modo transformados que o sofrimento humano seria reduzido ao
mnimo? Qual seria o resultado, se todos os membros desta igreja
tentassem fazer o que Jesus fez? No  possvel dizer com
pormenores qual seria o efeito, mas  fcil afirmar e  verdade, j
comprovada, que imediatamente o problema humano comearia a
encontrar uma soluo mais adequada.'*
      "Qual  o padro da conduta crist? No  hoje o mesmo que
foi no tempo de Cristo? Ou as circunstncias atuais j o
transformaram? Se Jesus estivesse em nosso meio hoje, Ele no
chamaria alguns membros desta igreja para fazer o que ordenou
ao jovem rico e no lhes pediria que abandonassem suas riquezas
para segui-lo verdadeiramente? Creio que Ele faria exatamente isso,
se tivesse certeza de que algum membro da igreja vive mais
preocupado com suas riquezas do que com seu Salvador. Portanto,
a prova da vocao crist seria hoje a mesma que foi naquele
tempo, porque 'Jesus Cristo ontem e hoje  o mesmo, e o ser para
sempre'. Creio que Jesus exigiria, e Ele de fato o exige agora, tanto
sacrifcio e sofrimento e abnegao de seus discpulos como
quando Ele mesmo andava na terra e dizia: 'E qualquer que no
tomar a sua cruz, e vier aps mim, no pode ser meu discpulo.'
Isto , se algum no desejar fazer por amor dele, no poder ser
seu discpulo.
      "Qual seria o resultado se nesta cidade todos os membros das
igrejas comeassem a fazer o que Jesus faria? No seria fcil
explicar minuciosamente os resultados disso. Mas todos sabem
que certas coisas que so praticadas agora pelos membros das
igrejas ento se tornariam impossveis. Que faria Jesus com a
riqueza? Como faria uso dela? Que princpio regularia sua
utilizao? Viveria em grande luxo, gastando dez vezes mais em
adornos pessoais e divertimentos do que gastaria para aliviar os
sofrimentos da humanidade? De que modo ganharia Ele dinheiro?
Alugaria casas para abrir estabelecimentos para venda de lcool ou
alguma outra coisa de moralidade duvidosa? Procuraria lucros de
residncias de tal modo construdas que os inquilinos se veriam
impossibilitados de ter um lar digno e de observar as regras mais
elementares da decncia e da higiene?
     "Que faria Jesus pelo grande exrcito de proletrios, de
desempregados, de desesperados que enchem as ruas,
amaldioando as igrejas e comendo um po amargo, conseguido 
fora de muito trabalho e dificuldade? Nada faria Jesus por eles?
Considerar-se-ia isento de toda responsabilidade na remoo das
causas de um tal estado de coisas? Viveria Ele despreocupado,
entregue ao seu prprio conforto?
     "Que faria Jesus no centro de uma civilizao de tal modo
dominada pela avidez das riquezas, que as jovens empregadas nas
grandes casas comerciais no ganham o suficiente para preservar
a alma e o corpo, e lutam contra tentaes to terrveis que muitas
sucumbem no abismo horrendo da perdio? Que faria Ele em face
dessa civilizao, cuja indstria sacrifica milhares de crianas,
sem se importar com sua educao e sua moralidade, sem dar-lhes
um mnimo de afeio? Se Jesus estivesse aqui, nada sentiria,
nada diria, nada faria diante de semelhantes absurdos, conhecidos
por todos os homens de negcios?
      "E o que Jesus faria no  o que seus discpulos devem fazer?
Ele no lhes ordenou que seguissem seus passos? Quanto  que o
Cristianismo de nossos dias est sofrendo por Ele? O Cristianismo
de hoje precisa de mais sacrifcio pessoal. Cumprem as igrejas seu
dever de seguir a Jesus quando do algum dinheiro para
estabelecer misses ou prestar socorros em casos de extrema
necessidade?  sacrifcio para um homem que possui dez milhes
dar dez mil para uma obra de beneficncia? No est ele dando
alguma coisa que no lhe custou nenhum sacrifcio pessoal? No 
verdade que os discpulos hoje, na maior parte das igrejas, tm
uma vida egosta, fcil, luxuosa, muito longe de qualquer idia de
sacrifcio? Que faria Jesus?
      "O Cristianismo necessita imperiosamente em nossos dias do
elemento pessoal. 'O ato de dar alguma coisa pouco ou nada
significa; dar-se a si mesmo  tudo.' O Cristianismo que
desconhece a renncia e o sofrimento no  o Cristianismo de
Cristo.  urgente que cada homem cristo dedicado a negcios siga
o caminho do sacrifcio pessoal. A estrada de hoje  a mesma do
tempo de Jesus. O grito deste sculo ressoa, clamando por
verdadeiros discpulos, um Cristianismo novo ou, antes, o mesmo
velho Cristianismo apostlico, cujos adeptos deixaram tudo para
seguir literalmente o Mestre. Somente um Cristianismo assim ser
capaz de transformar o egosmo destruidor destes tempos. H, em
nossos dias, grande nmero de cristos apenas nominais. 
necessria uma volta urgente ao Cristianismo de Cristo. Temos
preguiosa, egostica e inconscientemente seguido uma espcie de
Cristianismo que Cristo no reconheceria. A quantos de ns,
quando gritarmos 'Senhor, Senhor!' dir Ele: 'Nunca vos conheci,
apartai-vos de mim'? Estamos prontos a tomar a cruz? Se no
estamos, se o nosso Cristianismo consiste apenas no gozo dos
privilgios do culto; em ser generoso sem qualquer sacrifcio, ter
uma vida de conforto cercado de coisas boas e amigos agradveis,
viver rodeado de respeito e, ao mesmo tempo, evitar todo o contato
com aqueles que, ao redor de ns, se acham mergulhados no
pecado e marcham para a perdio: ento, com toda certeza,
estamos longe de seguir os passos daquele que sofreu torturas e
agonias por amor da humanidade, de tal modo que o suor de
sangue escorreu-lhe pela face e que sobre a cruz bradou: 'Deus
meu, Deus meu, por que me desamparaste?'
     "Estamos ns prontos para viver uma vida nova? Estamos
prontos para considerar nossa definio do que seja ser cristo?
Que  ser cristo?  imitar Jesus.  fazer o que Ele faria.  seguir
seus passos."
      Quando Maxwell terminou seu sermo, fez um pausa e seu
olhar percorreu de tal modo o auditrio que ningum o esqueceria
jamais, embora no momento no compreendessem inteiramente
sua significao. Estavam reunidas naquela igreja elegante
centenas de pessoas que, havia muitos anos, praticavam
comodamente um Cristianismo apenas de fachada. Um grande
silncio caiu sobre a congregao. Durante esse silncio, todas as
almas presentes comearam a sentir a existncia de um Poder
Divino que tinham esquecido ou ignorado at aquele momento.
Todos esperavam que o pregador chamasse voluntrios, dispostos
a seguir o exemplo de Jesus. Mas, desta vez, Maxwell fora levado
pelo Esprito a transmitir somente a mensagem e esperar pelos
seus resultados.
     Terminou o culto com uma orao que penetrou no ntimo do
corao de seus ouvintes, e o povo comeou a levantar-se
vagarosamente. Ento aconteceu algo que seria impossvel, se as
palavras ouvidas tivessem sido simplesmente palavras humanas.
     Homens e mulheres, em grande nmero, rodearam o plpito
para cumprimentar Maxwell e declarar-lhe o desejo de se
comprometerem a seguir o exemplo de Jesus. Era um movimento
voluntrio, espontneo, que ultrapassava tudo o que Maxwell
esperava. Mas no era justamente isto que ele havia desejado? Era
uma resposta superior mesmo aos seus anseios.
     A reunio de orao que se seguiu foi impressionante como
as de Raymond. De noite, para grande alegria de Maxwell, a
Sociedade do Esforo Cristo, como um s corpo, assistiu ao culto
nessa mesma igreja e comprometeu-se, solenemente, a seguir os
passos de Jesus. Como que uma onda de poder espiritual desceu
sobre a congregao quando se aproximava o fim o culto, sendo
impossvel descrever seus efeitos.
     Foi uma data memorvel na histria daquela igreja, porm
mais ainda na vida de Maxwell. Ele voltou muito tarde para a Casa
da Misso e, depois de uma hora de conversa com o bispo e o Rev.
Bruce sobre os maravilhosos acontecimentos do dia, retirou-se
para seu quarto e continuou a pensar nas suas experincias.
     Antes de dormir, ajoelhou-se para orar e, enquanto orava,
teve uma viso do que poderia tornar-se o mundo, se a nova
maneira de considerar o Cristianismo se impusesse a toda a
Cristandade. Tinha certeza de que estava acordado; no menos
certo, tambm, de que tudo o que via, com extraordinria nitidez,
representava, em parte, realidades futuras que ardentemente
desejava. Eis o que Maxwell viu naqueles instantes:
     Viu-se a si mesmo voltando para sua igreja em Raymond,
vivendo mais simples e abnegadamente do que antes, porque
descobriu novos meios para ajudar aqueles que realmente
dependiam do seu auxlio. Entrevia, embora menos distintamente,
o tempo em que sua posio como pastor o exporia ainda a
maiores sofrimentos, por causa da crescente oposio ao seu modo
de interpretar Jesus e seu procedimento. Mas isso era vagamente
indicado e, dominando essa viso, uma voz lhe dizia: "A minha
graa te basta."
     Viu Raquel Winslow e Virgnia Page continuando sua obra no
Retngulo e estendendo sua influncia benemrita bem alm dos
limites de Raymond. Viu Raquel casada com Rollin Page e ambos
igualmente consagrados aos servios do Mestre, ambos seguindo
os passos de Jesus com uma deciso intensificada e purificada
pelo amor que os unia. A voz de Raquel continuava a ser ouvida
nos albergues do desespero e do pecado, levando almas perdidas a
Deus.
     Viu o diretor Marsh empregando seu grande saber e sua
grande influncia na purificao da cidade, para enobrecer o
patriotismo de seus concidados, para inspirar nos jovens, que o
estimavam tanto quanto o admiravam, o desejo de viverem para
Cristo, ensinando-lhes que a educao significa e impe aos que a
possuem grandes responsabilidades para com os fracos e
ignorantes.
     Viu Alexandre Powers exposto a duras provaes na vida
domstica, sofrendo pela falta de compreenso de sua esposa e de
seus amigos, mas seguindo sempre o Mestre, ao qual obedecera,
ao preo mesmo da perda de sua posio social e de seus recursos
financeiros.
     Viu Milton Wright passando por muitos e grandes reveses
materiais, prejudicado por circunstncias independentes de sua
vontade, mas saindo dessa crise com a honra salva, para
recomear e adquirir uma posio na qual ainda poderia dar, a
centenas de moos, o exemplo do que seria Jesus no comrcio.
      Viu Eduardo Norman fazendo do jornalismo, com o auxlio do
capital de Virgnia, uma fora, cujo poder a prpria nao havia de
reconhecer como um dos principais fatores da transformao de
seus princpios e na direo de sua poltica, sendo uma prova
diria do poder da imprensa crist e abrindo o caminho a uma
srie de jornais fundados e dirigidos por outros crentes que
tambm assumiram o compromisso de andar nos passos de Jesus.
      Viu Jasper Chase, que negara o Mestre, tornar-se um homem
frio e cnico, escrevendo novelas ao gosto do grande pblico, mas
em cada uma das quais se descobria uma amargura escondida, o
aguilho de um remorso que nenhum triunfo literrio poderia
dissipar.
     Viu Rosa Sterling, depois de depender por alguns meses de
sua tia e de Felcia, casar-se com um homem muito mais velho do
que ela, aceitando o fardo de uma unio sem amor, somente para
gozar de um luxo que representava para ela todo o valor da vida.
Sobre essa vida tambm havia na viso algo de confuso e sombras
temerosas que no pde ver claramente.
      Viu Felcia e Estvo Clyde casados e felizes, vivendo
entusistica e alegremente, mesmo atravs de sofrimentos, levando
sua grande e forte capacidade de servio aos piores lugares da
grande cidade e concorrendo para a salvao de almas, ao lhes
abrir as portas de um lar consagrado ao servio de Deus.
     Viu o Rev. Bruce e o bispo continuando a obra da Casa da
Misso. Parecia-lhe ver encimando a porta do edifcio,
resplendentes, em letras cada vez maiores, as palavras "Que faria
Jesus?"
      Viu Burns e um grande nmero de           seus companheiros
redimidos por Cristo, devotando-se  salvao   de homens perdidos,
vencendo suas paixes, pela graa divina, e     provando, pela vida
cotidiana que levavam, a realidade do novo      nascimento, mesmo
nos mais degradados e abandonados.
      E a a viso se turvava; confundia-se em sua orao; era mais
uma esperana do que uma realidade. As igrejas de Jesus
seguiriam o Mestre? O movimento inaugurado em Raymond e
continuado em Chicago no passaria de um movimento local,
superficial, sem a fora necessria para se estender para mais
longe? Ah! se a viso aparecesse de novo! Mas no via ele a Igreja
de Jesus na Amrica abrir o corao s influncias do Esprito,
erguendo-se at o sacrifcio de comodidades por amor do Salvador?
No vira a divisa "Que faria Jesus" escrita sobre as portas de todas
as igrejas e dominando os coraes de todos os seus membros?
      A viso se dissipou novamente, para reaparecer em seguida
mais ntida: via agora as Sociedades de Esforo Cristo
percorrendo o mundo inteiro, em interminvel procisso, precedida
de um estandarte no qual se lia "Que faria Jesus?" Nos rostos
desses jovens via raiar a alegria de sofrimentos, de sacrifcios
futuros, de prejuzos materiais, de abnegao, de martrio. Quando
esta parte da viso vagarosamente se desvaneceu, viu o Filho de
Deus chamando-o e a todos os que figuravam na histria de sua
vida. Um coro anglico cantava ao longe. Eram muitas vozes e um
grande grito de vitria. A figura de Jesus tornava-se cada vez mais
ntida e esplndida, no alto de majestosa escada. "Sim, sim,  meu
Mestre, no ter chegado o milnio da histria crist? Oh! revela-te
ao Cristianismo de hoje, faze brilhar nas trevas a luz da verdade!
Ajuda-nos a seguir-te sempre!"
     Afinal levantou-se com o temor respeitoso de quem
contemplou coisas celestiais. Sentiu ele as foras humanas e os
pecados humanos como jamais os sentira antes. E foi com uma
esperana feita de f e amor que Henrique Maxwell, discpulo de
Jesus, deitou-se para sonhar com uma Cristandade regenerada e
ver em seus sonhos as igrejas de Cristo "sem mcula, nem ruga,
nem outro defeito semelhante", seguindo fielmente a Jesus,
andando obedientemente em seus passos.



                             F I M
